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A Páscoa numa Sexta-feira Santa prolongada

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 31/03/2024 às 08:17 · Atualizado há 1 dia

Uma vez que comemorar a Páscoa, a vitória da vida sobre a morte, mais ainda, a irrupção do varão novo, no contexto de uma Sexta-feira Santa de paixão, dor e morte, que não sabemos quando acaba, sob o ataque do coronavírus à toda a humanidade, a guerra na Ucrânia e o terror genocida que se instalou nas relações entre o Estado de Israel e a Filete de Gaza?

Pesarosos, mesmo dentro destas atrocidades, cabe comemorar a Páscoa com contida alegria. Ela não é unicamente uma sarau cristã mas responde a uma das mais ancestrais utopias humanas: o irromper do varão novo. Sempre houve em todas as culturas conhecidas, desde a antiga poema mesopotâmica de Gilgamés, passando pelo mito helênico de Pandora e chegando à utopia da Terreno sem Males dos tupi-guarani vigora a percepção de que o ser humano assim porquê o conhecemos deve ser ser superado. Ele não está pronto. Ainda não acabou de nascer. O verdadeiro varão está latente dentro dos dinamismos da cosmogênese e da antropogênese. Comparece porquê um projeto infinito, portador de potencialidades incontáveis que forcejam por irromper. Intui que só será plenamente ser humano, portanto, o varão e a mulher novos, quando tais potencialidades se realizarem em plenitude.

Todos os seus esforços, por maiores que sejam esbarraram numa barreira intransponível: a morte. Mesmo o mais velho, chega o dia em que vai também morrer. Inferir uma imortalidade biológica, conservadas as atuais condições espacios-temporais, porquê alguns propõem, seria um verdadeiro inferno: buscar realizar o infinito que late dentro de si e encontrar unicamente finitos que nunca o saciam. Sempre está na espera. Talvez o espírito mataria o corpo para poder realizar o infinito de seu libido.

Mas eis que um varão se levanta na Galiléia, Jesus de Nazaré e proclama: “O tempo da espera se esgotou. Aproximou-se a novidade ordem a se introduzida por Deus. Revolucionai-vos em vosso modo de pensar e de agir. Crede nessa alvissareira notícia”(cf. Mc 1,15: Mt 4,17). Conhecemos a saga trágica do profético Pregador:”veio para o que era seu e os seus não o receberam”(Jo 1.11). Ele que “passou pelo mundo fazendo o muito”(At 10,39) foi rejeitado e acabou pregado na cruz.

Mas eis que três dias depois, mulheres foram, muito de madrugada, ao sepulcro e ouviram uma voz:”Por que procurais entre os mortos, quem está vivo? Jesus não está cá. Ressuscitou”(Lc 24,5;Mc 16,6). Eis o veste novo e sempre esperado:a alvissareira notícia se realizou. De um morto emergiu um ressuscitado, um ser novo. É o sentido da Páscoa a sarau meão do Cristianismo. Seus seguidores logo entenderam que o Ressuscitado era a realização do sonho ancião da humanidade: acabou a espera. Agora é o tempo da vida plena sem a morte. Liberto do espaço e do tempo e dos condicionamentos humanos, o Ressuscitado aparece, desaparece, está presente com os andantes de Emaús, se mostra na praia e come com os apóstolos e é reconhecido ao partir o pão em Emaús.

Os Apóstolos não sabem porquê defini-lo. São Paulo, o maior gênio do pensamento cristão, escolheu a termo certa: “Ele é o Adão novíssimo”(1 Cor 15,45). O Adão não mais submetido à morte mas aquele que deixou para trás o velho Adão mortal. Uma vez que que zombando, provoca São Paulo:”Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o espantalho com o qual amedrontavas os homens? A morte foi tragada pela vitória de Cristo (1Cor 15,55). Define-o porquê sendo “um corpo místico” (1 Cor 15,44), vale expressar, é concreto e reconhecível porquê o corpo humano, mas de forma dissemelhante, com as qualidades do espírito. O espírito possui uma dimensão cósmica. Está no corpo,mas também nas estrelas mais distantes e no coração de Deus. O místico é entendido também porquê a maneira de ser própria do Espírito Santo. Ele está em tudo, move todas as coisas e enche o universo. Um texto macróbio, dos anos 50, do evangelho de São Tomé, diz belamente:”levante a pedra e eu estou debaixo dela, rache a lenha e e eu estou dentro dela, pois estarei convosco todos os dias até a plenitude dos tempos”. Levantar uma pedra exige força, trinchar lenha demanda trabalho. Mesmo ai, está o Ressuscitado, nas coisas mais comezinhas de nosso cotidiano.

Em suas epístolas, mormente aos Efésios e aos Colossenses, São Paulo desenvolve uma verdadeira cristologia cósmica. Ele “é tudo em todas as coisas”(Col 3,12); “a cabeça de todas as coisas”(Ef 1,10). O mesmo dirá no século XX, na linguagem da moderna cosmologia, o paleontólogo e pensador Pierre Teilhard de Chardin: anuncia o evangelho do Cristo cósmico.

Devemos compreender corretamente a ressurreição. Não se trata da reanimação de um sucumbido, porquê aquele de Lázaro que voltou ao que era antes e acabou morrendo. Ressurreição é a realização plena de todas as potencialidades abscoditas dentro da verdade humana. A morte não possui nenhum domínio mais sobre ele. Efetivamente é o promanação terminal do ser humano, porquê se ele tivesse chegado na culminância do processo evolutivo ou o tivesse antecipado. Na possante frase de Teilhard de Chardin, o Ressuscitado explodiu e implodiu para dentro de Deus.

A Páscoa é a inauguração do ser humano novo, plenamente realizado. Vale para todos os humanos. Portanto, tal evento santo não é individual de Jesus. São Paulo nos assegura que nós participamos desta ressurreição:”ele é as primícias (a antecipação) dos que morrem” (1Cor 5,20), “o primeiro entre muitos irmãos e irmãs”(Rom 8,29).

À luz desta sarau pascal podemos expressar que a selecção cristã é esta: ou a vida ou a ressurreição. Alegremente afirmamos e reafirmamos: não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar.

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