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A morte de Ana Clara foi crime

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 22/11/2023 às 02:19 · Atualizado há 15 horas

O cláusula desta semana é um desabafo. Escrevo sob o impacto da morte de Ana Clara Benevides, a estudante de 23 anos, de Mato Grosso do Sul, que se despediu dos pais para realizar um sonho, no Rio de Janeiro: presenciar ao show da cantora Taylor Swift. Ana Clara voltou para lar num caixão.

Segundo o testemunho de uma amiga que a acompanhava, a estudante perdeu os sentidos na segunda música do show. Suprema ironia: a música se labareda “Cruel Summer”. Em tradução livre: “Verão Cruel”.

Uma vida acabou aos 23 anos, sufocada pela ganância e pela insanidade que transformaram o estádio do Engenhão numa câmara de tortura, onde estavam 60 milénio pessoas para presenciar a um show de música. A sensação térmica no sítio chegou aos 60 graus! Ana Clara foi socorrida, mas teve uma paragem cardiorrespiratória e não resistiu.

Em plena vaga de calor, sobre a qual o Brasil inteiro foi alertado, o protocolo estabelecido pela empresa organizadora do show – a Tickets for Fun ou T4F – proibia que o público entrasse com garrafas de chuva. Lá dentro, um copo de 200ml era vendido entre R$ 8,00 e R$ 10,00. Vídeos na internet mostram que a cantora chegou a interromper o show para pedir a distribuição de chuva para os fãs. Ao que parece, não foi atendida. Pelo menos, não de consonância com a premência exigida pelas terríveis circunstâncias.

Ainda de consonância com depoimentos em redes sociais, os espaços de ventilação do estádio estavam cercados por tapumes (supostamente para melhorar a acústica do sítio). Também há relatos e imagens de pessoas que se queimaram nas grades e em placas de metal colocadas no piso. Sim, você leu evidente: placas de metal. Mais de milénio pessoas desmaiaram, outras tantas reportaram tontura, mal-estar, vômito e desidratação. Fãs também relataram ter recebido a recomendação de tomar remédio tarja preta no posto médico do estádio. Um dos efeitos colaterais dos remédios recomendados é… desidratação.

Diante da vaga de calor devastadora, ninguém da empresa pensou em retirar os tapumes? Em repartir chuva gratuitamente? Qual ou quais órgãos públicos fiscalizam um megaevento porquê esse? Houve alguma fiscalização no sítio? Ou a empresa faz o que muito entende? Há muitas questões que precisam ser esclarecidas.

Em um post no Facebook, o jornalista Alceu Castilho, publicou que o proprietário da T4F é o italiano Fernando Alterio, milionário bon vivant, morador do Jardim Europa, em São Paulo. A T4F foi fundada em 1998 e está em mais quatro países, além do Brasil. Castilho levantou que o lucro líquido da empresa foi de R$ 16,3 milhões, referente exclusivamente ao segundo trimestre deste ano, o que representa uma subida de 89% na verificação com o mesmo período em 2022.

Ainda segundo Castilho, no aglomerado de 2023 até o terceiro trimestre, a receita líquida da T4F foi de R$ 361,1 milhões, subida de 28% em relação ao mesmo período do ano pretérito. Sabe-se também que a T4F foi escopo de denúncias de trabalho análogo à escravidão durante fiscalização do Ministério do Trabalho, em março deste ano, na montagem do festival Lollapalooza, em São Paulo. A fiscalização encontrou cinco trabalhadores em condições degradantes.

São abundantes os indícios de irregularidades no show de estreia de Taylor Swift. A morte de Ana Clara não foi eventual. Foi um violação e porquê tal deve ser investigado pelas autoridades. Há responsabilidades a serem apuradas, por ação ou preterição, que vão muito além da falta de saudação com o consumidor.

Precisamos de um choque de indignação contra empresas que tratam pessoas porquê rebanho. Bateau Mouche (quem lembra?), Mariana, Brumadinho, Ninho do Urubu, Boate Kiss e essa T4F têm na raiz o mesmo descaso com a vida humana. Casos porquê esses continuarão se repetindo enquanto houver impunidade. Chega!

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