Começa nesta segunda-feira (10/11) a COP30, conferência climática da ONU realizada em Belém (PA). Além das negociações entre líderes mundiais sobre metas climáticas, o evento também abre espaço para que startups apresentem soluções em prol de uma economia sustentável e ampliem conexões com empresários e investidores do Brasil e do exterior.
O caráter global do evento pode ser uma oportunidade para que empresas mostrem as ações adotadas em direção a uma economia sustentável e demonstrem maturidade para receber investimentos. “O Brasil tem a oportunidade de deixar de ser visto como o ‘problema’ climático para se posicionar como o território da solução”, opina Henrique Bussacos, sócio e diretor do Impact Hub São Paulo.
Segundo Bussacos, o ecossistema de inovação utiliza a tecnologia a seu favor para propor negócios rentáveis e de impacto ambiental. “O modelo antigo via o meio ambiente como um recurso a ser explorado ou compensado. As climate techs mostram que a regeneração é o negócio, buscando carbono negativo e impacto social de forma financeiramente viável e escalável”, pontua.
De ações sustentáveis promovidas durante a COP30 a espaço para apresentar o impacto de seus negócios, as startups chegam a Belém com a expectativa de ganhar visibilidade e mostrar a importância regional na concretização de mudanças de impacto.
Negócios que nascem da floresta
Foi vendo mulheres quebrando o babaçu no machado, na cidade de Coroatá, localizada na Amazônia maranhense, que Márcia Werle decidiu empreender. Ela criou uma máquina que facilitava a quebra do coco do babaçu (uma espécie de palmeira), mas a solução evoluiu. “Implantamos uma bioindústria para fazer a compra direta e fazer o aproveitamento integral do coco babaçu para produzir produtos nobres”, diz Werle. Para ela, a solução criada mostra que é possível associar desenvolvimento socioambiental à conservação da floresta.
Márcia Werle, fundadora da Apoena
Divulgação
Agora, a Apoena chega ao COP 30 para apresentar os produtos produzidos à base da matéria-prima. Entre eles estão protetor solar, óleo corporal e até mesmo uma bebida que se assemelha ao café feita com a amêndoa do babaçu. Para o evento, a startup desenvolveu embalagens menores dos produtos para facilitar o transporte em viagens de quem quiser comprar e experimentar.
“Atuamos justamente nessa parte de manutenção das florestas, de inclusão social, de regeneração e de produtos de baixo carbono”, conta Werle. “Também estamos nos preparando para rodadas de negócio para escalar pós-evento”, complementa. Além disso, Werle pretende antecipar os planos de internacionalização e de levar o modelo de negócio para outras regiões. “Ainda é uma oportunidade de apresentar o babaçu, que muitas pessoas não conhecem, mas que está em grande abundância no Brasil.”
Também pensando na variedade de insumos amazônicos nasce a Genera Bioeconomia, startup que faz a restauração produtiva de áreas degradadas na Amazônia. “Além de sequestrar carbono, a restauração produtiva cria uma cadeia alimentícia”, diz Rebeca Knijnik, cofundadora da Genera Bioeconomia. Para isso, a empresa utiliza a ideia de sistemas agroflorestais – ocupando a maior parte da área produtiva com uma mesma matéria-prima, enquanto o entorno ganha plantas diversas.
Rebeca Knijnik, cofundadora da Genera Bioeconomia
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O foco é na produção de cacau e açaí, insumos já conhecidos e de alto valor agregado – que são vendidos para a indústria. “Começamos com os dois frutos, mas queremos criar um portfólio de insumos para impulsionar a bioeconomia da Amazônia. Brincamos que queremos descobrir os novos açaís”, diz Knijnik.
No evento, ela espera apresentar o modelo de negócio para empresas e investidores. “É uma chance de criar boas conexões e atrair investidores brasileiros e estrangeiros que querem participar dessa transição para a economia regenerativa”, aponta a cofundadora. Knijnik acredita que a mitigação dos efeitos climáticos chega com um capital que circula no Brasil e no mundo.
A ForestiFi, plataforma que conecta cadeias produtivas sustentáveis da Amazônia a investidores por meio da tokenização, também marca presença na COP30. “Fomos convidados para paineis para falar sobre o nosso negócio e sobre a tese que acreditamos para o desenvolvimento da região amazônica”, revela o cofundador Macaulay Abreu.
Macaulay Abreu, cofundador da ForestiFi
Divulgação / ForestiFi
Além dos convites, a startup busca criar uma agenda estratégica de relacionamento institucional. Abreu explica que busca empresas que possam investir em tokens para as cadeias que compõem a plataforma e também instituições que investem nos territórios amazônicos, ajudando os produtores a transformarem produtos em ativos digitais. “Antes da COP também fizemos muitas reuniões com parceiros para apenas estreitar as relações durante o evento”, complementa Abreu.
“Um dos maiores gargalos para quem empreende na região amazônica são os serviços compartilhados — conectividade, educação, infraestrutura e logística. Esses fatores encarecem muito qualquer operação”, afirma o cofundador da ForestiFi. “Olhar para esses temas, que são transversais a diversos segmentos, é essencial também no pós-COP, porque impactam diretamente os negócios compatíveis com a floresta e o potencial de desenvolvimento econômico da região.”
Reconhecimento e inspiração
A Circular Brain começou a atuar nos eventos pré-COP, em São Paulo, com pontos de coleta para a reciclagem de eletrônicos. Agora, chega também com cinco pontos de coleta em Belém. A cada resíduo eletrônico coletado, uma árvore será plantada pelo SOS Mata Atlântica. A expectativa é plantar mais de 1,2 mil mudas nativas.
Marcello Fornari e Marcus Oliveira, fundadores da startup Circular Brain
Divulgação
“A ação é pontual e tem um objetivo de coletar cerca de duas toneladas de resíduos eletrônicos durante o evento. O mais importante é levar o conhecimento sobre a nossa plataforma de reciclagem para que a coleta desses resíduos se estenda a longo prazo”, conta Marcus Oliveira, cofundador da startup. Durante o evento, a Circular Brain apresentará ainda uma calculadora que demonstra a redução da liberação de carbono que as empresas têm com a reciclagem.
Fundada em 2019, a Circular Brain promove a conexão entre recicladores e fabricantes. São 50 empresas de reciclagem espalhadas pelo Brasil, com 17 mil pontos de coleta, que possibilitam que empresas e pessoas possam descartar ou ter seus eletroeletrônicos coletados. A plataforma da startup faz a rastreabilidade dos resíduos descartados – do momento em que os materiais são coletados até a destinação final adequada. Em 2025, Oliveira espera fechar com 80 mil toneladas de eletrônicos processadas.
“Nossa solução é 100% desenvolvida no Brasil em um modelo que não existe em outro lugar do mundo. Isso pode ser expandido para outros países. Queremos divulgar o nosso trabalho nesse palco para as empresas que podem ser clientes e parceiros”, aponta Oliveira.
O agronegócio também aparece com soluções voltadas à regeneração e ao uso responsável do solo. A Agrotools, plataforma de inteligência de dados para a tomada de decisões no agronegócio, também busca servir de exemplo para outras empresas. Durante a COP30, a startup apresentará alguns cases de sustentabilidade realizados ao lado de grandes empresas.
Sergio Rocha e Breno Felix, da Agrotools
Cadu de Siqueira/Divulgação
Um exemplo é o programa Reverte, realizado com a Syngenta, em que áreas degradadas são convertidas em áreas produtivas, por meio da agricultura regenerativa, que prioriza a saúde do solo e a revitalização do ecossistema. “Eu pego uma região que não está gerando receita e nem empregos e transformo em uma área produtiva, com técnicas regenerativas alinhadas à agenda do clima”, aponta Breno Felix.
Durante o evento, eles também lançam uma iniciativa focada nos pequenos produtores, que passam a transformar áreas desmatadas em ecossistemas produtivos, gerando renda e regeneração. A ação é realizada em parceria com o governo do Pará.
“Queremos criar uma provocação nas corporações que ainda não estão fazendo ações sustentáveis. Primeiro trazer reconhecimento e, depois, replicabilidade”, opina Felix.
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