Em 2024, de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o comércio de polpa de açaí no mercado internacional atingiu US$ 464.467 (cerca de R$ 2,6 milhões), equivalente a 89,3 toneladas. Até junho deste ano, foram 34 toneladas, com valor de US$ 219.573 (R$ 1,22 milhão). Segundo o Mapa, os Estados Unidos são os principais importadores do produto. O número não considera produtos prontos à base de açaí, como sorvetes e outras misturas. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) não soube informar a exportação total de açaí, derivados e subprodutos aos EUA.
Como único produtor mundial da fruta, o Brasil tem uma série de players internacionais. É o caso da franquia Oakberry. A empresa, que opera 900 franquias em 45 países, conta com 50 unidades em operação nos Estados Unidos, segundo dados noticiados em maio pelo Valor Econômico. A projeção era chegar a 70 até dezembro. Além das franquias, a empresa tem seus produtos presentes em em 500 unidades do Sprouts Farmers Market, supermercado com sede no Arizona (EUA). Todas as operações internacionais são abastecidas pela fábrica da empresa localizada em Belém (PA).
Segundo o executivo, no caso da manutenção da tarifa de 50%, a empresa deve repassar o custo aos clientes. “Não temos espaço para absorção dessa despesa”, afirma. Atualmente, os produtos exportados pela companhia para o mercado norte-americano incluem sorbets, cremes, polpa de açaí e insumos do fruto para industrialização. Entre os destinatários estão a Makai, marca adquirida pela Frooty que atua no food service americano, e clientes marca própria. O volume total da exportação representa mais de 200 contêineres ao ano.
Essa diversificação de mercados, é a principal estratégia sugerida André Cavalcanti, contador especialista em tributos da Valore Contadores. Ele afirma que o setor de açaí já opera, de modo geral, com margens de lucro apertadas, o que inviabiliza a absorção do custo adicional das tarifas adicionais a longo prazo. “Embora complexa, diversificar os mercados de exportação é uma alternativa válida caso as taxas altas se mantenham por um longo período”, diz Cavalcanti.
Ele alerta, porém, que o caminho é de difícil implementação no curto prazo, sobretudo em empresas menores. “Exige a construção de novas relações comerciais, conhecimento de regulamentações locais e adaptação logística, mas pode se tornar uma saída inevitável”, avalia.
Mesmo diante da complexidade, a busca por novos mercados já é a estratégia traçada pela Amazonbai, cooperativa localizada na foz do rio Amazonas, no Amapá. O negócio, que faturou mais de R$ 2 milhões em 2024, tem cerca de 20% das vendas provenientes dos Estados Unidos. “Estamos muito preocupados com essas tarifas, pois sabemos que vão interferir diretamente nas nossas exportações para lá. Nesse momento, estamos buscando comercializar em outros mercados”, aponta Amiraldo Picanço, presidente da Amazonbai.
Murilo Santucci Lavezzo, CEO da Açaí Town, afirma que já recebeu um pedido de cancelamento de encomenda após o anúncio do tarifaço. “Temos um cliente com mais de 400 lojas de smoothies no Canadá, e que agora também vende açaí. Mesmo fora dos EUA, a rota de entrega passa por Nova York. Já estávamos enchendo o contêiner quando pediram para cancelar, mas conseguimos convencê-lo a manter a compra, que deve chegar antes de 1º de agosto [dia previsto para o início da taxa de 50%]”, diz Lavezzo.
“Tem muita gente, de muitos segmentos, adiantando as compras. O que nos parece é que as agências de carga estão priorizando aqueles produtos com maior valor agregado, que são mais caros. Com isso, estamos perdendo a chance de conseguir concretizar as vendas desses que querem comprar antes do início da taxação”, afirma o CEO da companhia.
“Sinto que os clientes maiores encontraram alternativas. Essa mudança na rota, por exemplo, encarece o frete, mas ainda não chega a 50%. Já os clientes menores, que compram em menor escala, me preocupam mais”, comenta.
Cavalcanti, da Valore Contadores, ressalta que empreendedores devem ser cautelosos com estratégias como a de mudanças na rota para entregas nos Estados Unidos. O contador afirma que o plano, conhecido como rerouting, pode até funcionar no curto prazo, mas não é indicado, com riscos de ser entendido como um procedimento ilegal pelos EUA, além de gerar custos adicionais, como reembalagem, emissão de nova documentação fiscal, armazenamento e transporte extra.
“Na época da guerra comercial entre EUA e China, o Vietnã foi bastante usado como rota intermediária. Isso fez com que a demanda por produtos ‘vindos do Vietnã’ explodisse até que os EUA perceberam o movimento e também aumentaram as tarifas para o país. Ou seja, o rerouting é uma solução instável, de alto risco legal e financeiro, e que pode gerar consequências diplomáticas mais severas se identificada”, indica Cavalcanti.
O outro caminho adotado pela Açaí Town é o mesmo trilhado por outras companhias: a busca por novos mercados. “Apesar de ser um mercado importante, sabemos que o mundo não é Estados Unidos. Por hora, vamos adiar plano específicos para lá, como ter distribuição própria dentro dos EUA, e focar em crescer em outros países. Tudo depende do que acontecer daqui para frente”, conclui Lavezzo.