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Quem é quem no lobby do plástico em Brasília

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 01/12/2025 às 10:22 · Atualizado há 1 semana
Quem é quem no lobby do plástico em Brasília
Foto: Reprodução / Arquivo

Por Igor Ojeda e Vinícius Konchinski – Repórter Brasil 

Todos os anos, os mares do Brasil recebem mais de 1 milhão de toneladas de resíduos plásticos — 8% do totalidade global. Pesquisas científicas mostram que a contaminação pelos chamados “microplásticos” atinge até mesmo o leite materno.

Mas um poderoso lobby em Brasília, sobre o qual pouco se fala, vem barrando sistematicamente a adoção de medidas mais contundentes contra a poluição causada por esse material. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), trata-se da segunda maior ameaço ambiental ao planeta, detrás exclusivamente da crise climática.

A Repórter Brasil mapeou quem é quem no lobby do plástico. O levantamento mostra porquê a indústria age para barrar legislações que restringem a fabricação de certos produtos — principalmente os de uso único, porquê copos, canudos e sacolas.

Também revela porquê figuras de peso no Congresso e no governo federalista têm se mostrado mais sensíveis aos apelos econômicos de empresários do que aos argumentos científicos de ambientalistas.

“A escuta ao setor produtivo é legítima e importante, desde que equilibrada com a participação de outros atores da sociedade. O que preocupa é quando essa influência da indústria é desproporcional”, pontuou à Repórter Brasil Michel Santos, gerente de Políticas Públicas da WWF-Brasil, em reportagem de agosto.

No Legislativo, a lista é liderada por um núcleo baiano: os senadores Otto Alencar (PSD) e Jaques Wagner (PT). Ambos são notórios entusiastas do Polo Petroquímico de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, um dos maiores produtores de matéria-prima plástica do país.

Outra figura-chave no Congresso é o senador licenciado Vanderlan Cardoso (PSD/GO). Possuinte de uma fábrica de salgadinhos, sua campanha à prefeitura de Goiânia em 2024 recebeu R$ 90 milénio em doações legalmente registradas de empresários do ramo de embalagens.

Já no Executivo, é no MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Negócio e Serviços), comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que a indústria do plástico encontra seus principais interlocutores.

Entre eles, destacam-se Lucas Ramalho Maciel, secretário ajuntado de Economia Virente, Descarbonização e Bioindústria, e Washington Bonini. Maciel está sempre presente nas reuniões da agenda do plástico e mantém exposição convergente com o setor.

Bonini, por sua vez, foi o responsável por ordenar a retirada de uma proposta brasileira para a limitação da produção de determinados materiais nas negociações do tratado global da ONU sobre poluição plástica, em novembro de 2024.

Em nota enviada à Repórter Brasil, o MDIC afirma que a proteção ambiental e a redução da poluição por plásticos são prioridades do governo brasílio, “reafirmadas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e no Projecto Vernáculo de Economia Circunvalar (PNEC)”.

O Executivo, diz o texto, “reafirma sua regra em promover uma transição ecológica justa, inclusiva e responsável, que una proteção ambiental, inovação industrial e desenvolvimento sustentável”. Leia cá a nota na íntegra.

Procurados pela reportagem, Alencar, Wagner e Cardoso não haviam oferecido retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue cândido para eventuais manifestações.

Resíduos plásticos na praia do Leme, no Rio de Janeiro; Brasil despeja mais de 1 milhão de toneladas de lixo plástico no mar por ano (Foto: Fernando Frazão/Escritório Brasil)

Ex-integrante de gestões petistas é o principal porta-voz da indústria

O porta-voz mais publicado do setor em Brasília é André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química).

Atuando nesse segmento há 20 anos, Cordeiro tem relação antiga com o PT, mormente no Rio Grande do Sul, e passou por cargos importantes de administrações do partido nas esferas municipal, estadual e federalista.

Em 2005, trabalhou com Dilma Rousseff em dois ministérios. Quase duas décadas depois, integrou a equipe de transição do terceiro procuração do presidente Lula, já porquê representante da Abiquim.

“O que vemos hoje é um desequilíbrio preocupante: a indústria petroquímica tem chegada e influência muito maiores do que a sociedade social e a ciência. Enquanto o lobby trava políticas que reduziriam a poluição, toneladas de plástico continuam indo parar no mar todos os dias”, afirma Ademilson Zamboni, diretor universal no Brasil da ONG ambientalista Oceana.

Os senadores Jaques Wagner (PT/BA), Otto Alencar (PSD/BA) e Vanderlan Cardoso (PSD/GO), e André Passos Cordeiro, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Arte: Rodrigo Bento/Repórter Brasil. Fotos: Agência Senado)
Os senadores Jaques Wagner (PT/BA), Otto Alencar (PSD/BA) e Vanderlan Cardoso (PSD/GO), e André Passos Cordeiro, presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Arte: Rodrigo Bento/Repórter Brasil. Fotos: Escritório Senado)

À Repórter Brasil, a Abiquim diz atuar junto com mais de 30 entidades representativas da indústria, do negócio e dos serviços, e trabalhar na construção de um envolvente regulatório “moderno, equilibrado e fundamentado em ciência”, que priorize a competitividade da indústria e o uso “sustentável” dos plásticos.

“Agimos de forma absolutamente transparente, tornando públicas as nossas posições, com plataforma de diálogo estabelecida sobre o tema e com todas as agendas divulgadas porquê prevê a regulação do poder público”, afirma a nota. Leia cá a nota na íntegra.

Projeto de Lei que reduz produção de plástico descartável está ‘parado’ há 20 meses

Em universal, a indústria sustenta que uma eventual proibição de plásticos de uso único pode finalizar com 500 milénio empregos e derrubar o faturamento do setor em até R$ 70 bilhões anuais. Uma vez que solução, bate nas teclas da instrução ambiental e da “economia circundar”, baseada no redesenho de produtos, na reciclagem e na destinação correta de resíduos.

A Abiquim defende também a participação de catadores de material reciclável e o incentivo à inovação tecnológica porquê outros “pilares fundamentais da economia circundar”. Leia cá a nota na íntegra.

Ambientalistas, por outro lado, sustentam que esse caminho, embora importante, por si só não é técnica nem economicamente viável para dar conta do volume produzido. Por isso, advogam pelo degredo de certos tipos de plástico, porquê já ocorre em mais de uma centena de países.

“O problema da poluição de plástico é porquê uma banheira enxurro e transbordando chuva. Não adianta você permanecer tirando chuva com um balde se você não fechar a torneira”, compara Paula Johns, da ACT Promoção da Saúde.

Hoje, tramitam no Congresso Vernáculo pelo menos 41 PLs (Projetos de Lei) que propõem limitar ou regular o uso do plástico.

“É preciso proferir que projetos não avançam não porque a sociedade social organizada não trabalha para poder progredir, [e sim] porque as empresas têm uma política de lobby”, resumiu o deputado federalista Nilto Tatto (PT/SP), coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, durante um seminário na Câmara dos Deputados, em setembro.

O caso mais notório é do PL 2524, que proíbe “a fabricação, a importação, a distribuição, o uso e a comercialização” de produtos plásticos descartáveis, porquê canudos, pratos e copos.

O texto já foi reconhecido em uma percentagem do Senado, mas há 20 meses está estacionado em outro colegiado da moradia, a CAE (Percentagem de Assuntos Econômicos), sob relatoria de Otto Alencar.

Quem é quem no lobby do plástico em Brasília
Em reunião de setembro de 2025, representantes da Abiquim apresentaram ao senador Otto Alencar (PSD/BA), de terno simples, queixas contra o PL 2524/2002; André Passos Cordeiro é o último, da esquerda para a direita (Foto: Reprodução/Abiquim)

Segundo um estudo da Transparência Brasil, Alencar recebeu doações de R$ 320 milénio da Coca-Cola e R$ 1,2 milhão de outras associadas da Abir (Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas) para a corrida eleitoral de 2014, justamente a que o levou ao Senado. Juntas, essas duas contribuições representaram um quarto dos gastos da campanha.

Em novembro de 2023, representantes da Abir, em conjunto com a Abiquim, a Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) e outras entidades de classe, reuniram-se com o senador Vanderlan Cardoso e se posicionaram contrariamente ao PL 2524.

Quatro meses depois do encontro, Cardoso — portanto presidente da Percentagem de Assuntos Econômicos do Senado — designou o colega Otto Alencar para a relatoria do projeto de lei.

À Repórter Brasil, a Abir respondeu que não realizou ou realiza doações a partidos e candidatos, uma vez que “desde a promulgação da Lei nº 9.504/97 em 1997, conforme item 24, VI, são vedadas as doações a partidos e candidatos por entidades de classe”. A Coca-Cola não deu retorno.

Para a Abiquim, o PL 2524 não segue os princípios da economia circundar. “O PL prevê o degredo do plástico sem avaliação prévia de seus impactos econômicos, sociais e ambientais nos setores afetados e sociedade em universal”, diz a entidade na nota enviada à reportagem. Segundo a Abiquim, a proposta também não analisa os impactos ambientais dos materiais substitutos.

“Lutamos contra a poluição por plásticos e não contra os plásticos. Não somos favoráveis a pseudo-soluções que só tenham porquê objetivo a construção de narrativas, e não o compromisso efetivo com a melhoria das condições econômicas, ambientais e sociais, sobretudo nos países em desenvolvimento”, escreve a associação. Leia cá a nota na íntegra.

No encontro de novembro de 2023 com o senador Vanderlan Cardoso, os representantes da indústria defenderam outro texto, o PL 1874/2022. Apresentada em julho de 2022 pela Percentagem de Meio Envolvente do Senado, portanto presidida por Jaques Wagner, a proposta contempla as principais bandeiras da Abiquim.

Na visão da entidade, o projeto “organiza o marco regulatório” da política de economia circundar e abre espaço para ações estruturadas para sua promoção.

Dentre outras coisas, o texto defende a promoção do “consumo sustentável”, insiste na fórmula da reciclagem e cria um programa de economia circundar vasto, sem foco na poluição causada pelo plástico.

Um mês antes da apresentação do PL 1874, o senador baiano havia protocolado um projeto para limitar a produção de plásticos de uso único. Wagner, porém, voltou detrás em 24 horas.

Enviado à Câmara dos Deputados depois ser reconhecido no Senado, o projeto do senador baiano foi apensado (anexado) ao PL 3899/2012, que cria a Política Vernáculo de Economia Circunvalar. No final de outubro, esse último PL foi reconhecido em plenário e segue agora para votação no Senado.

Em abril, o senador Jaques Wagner (PT/BA) se reuniu com o presidente da Abiquim, André Passos Cordeiro (de paletó). Wagner já protocolou projeto de lei para limitar plásticos de uso único, mas voltou atrás em 24 horas (Foto: Abiquim/Reprodução)
Em abril, o senador Jaques Wagner (PT/BA) se reuniu com o presidente da Abiquim, André Passos Cordeiro (de paletó). Wagner já protocolou projeto de lei para limitar plásticos de uso único, mas voltou detrás em 24 horas (Foto: Abiquim/Reprodução)

Presidente da Abiquim participou de Projecto Vernáculo de Economia Circunvalar

A Abiquim é a entidade que lidera o lobby do setor privado contra qualquer restrição à produção de produtos plásticos descartáveis. Seu presidente-executivo, André Passos Cordeiro, com passagens por administrações petistas, marca presença em praticamente todas as reuniões sobre o tema com congressistas e autoridades do governo federalista, além de audiências públicas.

Entre 2024 e 2025, Cordeiro participou do grupo instituído pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Negócio e Serviços que elaborou o Projecto Vernáculo de Economia Circunvalar. Representantes da Abiplast e da Associação Brasileira da Indústria de Vitualhas também contribuíram com as discussões.

Desempenado com a visão da indústria da cárcere do plástico, o documento não faz qualquer menção à urgência de reduzir ou expulsar a produção de plásticos de uso único.

Para a Abiquim, o projecto “aponta diretamente para a consolidação do Brasil porquê referência em sustentabilidade industrial”. Na nota enviada à reportagem, a entidade faz a salvaguarda de que o grupo que o discutiu e aprovou é “formado por ministérios, integrantes da sociedade social, associações de estados e municípios e representantes do setor empresarial”. Leia cá a nota na íntegra.

Outras figuras praticamente onipresentes nas atividades de lobby do plástico são Marcelo Pimentel, colega de Cordeiro na Abiquim, e Paulo Teixeira e José Ricardo Roriz Coelho, respectivamente presidentes executivo e do Parecer de Governo da Abiplast.

Enquanto, a exemplo de Cordeiro, Pimentel e Teixeira podem ser considerados lobistas “profissionais”, Coelho tem uma trajetória de 30 anos nas indústrias de óleo e gás, petroquímica e embalagens. No período, exerceu cargos de direção e presidência em empresas porquê Vitopel, Suzano Petroquímica e Novidade Petroquímica. Outrossim, já foi diretor, vice-presidente e presidente em treino — em 2018 — da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

Procurada pela Repórter Brasil, a Abiplast optou por não se manifestar.

O Brasil é o 8º maior poluidor de plásticos do mundo. Enquanto indústria foca em “economia circular” e reciclagem, ambientalistas afirmam também ser necessário reduzir a produção de certos tipos de plástico (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
O Brasil é o 8º maior poluidor de plásticos do mundo. Enquanto indústria foca em “economia circundar” e reciclagem, ambientalistas afirmam também ser necessário reduzir a produção de certos tipos de plástico (Foto: Fernando Frazão/Escritório Brasil)

Governo recebeu indústria do plástico 10 vezes mais que ambientalistas em 6 anos

Um levantamento realizado pela Repórter Brasil mostrou que autoridades do governo federalista receberam a indústria do plástico 10 vezes mais que ambientalistas entre junho de 2019 e junho de 2025.

A estudo dos dados permite constatar uma clara intensificação do número de reuniões a partir do segundo semestre de 2022, quando foram apresentados os PLs 1874 e 2524, e foram realizados os primeiros debates do tratado global contra a poluição plástica (entre novembro e dezembro).

Em janeiro de 2023, logo depois tomar posse porquê vice-presidente e assumir a pasta do MDIC, Alckmin recebeu a Abiquim e empresas associadas para tratar sobre a agenda estratégica da indústria química.

Em março de 2024, reuniu-se novamente com a entidade exclusivamente três dias depois de Otto Alencar ter sido eleito relator do PL 2524 na Percentagem de Assuntos Econômicos do Senado. Na ocasião, o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, enfatizou a preocupação do setor com o projeto.

Foto de reunião de março de 2024 com Geraldo Alckmin, vice-presidente e titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC); governo federal recebeu dez vezes mais representantes da indústria do plástico do que ambientalistas, entre 2019 e 2025 (Foto: Divulgação/MDIC)
Foto de reunião de março de 2024 com Geraldo Alckmin, vice-presidente e titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Negócio (MDIC); governo federalista recebeu dez vezes mais representantes da indústria do plástico do que ambientalistas, entre 2019 e 2025 (Foto: Divulgação/MDIC)

A aprovação do PL 1874, bem pela indústria do plástico, estava entre os itens da agenda prioritária do governo federalista para os próximos dois anos, entregue em fevereiro deste ano aos líderes da Câmara dos Deputados por Alckmin e Alexandre Padilha, portanto ministro da SRI (Secretaria de Relações Institucionais).

O base de Padilha ao projeto já havia sido oferecido em outubro de 2023, quando o hoje ministro da Saúde recebeu a Abiquim, a Abiplast e outros representantes do setor privado e sindicatos do setor químico.

Na ocasião, depois ouvir os representantes da indústria, ele disse concordar que o PL 2524, que proíbe plásticos de uso único, não seria uma solução.

Na nota enviada à Repórter Brasil, o MDIC afirma que a economia circundar, da forma porquê proposta pelo PL 1874, é capaz de “reduzir impactos ambientais e gerar valor econômico e social”. “O desenvolvimento do Brasil depende de uma industrialização virente e inclusiva, que gere empregos de qualidade, eleve a renda média e integre cooperativas de catadores, produtores locais e comunidades tradicionais às cadeias produtivas”, diz o texto. Leia cá a nota na íntegra.

Procurada, a assessoria de prensa do Ministério da Saúde afirmou que Padilha não se manifestaria a saudação por se tratar de uma posição institucional da SRI na quadra.

 

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