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7 em cada 10 espécies de peixes do Rio Cocó estão anêmicas, aponta estudo da UFC - Ceará

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 25/04/2025 às 12:19 · Atualizado há 1 hora
7 em cada 10 espécies de peixes do Rio Cocó estão anêmicas, aponta estudo da UFC - Ceará
Foto: Reprodução / Arquivo

Mais de 75% das espécies de peixes do Rio Cocó apresentaram anemia de moderada a severa. É o que aponta um estudo recente realizado pelo Laboratório para Avaliação de Contaminantes Orgânicos (LACOr) do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

A anemia ocorre quando há uma diminuição nos componentes do sangue essenciais para o transporte de oxigênio, como o hematócrito e a hemoglobina. A condição foi avaliada pelos pesquisadores por meio de análise de amostras de sangue coletadas dos peixes.

Foram analisados 17 peixes de quatro espécies diferentes: Mugil Curema, Centropomus parallelus, Oligoplites saurus e Eugerres brasilianus. Esse último tipo apresentou reduções críticas nos níveis de hematócrito e hemoglobina. 

Conforme a pesquisa, a anemia pode ser resultado de fatores como carência nutricional, parasitas e poluição ambiental. Outro estudo realizado pelo Labomar comprovou os elevados níveis de substâncias tóxicas na água e nos sedimentos do rio Cocó.

DADOS DA PESQUISA

Na pesquisa mais recente, foram realizadas análises de 59 poluentes originários de diversas atividades humanas, como Pesticidas Organoclorados (OCPs), Piretroides (PPs) e Triazinas (TPs). Essas substâncias são encontradas em pesticidas, inseticidas e herbicidas, respectivamente. Um total de 48 compostos poluentes foram detectados em peixes, 33 em crustáceos e 43 em moluscos. 

Os peixes apresentaram as maiores concentrações, especialmente no fígado e nas brânquias. Uma das hipóteses do estudo é que a presença de contaminantes pode interferir na produção de células vermelhas pelos animais, favorecendo condições anêmicas.

O professor Rivelino Cavalcante, um dos autores do estudo, explica que, devido a dificuldades no tratamento de resíduos sólidos e líquidos, diversas substâncias de medicamentos que podem causar anemia de forma indireta chegam aos rios e acabam influenciando na saúde dos peixes.

“A vida marinha e a saúde do meio ambiente depende muito de uma boa qualidade. No entanto, o Brasil tem muita dificuldade de gerenciar resíduos sólidos e líquidos, então isso acaba indo para o ambiente”, destaca.

Segundo o professor, a pesquisa iniciou no Rio Cocó e está sendo expandida para mais sete estuários do Nordeste. Entre eles estão o do Rio Jaguaribe (CE), o do Delta do Parnaíba (PI) e o do estuário de Recife (PE). 

IMPACTOS PARA O MEIO AMBIENTE

A anemia serve como um biomarcador sensível do estresse ambiental, o que pode indicar que poluentes presentes no ecossistema aquático estão afetando a fisiologia dos animais. 

Quando o transporte de oxigênio dos peixes fica comprometido, o metabolismo, crescimento e reprodução pode desequilibrar a cadeia alimentar e diminuir a biodiversidade no ecossistema do rio Cocó. 

“Se esses peixes continuarem adquirindo a anemia, tem uma diminuição do estoque. Eles podem entrar numa etapa de extinção”, explica Cavalcante.

O professor explica que o principal problema é a dificuldade no gerenciamento de resíduos sólidos e líquidos, o que acaba resultando na contaminação dos ecossistemas aquáticos. “Há décadas se clama por uma gestão de resíduo sólido e líquido. O poder público vem se esforçando, só que a população cresce mais do que os investimentos”, afirma. 

Além disso, a pesquisa sugere o monitoramento ambiental mais rigoroso, considerando que a saúde do ecossistema depende de uma boa qualidade, como explica Rivelino.

O QUE DIZ A SEMA

A reportagem procurou a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema), responsável pelo Rio Cocó, para tratar dos resultados da pesquisa e o que tem sido feito pelo Estado para tentar melhorar o cenário. Por meio de nota, a Pasta disse que a responsabilidade com esse cuidado é do poder público e também da população. 

Legenda: Uma das hipóteses do estudo é que a presença de contaminantes pode interferir na produção de células vermelhas

Foto: Fabiane de Paula

"A situação de poluição, não apenas do Cocó, mas de todo e qualquer recurso hídrico, precisa de intervenções não só do Poder Público, mas da participação da população também. Principalmente, no caso do Cocó que corta todo o município de Fortaleza, a quarta maior Capital do País, portanto, mais vulnerável aos poluentes antrópicos", pontuou a nota.

A SEMA relembrou que o Rio está associado uma biodiversidade única, o manguezal, ecossistema litorâneo que ocorre na transição entre a terra firme e o mar, e acrescentou: "Ademais, a poluição de um modo geral, inclusive, está associada a perda da biodiversidade, mortandade e peixes e etc".

Diante disso, continua a nota, a SEMA está atenta às ações de limpeza e de fiscalização para reduzir a presença de poluentes, por meio de um trabalho que exige tempo. "Tem relação direta com o reordenamento da Cidade, com as ligações clandestinas de esgotos na rede pluvial e com educação ambiental. No período de chuvas a concentração de poluentes aumenta, impactando diretamente na biodiversidade".

A Pasta citou que em 2015, quando foi criada, realizou, em parceria com outros órgãos, um trabalho de limpeza e dragagem do Rio Cocó, visando devolver as condições mínimas de navegabilidade, quando foram retiradas toneladas de resíduos do local.

Já em 2022, segundo a nota, a Secretaria das Cidades assinou ordem de serviço para ampliação do sistema de esgotamento sanitário de dez bairros de Fortaleza, com investimento de R$ 255 milhões, para a execução de uma Estação de Tratamento de Esgoto capaz de atender 172.291 pessoas nos seguintes bairros:

  • Itaperi
  • Serrinha
  • Dias Macedo
  • Boa Vista
  • Passaré
  • Parque Dois Irmãos
  • Mondubim
  • Dendê
  • Jardim Cearense
  • Maraponga

Com isso, foi possível abranger uma área de aproximadamente 1.670 hectares, contribuindo para elevar o percentual de cobertura de esgoto de Fortaleza em 3,51% - somente à Bacia do Rio Cocó esse incremento representa 12,16%.

Além disso, acrescentou a nota, a equipe responsável pela navegação no Cocó faz limpeza diário do leito do rio e, quando chove, a quantidade de resíduos aumenta.De janeiro a abril de 2025, foram retiradas 4,5 toneladas de resíduos - nessa contagem, não estão inclusos sofás, colchões, móveis em geral e outros utensílios despejados pela população, no leito do Cocó. 

De acordo com a SEMA, a equipe da navegação instalou três barreiras de contenção mais resistentes, confeccionadas com cabos de nylon e isopor: uma na Avenida Engenheiro Santana Júnior e duas na Avenida Sebastião de Abreu.

Por fim, a nota diz que, no contexto do Projeto RestauraCocó acontecem ações de educação ambiental com as comunidades do entorno do Parque e, dentre os objetivos, está o combate à poluição.

CAMINHOS DO RIO COCÓ

Com nascente na Serra da Aratanha, o rio Cocó percorre os municípios de Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza até desaguar no Oceano Atlântico

Legenda: Com nascente na Serra da Aratanha, o rio Cocó percorre os municípios de Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza até desaguar no Oceano Atlântico

Foto: Fabiane de Paula

Um dos rios mais urbanizados da margem equatorial do Brasil, o Cocó nasce na Serra da Aratanha. Em seus 50 km de percurso, passa por Pacatuba, Maracanaú e Fortaleza até desaguar no Oceano Atlântico, nos limites das praias do Caça e Pesca e Sabiaguaba.

Ele faz parte da bacia dos rios do litoral leste cearense, que tem área de aproximadamente 485 km². O mangue do Rio Cocó funciona como berçário de crustáceos, peixes, aves e répteis, além de outras espécies. Por isso, a degradação ameaça a reprodução de diversos animais.

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