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Quando os caranguejos mudaram a música

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 10/04/2024 às 00:08 · Atualizado há 1 semana

Bernardo Cotrim*

Lançado em 9 de abril de 1994, “Da Lodo ao Caos”, disco de estreia de Chico Science & País Zumbi, é uma porrada no pé do ouvido que, três décadas depois, insiste em repetir atualíssima. Gravado e produzido no mítico estúdio Nas Nuvens, de Gilberto Gil e Liminha, onde pérolas dos anos 80 uma vez que “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, e “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, foram gravadas, o álbum já nasceu clássico. Na capote, o caranguejo, habitante do mangue e bicho-símbolo do movimento, surge em colagem colorida e quase abstrata, uma vez que se formando a partir de uma interferência na antena de TV.

Dois anos antes, Fred Zero-Quatro, da filarmónica coirmã Mundo Livre S/A, dava o bizu no manifesto “Caranguejos com Cérebro”, pedra angular do mais importante movimento dos anos 90: “(…) começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de ideias pop. O objetivo era engendrar um *volta energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lodo.” O recado era explícito: a juventude de Recife (e da região metropolitana) fincava um pé na tradição, nas raízes culturais, e ligava a antena para captar uma infinidade de referências – do cinema à dança, da música aos quadrinhos, transmitindo do mangue para o mundo a síntese inrotulável que tem em “Da Lodo ao Caos” a sua obra-prima.

O caldeirão sonoro formado pelo encontro entre os riffs de Lúcio Maia, o mais criativo guitarrista brasílio desde Edgard Scandurra, e a combinação pesadíssima das alfaias com o insignificante de Dengue formava a leito para o vocal entre o hip-hop e o repente e a presença hipnótica de Chico Science, chapéu-coco, roupa e óculos coloridos, mestiço de lança moderno a emular um caranguejo no palco.

As letras eram um espetáculo à segmento: durante todo o disco, desfilam lendas urbanas uma vez que a “perna cabeluda”, referências ao cangaço e à ficção científica, sempre tendo Recife uma vez que “cenário”. As dinâmicas da cidade refletem as contradições do capitalismo: a violência, a desigualdade social, o desalento, mas também a luta pela sobrevivência e o libido de transformação da veras.

O disco arrebatou uma parcela imensa da juventude dos anos 90. Impulsionado pelo repelo causado pelos explosivos shows da filarmónica e pelos muito sucedidos clipes na MTV, o manguebeat deslocou o núcleo da música pop brasileira para o nordeste. 30 anos depois da Tropicália, Pernambuco dava à luz um movimento de afinidades explícitas. Na esteira de Chico Science & País Zumbi, outras bandas uma vez que Mundo Livre S/A, filarmónica Eddie, Comadre Fulôzinha e Rabi Ambrósio ganharam holofotes e fortaleceram o cenário artístico.

Ao longo do tempo, a influência do disco só aumentou: “Da Lodo ao Caos” foi venerado em listas de discos mais importantes (13º lugar na lista de centena maiores discos da MPB na revista Rolling Stone, e considerado o disco mais importante dos últimos 40 anos pelo jornal O Orbe), sampleado e citado por outros músicos, analisado em uma infinidade de trabalhos acadêmicos e, principalmente, no genial livro da jornalista Lorena Calábria para a coleção “O Livro do Disco”, que reconstrói de forma luzente as trajetórias, os encontros, as histórias e a ensejo que possibilitou o promanação da obra. Porquê alguém que teve a sorte de viver intensamente a explosão do manguebeat, nos anos 90, afirmo: zero mais justo.

 

*Bernardo Cotrim é jornalista e gerente de mídias do ICL

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