“Sou perfeccionista”. Essa resposta clássica à pergunta sobre a maior fraqueza em entrevistas de emprego virou quase uma anedota. De fato, nossa fraqueza favorita soa quase como uma qualidade. Pela sua associação com uma busca incessante por altos padrões de desempenho, motivação, dedicação e um resultado sem falhas, o perfeccionismo ganha ares de uma fraqueza quase elogiosa. Quem não gosta de ser percebido como alguém que mantém um sarrafo alto e que não tolera entregas de baixa qualidade?
Por trás desta faceta mais luminosa de busca por excelência, porém, esconde-se outra mais sombria: a de evitar falhas. A autocrítica excessiva, o pensamento binário de tudo ou nada (perfeição versus fracasso) e a autoestima fortemente atrelada ao desempenho podem se transformar em uma âncora pesada. Ela se manifesta, por exemplo, em uma preocupação paralisante com o julgamento dos outros, no medo constante de falhar ou errar e na sensação persistente de não ser bom o suficiente.
Com isso, pesquisas mostram que a relação entre perfeccionismo e desempenho é, no mínimo, controversa. Se, por um lado, o perfeccionismo pode impulsionar esforço, diligência e engajamento – elementos importantes para melhorar a performance -, por outro lado, suas tendências contraproducentes podem anular estes ganhos. A busca incessante por um trabalho sem falhas não apenas gera ansiedade e esgotamento, mas pode comprometer a capacidade de definir prioridades. A dificuldade em flexibilizar padrões de desempenho pode levar a um uso ineficiente dos recursos limitados, como tempo e energia, resultando em um foco excessivo em uma tarefa especifica enquanto outras, igualmente importantes, são deixadas de lado.
Um ponto de atenção importante é o crescimento do perfeccionismo ao longo do tempo. Uma pesquisa publicada no "Psychological Bulletin", contemplando uma amostra de mais de 40.000 universitários americanos, canadenses e britânicos, revela que nos últimos 27 anos (de 1989 a 2016), seus níveis aumentaram significativamente. A pesquisa aponta um aumento consistente em três dimensões: auto-orientado, orientado para o outro e socialmente prescrito. Em outras palavras, as gerações mais recentes de jovens não apenas se cobram mais, mas também são mais exigentes com os outros e sentem que os outros esperam mais delas.
Uma tendência particularmente preocupante apontada pela pesquisa é o crescimento acelerado do perfeccionismo socialmente prescrito, que aumentou o dobro em relação às outras formas. Este é o tipo mais debilitante, pois as expectativas dos outros podem ser sentidas como excessivas e incontroláveis, potencializando o medo do fracasso. Não é à toa que esta forma de perfeccionismo está mais fortemente associada com transtornos psicológicos como ansiedade, depressão e fobia social.
Considerando o aumento da sua prevalência, bem como seus efeitos adversos, vale refletir sobre como melhor gerenciar nossas tendências perfeccionistas. Como sempre, exercitar a autoconsciência faz diferença. Uma boa dose de autoconhecimento nos permite reconhecer sinais de um perfeccionismo mal adaptativo, de modo a não nos deixar ser consumidos por ele. Uma observação aguçada, por exemplo, nos permite enxergar quando procrastinamos pelo receio de não entregar um trabalho à altura. Quando microgerenciamos ou não delegamos pelo receio de que a entrega não atinja padrões ideais. Quando nos concentramos mais nos erros e falhas que nos progressos e avanços. Quando o medo do julgamento alheio do nosso trabalho nos paralisa de experimentar e arriscar.
Ao identificarmos que estamos perdendo a mão, vale refletir sobre potenciais estratégias de enfrentamento. Tome como exemplo a tendência obsessiva pelo alto padrão do perfeccionista em tudo o que ele se engaja. O médico Rajani Katta, um perfeccionista confesso, compartilha uma experiência pessoal ilustrativa: ao longo de sua carreira, ele aprendeu que, enquanto em algumas atividades, como em suas cirurgias, a busca pela perfeição é inegociável, em outras a busca excessiva pode se tornar contraproducente, trazendo um retorno não-proporcional ao esforço.
Ou seja, a questão aqui é ganhar perspectiva sobre o que realmente importa e direcionar energia para o que trará maior impacto. Até que ponto vale a pena investir aquela energia extra para refinar a entrega quando ela já apresenta um bom padrão de qualidade? Quando aquele esforço ou revisão adicional, seja no seu trabalho ou no do outro, realmente melhora o resultado final? Buscar melhoria contínua e mostrar diligência são fundamentais para causar impacto, mas a dosimetria importa para que esta busca por excelência não se transforme em um obstáculo que nos afasta do propósito maior que queremos atingir.
Tatiana Iwai é professora e pesquisadora de comportamento e liderança no Insper. Coordenadora do Núcleo de Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas do Centro de Estudos em Negócios do Insper. Doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao longo de sua carreira, atuou como consultora de mudança organizacional, desenvolvendo projetos para empresas nacionais e multinacionais.