Para melhor refletir sobre o golpe de 31 de março de 1964, precisamos retirá-lo de seu contexto fragmentário porquê se fosse um evento único. A percepção fragmentária é, aliás, precisamente o que permite que a ideologia e a percepção superficial do mundo possam dominar nossa consciência e reger nosso comportamento. Sem a devida reconstrução histórica não compreendemos a lógica social maior que determina tudo que acontece na vida social. Daí que seja tão importante reconstruir e relembrar porquê foi formada a nossa “cultura brasileira de golpes de Estado”.
O ponto zero cá é Getúlio Vargas, o demiurgo do Brasil moderno em quase todas as áreas da vida social. Getúlio criou não somente as bases do capitalismo industrial e moderno e do Estado concentrado e racional no Brasil. Ele fez também a única, ainda que incompleta e parcial, “revolução cultural” brasileira na nossa história. Isso se deu pela certeza da legado africana porquê pilar da nacionalidade e da nossa identidade cultural.
É a partir de Getúlio que o samba e o futebol, porquê praticado pelos negros, foram percebidos porquê motivo de orgulho e não de vergonha. A famosa lei dos 2/3 garantia, por outro lado, que negros e mestiços pudessem deixar a marginalidade e conseguir trabalho formal protegido pela CLT. Porquê a maioria do povo preto e mestiço era percebido, até 1930, por literalmente todos, porquê a “lata de lixo” da história, declarar a valor da cultura popular equivale a uma revolução de grandes proporções. Getúlio e a certeza cultural da cultura e do preto interditou o racismo explícito no Brasil. Foi pela influência de Getúlio que se criou o “racismo cordial” brasílio, quando se permanece racista, na dimensão afetiva, mas não se assume publicamente o roupa.
O novo racismo envergonhado brasílio tem agora o duelo de restituir o preto e o mestiço para a lata de lixo da história sem tocar na vocábulo raça. Coube a Sérgio Buarque fazer esta mágica e produzir com seu talento o “vira-lata” brasílio. O “varão cordial” sem nenhuma virtude além de corrupto e de votante de corruptos. Agora a escol e a classe média branca têm uma novidade arma para criminalizar o voto e a participação popular: a pecha de corrupto, válida só para o povo mestiço e preto. A classe média branca, pela origem europeia, nunca se identificou nem nunca foi identificada enquanto tal.
Porquê o votação universal depois da Segunda Guerra veio para permanecer, era necessário se produzir uma válvula de escape toda vez que a escol e a classe média branca sentissem que seus privilégios estavam sendo ameaçados. A síndrome vira lata do povo corrupto se torna o dispositivo de poder para o conjunto antipopular das classes do privilégio. Essa ameaço se torna real toda vez que o votação universal ponha na direção do Estado um líder ligado aos interesses das classes populares, disposto a usar o orçamento público em beneficio da maioria da população.
A posse do Estado é fundamental para a escol posto que o Estado é seu ganha pão. É a posse de roupa do Estado que garante que a escol possa explorar e saquear a população porquê um todo. É uma escol improdutiva que vive da posse de monopólios estatais e políticos porquê dívida pública nunca auditada, violência no campo, juros escorchantes, privatização da riqueza pública e das empresas estatais, saque do orçamento público etc. A classe média branca se torna a tropa de choque desta escol por duas razões: Ele percebe qualquer subida popular porquê ameaço ao seu monopólio individual do conhecimento legitimo; e se sente, porquê o associado do século XIX já se sentia, segmento da lar do senhor, segmento desta mesma escol.
Desse modo, toda vez que a posse do Estado esteve com líderes populares aconteceu, invariavelmente, um golpe de Estado quase sempre fundamentado em denúncias nunca comprovadas de depravação. Getúlio inaugurou a lista que conta ainda com Jango, Lula e Dilma. O racismo cultural contra o próprio povo veio mascarar o onipresente racismo racial transformando, literalmente, o racista de classe média e da escol em padroeiro da moralidade pública. E qual moleque racista não iria gostar ver seus preconceitos sob esta ótica?
Cono a escol domina toda a grande prelo, porquê sua propriedade privada – além de controlar instituições chaves do próprio Estado, porquê hoje o Banco Médio e o Parlamento – ela pode tocar o bumbo sempre a espreita da depravação para se apropriar e saquear o Estado e suas riquezas. Esta é a cultura de golpes de Estado que se criou entre nós. Ela serve para que a República Velha se mantenha e se eternize com faceta de novidade, fazendo de conta que morreu para continuar muito viva. A função dos militares nesse contexto sempre foi fazer o serviço sujo para a escol e cobrar seu preço por meio de privilégios pessoais e institucionais. Mas a compreensão abrangente de todo o processo só é provável com a compreensão da forma específica que se dá entre nós da dominação das classes do privilégio sobre todo o resto da população.