Uma das maiores ações já realizadas no país contra crimes financeiros foi deflagrada na última quinta-feira (28), reunindo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a Receita Federal, a Polícia Federal e outros órgãos. Batizada de Operação Carbono Oculto, a ofensiva teve como alvo dezenas de fundos de investimento, gestores e fintechs envolvidas em um esquema bilionário de lavagem de dinheiro atribuído à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo as investigações, o esquema movimentou bilhões de reais por meio de uma complexa rede de empresas de fachada que incluía postos de combustíveis, distribuidoras, lojas de conveniência e grandes padarias. Todas essas estruturas teriam sido criadas com uso de “laranjas” — sócios fictícios registrados para esconder os verdadeiros donos.
Troca constante de sócios e empresas "fantasmas"
Os envolvidos frequentemente alteravam os nomes dos sócios das empresas, dificultando a rastreabilidade das operações e a localização dos reais operadores do esquema. A estratégia fazia parte de um “ecossistema criminoso”, como definiu a promotoria, que utilizava negócios com diferentes quadros societários para mascarar transações ilícitas.
No centro dessa rede estariam Tharek Bannout e Amine Mourad, irmã de Mohamad Mourad, apontado como mentor do esquema. Amine é proprietária da Khadige Conveniência Ltda., também conhecida como Empório Express Ltda. — uma rede com 168 lojas de conveniência, que funcionariam como pontos estratégicos para a lavagem de dinheiro.
Redes paralelas e “testas de ferro”
Outra figura chave é Ricardo Romano, ligado diretamente ao PCC. Ele teria criado a rede de conveniência Strawberry, que utilizava os mesmos endereços antes ocupados pelas lojas de Amine Mourad, muitas delas situadas dentro de postos de combustíveis.
As investigadas Ellen Bianca Resende e Maria Edenize Gomes são apontadas como "laranjas" do Grupo Mohamad. Maria Edenize, por exemplo, é proprietária da rede de padarias Dubai, enquanto Ellen esteve envolvida na sucessiva transferência de titularidade de empresas, mantendo a ocultação dos verdadeiros donos.
Ambas seriam vizinhas no pequeno município de Santo Amaro das Brotas (SE), e têm nomes associados a outras padarias com marcas similares, como Salamanca e Iracema, sugerindo uma estratégia sistemática de ocultação patrimonial.
O nome de Tharek Bannout também aparece como sócio em padarias como a TMJ Consultoria e Gestão Empresarial Ltda., Nova Iracema Pães e Doces Ltda. e Nova Salamanca Pães e Doces Ltda., segundo registros consultados no Serasa.
Empresas em crise e expansão também estavam envolvidas
A rede criminosa ainda englobava negócios em fases distintas: alguns em recuperação judicial e outros em franca expansão. Entre os primeiros estão a Copape, formuladora de gasolina, e a distribuidora Áster, que em setembro de 2024 pediram recuperação judicial após terem suas licenças cassadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), em razão de fraudes fiscais. Juntas, informaram dívidas superiores a R$ 800 milhões.
Ambas foram adquiridas em 2020 por Mohamad Mourad por R$ 52 milhões, de acordo com o Ministério Público. À época, já enfrentavam suspeitas de sonegação fiscal e, segundo o jornal O Globo, chegaram a perder até 80% de suas vendas.
Outro negócio investigado é a Rede Boxter, que se expandiu rapidamente na capital paulista. O nome de Renan Cepeda Gonçalves, ligado à família fundadora da Boxter, aparece como figura-chave no esquema. A promotoria afirma que ele e seus familiares — Natalício Gonçalves Filho e os filhos Renan, Gabriel e Natália — utilizavam testas de ferro para operar os negócios e lavar capitais em nome do PCC.
Rede de empresas fantasmas e distribuidoras sob suspeita
Segundo os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), centenas de empresas com quadros societários fictícios foram constituídas para facilitar o esquema. Muitas delas atuavam em setores diferentes, mas dividiam o mesmo endereço físico e não apresentavam sinais de operação real.
Entre as distribuidoras de combustíveis citadas estão: Arka, Rodopetro, Alpes, Império, Maxima, Everest, VMR, Orizona, Start, Port Brazil, Estrela, Petroworld e Stoc. “Muitas apresentam sedes compartilhadas e padrões operacionais suspeitos”, afirmam os promotores nos autos.
Outras empresas também envolvidas na investigação incluem a DexxosPar, que confirmou ter sido alvo de busca e apreensão, e sua controlada GPC Química, que declarou seguir práticas legais e que não compactua com atos ilícitos.
Já a Cattalini Terminais Marítimos, outro alvo das apurações, afirmou colaborar com as autoridades e destacou que apenas presta serviços de armazenamento e logística, sem atuar na comercialização de produtos.
Respostas e silêncio
Procuradas pela reportagem do Valor Econômico, que teve acesso aos autos, as empresas Boxter, Copape, as distribuidoras mencionadas e a rede Strawberry Lojas de Conveniência não retornaram os pedidos de esclarecimento até o fechamento da matéria.
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