Por Isabela Palhares
(Folhapress) — O número de alunos pretos e pardos nas universidades federais do país mais do que triplicou em 13 anos. Juntos, esses universitários passaram de 17% para 49% dos matriculados nessas instituições de ensino no período.
Os dados são de um estudo feito pelo Sou Ciência (Núcleo de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência), vinculado à Unifesp (Universidade Federalista de São Paulo), com base em dados do Recenseamento do Ensino Superior realizado anualmente pelo MEC (Ministério da Ensino).
Em 2009, primeiro ano em que há informação sobre a raça/cor dos matriculados, as universidades federais tinham 135.121 estudantes que se autodeclaravam pretos e pardos. Em 2022 o número saltou para 515.699.
Lei de cotas: aumento no número de alunos pretos e pardos em universidades federais

A maior ocupação das vagas por pretos e pardos é resultado da Lei de Cotas. Foto: Marcelo Camargo/ Escritório Brasil
A maior ocupação das vagas por pretos e pardos é resultado da Lei de Cotas, aprovada em 2012 e que começou a valer no ano seguinte para a seleção de alunos das universidades federais, de forma escalonada.
O estudo mostra, mas, que houve significativo aumento desses estudantes também por vagas de espaçoso aproximação, ou seja, que não são destinadas a cotistas.
O levantamento mostra que, em 2009, 124.386 alunos pretos e pardos entraram nas universidades em vagas para não cotistas, o que representou 92% dos matriculados naquele ano.
Ainda que o número de pretos e pardos que acessam o ensino superior com cotas tenha aumentado ao longo dos anos, eles ainda não são maioria. Dos 515.699 universitários que se autodeclaram pretos e pardos, 241.443 entraram pelas cotas (46,8% do totalidade). Ou seja, a maioria ainda chega às federais sem cotas.
“As cotas mudaram a faceta do nosso ensino superior. Não fosse a suplente de vagas, nós não teríamos tantos jovens pretos e pardos estudando nas universidades federais. O aumento de alunos pretos e pardos não cotistas mostra também o efeito paralelo dessa política, ela mostrou que eles pertenciam àquele lugar”, diz Maria Angélica Minhoto, uma das responsáveis pelo estudo.
Apesar do aumento, os pesquisadores destacam que o percentual de pretos e pardos ainda é inferior frente à dimensão da população negra no país. O último Recenseamento do IBGE mostrou que 55,5% da população se autodeclara preta ou parda — e exclusivamente os pardos são 92,1 milhões de habitantes (45,3% de todos os brasileiros).
“Houve um aumento significativo, mas ainda não alcançamos o ideal. Principalmente a população preta ainda tem ocupado os bancos das universidades aquém do que representam na sociedade brasileira”, afirma Minhoto.
Para ela, é preciso melhorar a notícia com os jovens que estão no Ensino Médio, já que muitas das vagas destinadas às cotas (tanto as reservadas para egressos de escola pública uma vez que as raciais) ainda ficam ociosas e acabam sendo destinadas para a ampla concorrência.
“Em muitas universidades e cursos, as vagas para cotas acabam sobrando. Isso mostra que os jovens que estão na escola ainda não sabem que o ensino superior pode ser para eles, seja porque eles não receberam orientação, seja por não acreditarem que podem ser aprovados. Também há aqueles que desistem da graduação por não terem condições financeiras”, diz a profissional.
Pé-de-Meia

O programa Pé-de-Meia, lançado neste ano pelo presidente Lula (PT), é uma das ações que podem ajudar a incentivar mais jovens da escola pública e de famílias vulneráveis a entrar no ensino superior. Foto: Escritório Brasil
Por isso os estudiosos ressaltam que a maior presença de pretos e pardos nas universidades depende também de políticas de permanência estudantil. “Mas essa política não pode ser exclusivamente depois que eles entram, precisa ser garantida antes.”
O programa Pé-de-Meia, lançado neste ano pelo presidente Lula (PT), é uma das ações que podem ajudar a incentivar mais jovens da escola pública e de famílias vulneráveis a entrar no ensino superior.
O programa prevê uma bolsa mensal de R$ 200 para que alunos do ensino médio não abandonem a escola, além de uma poupança com depósitos anuais de R$ 1.000 — tais valores só podem ser sacados ao termo do ensino médio.
Caso o aluno participe do Enem (Revista Vernáculo do Ensino Médio), ainda há mais um pagamento, de R$ 200. O objetivo do governo é, além de manter os jovens na escola, incentivar que participem do revista, principal porta de ingressão para o Ensino Superior no Brasil.