Quando Amanda Djehdian entrou na 15ª edição do Big Brother Brasil, em 2015, ela não imaginava que um pormenor de sua aspecto se tornaria objecto pátrio. Ainda na mansão, suas olheiras começaram a invocar atenção do público e, do lado de fora, viraram tarifa de reportagens, até no Fantástico. “Eu sempre tive olheiras. Desde os 15 anos. Já tinha tentado absolutamente tudo”, lembra. O incômodo, que ela mesma já tinha naturalizado, ganhou outra dimensão quando seu sobrenome passou a ser “panda”.
A reação poderia ter sido negativa. Mas Djehdian herdou da família uma habilidade treinada desde menino, que era transformar calamidade em oportunidade. Neta de armênios que vieram ao Brasil fugindo da guerra e filha de um mercante que perdeu 13 lojas no Projecto Collor e se reinventou com uma loja de R$ 1,99, ela cresceu vendo a mansão ser reconstruída posteriormente cada choque econômico. “Meu pai sempre dizia que toda oportunidade, até a ruim, tem um lado positivo. Eu cresci com isso.” E foi justamente esse olhar empreendedor que virou a chave.
Ao trespassar do BBB, a influenciadora percebeu que as olheiras não eram exclusivamente “seu” problema. Milhares de mensagens perguntando o que ela fazia para tratá-las, muitas vindas de pessoas que se viam nela, mostraram que existia ali uma dor real, profunda e negligenciada pelo mercado. “Eu testava produtos de marcas famosas e zero funcionava. Quando eu dizia que não dava resultado, as agências riam. ‘Não dá para mudar a fórmula, linda’, me diziam.”
A frustração crescia junto com a curiosidade. De onde vinha essa irregularidade? A resposta estava na própria miscigenação brasileira. Peles com pigmentações intensas, heranças árabes, negras, latinas ou indianas, que não eram contempladas pelos testes dermatológicos das grandes marcas. “Os testes eram feitos em pessoas que não tinham olheiras uma vez que as minhas. Eram olheiras de cansaço, não crônicas e hereditárias.”
Foi logo que ela fez a pergunta que guiaria os anos seguintes: “E se existisse um resultado que tratasse tudo: pigmentação, bolsas e linhas finas?”.
A procura por quem topasse fazer o impossível
Com a teoria clara, Djehdian foi detrás de laboratórios. E, com a mesma nitidez, vieram os primeiros “nãos”. O investimento era elevado, o risco era grande e o mercado, pacato. “Eles diziam: o que tem no mercado funciona. E eu respondia: funciona para quem?”
A viradela veio em 2019, quando encontrou uma trabalhador disposta a tentar edificar a fórmula do zero, mas sem a garantia de que daria notório. Começava ali uma das etapas mais longas: os testes. Ela mesma se tornaria a primeira cobaia de cada versão.
A cada 30 dias, um ciclo se repetia entre testar, estudar, relatar. “Eu dizia: ‘isso tá craquelando’, ‘falta hidratação’, ‘o ácido ficou poderoso demais’. Foi um processo de apurar milimetricamente cada pormenor.”
A peroração dos especialistas foi a de que não seria provável entregar tudo em único resultado. Para tratar uma pigmentação extremamente profunda, seriam necessárias concentrações altas de ácidos, mas, para não agredir a pele, também era preciso muita hidratação. A solução foi produzir um tratamento duplo, um para o dia e outro para a noite.
Em março de 2020, a fórmula estava finalmente pronta. E a pandemia de covid-19 estourou no Brasil.
Da pandemia ao lançamento, e a estreia surpreendente
Com o impacto inicial da pandemia, Djehdian decidiu delongar o lançamento. O susto era oriundo. Porquê uma marca novidade, criada por uma ex-BBB, falando de skincare, seria recebida em um momento tão quebrável?
O lançamento só aconteceu em setembro de 2020, e superou qualquer expectativa. “Foi um sucesso que eu não esperava. Acho que pela demanda reprimida, e porque a comunidade já acompanhava o que eu vinha desenvolvendo.” A partir dali, o incremento ganhou ritmo rápido.
Logo na largada, uma mudança precisou ser feita. A marca tinha duas linhas — “crônica” e cansaço” —, mas o público começou a interpretar a primeira uma vez que “mais poderoso”, o que direcionava todas as vendas para ela. A equipe logo unificou tudo em uma única risco, mais clara e simples.
Vieram também atualizações de embalagem, ajustes no site e refinamento da informação. “Eu sempre ouvi muito o público. A New Eyes nasceu da minha dor, mas trata a dor de milhares.”
Hoje, a marca vende não só para o Brasil, uma vez que também para Angola, Portugal, Estados Unidos, França e outros países onde vivem brasileiros que sofrem do mesmo tipo de olheira hiper pigmentada.
Um diferencial técnico e estratégico
O grande diferencial da New Eyes está na formulação. Concentrações mais altas de ativos do que a média do mercado, feitas para agir especificamente em peles miscigenadas e olheiras profundas. Isso aumenta o dispêndio, mas, segundo a empreendedora, eleva o resultado.
O padrão de vendas é totalmente online e utiliza anúncios, redes sociais, buscas no Google e influenciadoras com grandes ou pequenos perfis, além de um trabalho de estratégia do dedo capitaneado pelo marido Mateus Hoffmann, seu sócio. “Eu sou a rostro da marca, mas toda a operação, toda a estratégia, passa pela empresa dele. Sem isso, zero teria sucedido.”
A operação foi lançada sem premência de grande aporte inicial. Parceiros assumiram o investimento no desenvolvimento, e as próprias vendas financiaram o restante.
O impacto do BBB e a construção de um novo sonho
Djehdian não ignora o papel precípuo do Big Brother em sua trajetória. “Sem a vitrine do BBB, não seria provável. Para muita gente, poderia ter sido negativo. Para mim, foi maravilhoso.”
Depois do programa, abriu uma loja virtual com produtos relacionados aos seus bordões, destinando segmento da renda à Lar Hope. Continuou fazendo publicidade e palestras, migrou para o do dedo e, em 2020, encerrou a loja de R$ 1,99 do pai, que mantinha desde 2019 por apego emocional. “Eu queria edificar um pouco meu, do zero. O BBB me deu essa chance.”
Hoje, a New Eyes já recebeu prêmios de empreendedorismo, mais um capítulo da história que ela mesma idealizou. A empreendedora não abre faturamento, mas diz "passar dos sete dígitos" desde o primeiro ano. A meta é crescer 35% em 2026.
A marca trabalha há meses no desenvolvimento de novos produtos, mas a empreendedora faz questão de substanciar que não quer lançar zero usual ou óbvio. “Não quero trazer só mais um hidratante. Quero um pouco que transforme a vida das pessoas. Um pouco inovador.”
Clientes que compram desde 2020 seguem fiéis e isso, para ela, diz mais que qualquer métrica. “Quando alguém diz ‘obrigada por ter criado esse resultado’, é quando vejo que tudo fez sentido.”