O economista Nouriel Roubini prevê que a correção do mercado de ações pode se aprofundar antes que o sentimento do investidor se estabilize, à medida que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reduz sua ofensiva ao comércio global.
O CEO da Roubini Macro Associates, cujos avisos pessimistas acompanharam os principais momentos da crise financeira global em 2008, apresentou uma visão comparativamente otimista das perspectivas para a economia, o comércio e o mercado acionário em uma entrevista na sexta-feira.
“A correção pode ser um pouco maior, dada a incerteza”, disse Roubini durante um encontro de economistas e líderes empresariais nas margens do Lago Como, em Cernobbio, Itália. “Mesmo que nas próximas semanas pareça que vamos começar as negociações, e você tenha uma desescalada, acho que o mercado corrige um pouco mais, encontra um piso.”
Roubini falou após uma onde de vendas que levou o S&P 500 ao seu pior dia em cinco anos, com cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado eliminados, depois que Trump lançou as tarifas mais altas em mais de um século. As novas medidas podem triplicar a taxa média dos EUA em relação ao aumento de 5% provocado pelas tarifas Smoot-Hawley de 1930 (lei que implementava políticas comerciais protecionistas nos EUA), de acordo com a Bloomberg Economics.
O “cenário-base” para Roubini é que Trump acabará recuando e cortando suas tarifas pela metade, deixando os EUA com crescimento econômico em uma faixa de 1%-1,5% este ano, caso em que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) manteria as taxas de juros estáveis.
“Se ele for racional, ele vai recuar”, disse Roubini, que trabalhou como economista na Casa Branca durante o governo Clinton. “Ele está dizendo que, a menos que alguém me faça uma oferta ‘fenomenal’, eu não vou recuar, mas ele tem que dizer isso porque se ele disser ‘vou negociar e diminuir a tensão’, ele perde seu poder de barganha.”
Um problema aí, de acordo com Mohammed El-Erian, é que os países podem relutar em oferecer concessões a Trump se eles verem o processo como prolongado. “A diminuição da tensão requer que ambos os lados joguem junto, e para isso tem que haver confiança de que esta não é uma rodada múltipla onde você tem que renegociar todas as vezes”, disse à Bloomberg El-Erian, presidente do Queens’ College, em Cambridge, e colunista da Bloomberg Opinion, em uma entrevista do mesmo evento em Cernobbio. “Isso não está lá agora.”
O próprio Trump deu poucos sinais de mudança de posição em um post em sua rede Truth Social na sexta-feira. “Para os muitos investidores que vêm para os Estados Unidos e investem quantias enormes de dinheiro, minhas políticas nunca mudarão”, declarou ele.
Apesar de todo o drama nos mercados de ações dos EUA, Roubini observou que Trump não está tão focado em ações como costumava ser, dando a ele tempo para resistir antes de mudar de rumo.
“Ele se importa mais com o mercado de títulos e o dólar”, afirmou Roubini. “A maior parte do mercado de ações é de propriedade de 10% da população. Então, uma correção do mercado de ações não importa, enquanto rendimentos mais baixos de títulos são bons para sua base que tem hipotecas, empréstimos estudantis e de automóveis, cartões de crédito, empréstimos pessoais.”
Além da reação das ações, houve o rali dos Treasuries, com o rendimento dos títulos de 10 anos brevemente abaixo de 4% pela primeira vez desde que Trump foi eleito, enquanto os investidores buscavam segurança.
Roubini disse que o custo político de Trump continuar com seu plano tarifário atual é tal que está claro que ele mudará a abordagem no tempo oportuno.
“Se ele exagerar, você terá uma recessão este ano, se você tiver uma recessão este ano, ele perde as eleições de meio de mandato, se perder as eleições, então seu plano MAGA [Make America Great Again] de dominar os Estados Unidos para sempre será destruído. Então, se ele tiver algum cérebro em sua cabeça, ele saberá que precisa recuar”, disse Roubini.
“Mickey Mouse pode estar no poder nos Estados Unidos, os EUA terão um crescimento de 4% até o final da década, e será maior na próxima década”, afirmou ele. “Nós iremos de 2% de crescimento para 4% e talvez para 6% até 2040. Isso vem antes de qualquer outra coisa. Nem mesmo Trump, com a política ruim, pode estragar a inovação tecnológica”, concluiu ele.
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