A ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o país saia do Acordo de Paris e deixe a Organização Mundial da Saúde (OMS) pode ser mais um sinal do enfraquecimento do multilateralismo, dizem especialistas ouvidos pelo Valor. Na visão deles, o sistema multilateral dava sinais de “deterioração” desde o governo de Joe Biden. E ainda é necessário esperar medidas concretas do novo presidente americano.
O embaixador José Alfredo Graça Lima diz que desde o primeiro governo de Trump o multilateralismo foi deixado de lado pelos Estados Unidos. Na visão de Graça Lima, a política unilateral de Trump não foi revertida no governo Biden: “Durante o governo Biden, o multilateralismo não foi fortalecido. Exemplo disso é que existe uma convicção, partilhada pelos dois partidos e a imensa parte da sociedade americana, de que a República Popular da China é responsável pelo declínio da produtividade nos EUA. E outras consequências que não podem ser atribuídas apenas a China. Mas à própria evolução da economia americana”, diz.
O embaixador, especialista em negociações comerciais, não vê motivos para o Brasil sofrer com decisões unilaterais dos EUA: “Temos déficit comercial com os Estados Unidos [...] Ao contrário do que diz o presidente [Trump], não é o Brasil que é dependente deles [EUA], mas eles [americanos] que dependem das nossas compras. Isso ajuda a reduzir o déficit comercial que os EUA têm com a China."
Para a diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), Sandra Rios, a saída dos EUA do acordo de Paris é a decisão que mais afeta o Brasil. Isso ocorre por causa da COP 30, que será realizada em Belém, em novembro: “O impacto imediato não é econômico, mas do ponto de vista da política internacional, e particularmente da política ambiental, isso é um problema. A gente não vai ter a cooperação, que é um dos principais temas da COP este ano.”
Rios concorda com Graça Lima sobre o enfraquecimento do multilateralismo. Ela cita a OMS como exemplo. Durante a pandemia de covid-19 “ficou evidente a dificuldade de cooperação entre os países”. A economista acredita, porém, que a partir dessa decisão unilateral do presidente americano é possível que outros países busquem cooperação. Como fizeram o Mercosul e a União Europeia, em dezembro de 2024, ao anunciar a parceria comercial com base sustentável entre os dois blocos.
Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil nos EUA e ex-Secretário-geral do Itamaraty, avalia que a retirada americana da OMS e do Acordo de Paris se soma a falas problemáticas do presidente sobre anexações territoriais.
“A saída da OMS é um capítulo de uma coisa muito mais ampla. As declarações de Trump sobre a intenção de tomar pela força o Panamá, talvez a Groenlândia e anexar o Canadá puseram fim a uma era de relativa paz no mundo que veio desde o fim da Segunda Guerra com a criação da ONU até os dias de hoje. Putin começou a desfazer essa ordem com a invasão da Ucrânia e agora o Trump completa o serviço”, diz Abdenur.
Em 7 janeiro, durante uma coletiva de imprensa, Trump sugeriu que o Canadá fosse incorporado aos Estados Unidos, afirmando que a fronteira entre os países era uma "linha traçada artificialmente" e que a fusão geraria "segurança financeira muito melhor". O republicano também não descartou o uso de força militar ou econômica para obter controle sobre a Groenlândia e o Canal do Panamá, alegando que essas regiões são vitais para a segurança nacional dos EUA.
“Mesmo que Trump não chegue a invadir o Panamá [e outros territórios], o simples fato de que o presidente dos Estados Unidos, o país que foi o forte criador de uma ordem internacional benévola, dizer isso representa uma ruptura muito séria”, completa o embaixador.
Abdenur também lamenta a possibilidade de os EUA saírem da ONU — uma das ameaças de Trump — e critica a postura “destrutiva” do presidente americano em relação ao clima, à saúde e à política internacional. Para o diplomata, as medidas representam o abandono do multilateralismo e o uso abusivo do poder econômico, comercial, político e tecnológico dos Estados Unidos.
“É uma situação muito grave, o mundo de hoje é caótico, é mais complexo, é mais perigoso, e por isso mesmo requereria mais do que nunca do multilateralismo, do diálogo e da cooperação entre as nações”, afirma.
Ao criticar o “isolacionismo agressivo dos EUA” e a crescente influência de bilionários na política, Abdenur indica o risco de um retrocesso civilizatório global. Também observa que, ao contrário de sua primeira gestão, Trump agora tem maior controle sobre o Partido Republicano e uma agenda mais estruturada.
“Nós vamos ter os Estados Unidos como possível incubador de novas pandemias e vamos ter a humanidade menos preparada, menos forte na prevenção e reação a outras crises que surjam no mundo e que, mal ou bem, atingirão os próprios Estados Unidos”, diz Abdenur.
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