A combinação de alimentos mais caros, dólar em alta e consumo aquecido das famílias tem impulsionado não apenas as projeções de inflação para os últimos meses deste ano, como também para 2025. Algumas casas passaram a projetar para o próximo ano o IPCA acima do teto da meta — ou seja, acima de 4,5%. A meta para 2025 é de 3% e tem intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo.
Na semana passada, o Itaú Unibanco reviu sua estimativa de 2025 de 4,2% para 5%, e o BTG Pactual, de 4,2% para 4,8%. A XP está com 4,7%, e a Genial Investimentos está revendo seus cálculos para algo na casa de 5%. Existem números ainda mais altos: a Quantitas elevou o seu para 5,5%.
É um movimento que também começa a se insinuar na Pesquisa Focus, do BC; No último levantamento, a projeção para 2025 passou de 4,1% para 4,12%, mas a mediana entre os que atualizaram nos últimos 5 dias passou de 4,13% para 4,21%.
Houve um movimento mais intenso de revisões para cima nas últimas semanas, em grande parte influenciadas pelo quadro mais negativo para alimentos, em especial, carne bovina, nota o economista Alexandre Maluf, da XP.
“Muita gente carregava uma projeção baixa para alimentação no domicílio, mas com a alta do preço do boi gordo, que não para de subir, os economistas estão revendo esses números” , diz. Ele espera alta de 20% das carnes em 2025, após aumento de 22% este ano — um movimento que contamina, por efeito substituição, outras proteínas, como frango.
Além das carnes, o câmbio mais desvalorizado deve significar também outra rodada de repasse para preços de alguns alimentos industrializados ou que o Brasil é importador líquido, caso do óleo de soja e toda a cadeia do trigo. Estes avanços devem mais que compensar uma possível normalização dos preços de alimentos in natura, que sofreram bastante com os eventos climáticos extremos este ano. Com isso, a projeção da XP é que a alimentação no domicílio se mantenha pressionada e suba em torno de 7% em 2025.
A aceleração do preço da carne também é a vilã do cenário da Quantitas. “Esse aumento da arroba do boi gordo só encontra paralelo em 2019, durante a gripe suína”, nota o economista João Fernandes. Para ele, o repasse ao IPCA até o momento foi tímido, o que significa que já está contratado “algo grande” para os próximos meses.
No cenário da Quantitas, a alimentação no domicílio vai subir 5,9% ano que vem, com a alta do boi gordo respondendo por aproximadamente um terço disso. Já a alimentação fora do domicílio deve avançar 7,6%, em suas contas, ajudando a pressionar a inflação de serviços.
Os preços de serviços já se manteriam pressionados independentemente do cenário para alimentos, diz. “A atividade segue firme, o que deve manter o nível de emprego e os salários em alta. Mesmo que haja inflexão do mercado de trabalho por conta do nível dos juros, a dinâmica salarial deve demorar alguns meses para estabilizar”, diz Fernandes. Ele prevê alta de 5,5% dos serviços subjacentes sem alimentação fora do domicílio e 6,1% com esse grupo.
Há ainda o efeito do repasse cambial e do cenário externo mais adverso para outros bens comercializáveis, como produtos industriais (ver página A8). Neste caso, Maluf ressalta que a aceleração marginal em seu cenário para este grupo, de 2,7% este ano para 2,8% em 2025, esconde o fato de que o indicador este ano foi impulsionado por questões pontuais, como o reajuste de cigarro e etanol. “Se desconsiderar esses efeitos mais idiossincráticos, no fundo teríamos um número mais perto de 1,80% para este grupo. Ou seja, a aceleração para 2025 é significativa.”
Há ainda outras questões pontuais ou de calendário que podem piorar o IPCA de 2025. Um item com impacto relevante é o bônus de Itaipu, cujo destino deve ser decidido esta semana pela Aneel. A orientação do governo é usar repasse de R$ 1,3 bilhão para baratear a conta de luz, algo com potencial de baixar o IPCA do mês em até 0,6 ponto porcentual, no cálculo de economistas.
O alívio é totalmente revertido no mês seguinte. Na XP, a projeção de 2024 sai de 4,9% para 4,4% caso o bônus seja pago em dezembro, mas a de 2025 passa de 4,7% para 5,3%.
O BTG Pactual destaca os efeitos da aceleração da inflação acumulada em 12 meses, tanto do IPCA quanto do IGP-M, que deve pressionar preços altamente indexados, como aluguel. “A expectativa que a inflação cheia este ano termine em 5% teve a principal contribuição para a revisão de 2025”, escreve o economista Bruno Balassiano. O BTG inclui na conta o câmbio e aumento de preços para as commodities.
Diante desse quadro, há quem veja inflação acelerar entre 2024 e 2025. No Itaú Unibanco, a expectativa é que o IPCA passe de 4,8% 2024 para 5% em 2025. “O balanço de riscos segue assimétrico de alta para o próximo ano, com a possibilidade de que a economia se mantenha aquecida e o câmbio continue depreciando”, diz a revisão do banco.
Essa também a avaliação da Genial, para quem a inflação pode sair de 4,7% este ano para perto de 5% no próximo. Os números estão em revisão. A corretora liga a aceleração a uma piora de cunho estrutural, diz o economista Gabriel Pestana.
“Recentemente o BC começou o ciclo de alta de juros e, tudo o mais constante, a nossa inflação projetada chegou a cair de 4,6% para 4,3% para 2025. Ocorre que estamos revisando nossas premissas para o fiscal, para um cenário em que o ajuste prometido não será suficiente”, diz. “Em ambiente em que os agentes não creem no ajuste, a trajetória de alta da dívida pública passa a alimentar o consumo, a inflação e os juros, em uma dinâmica que pode ser explosiva. É algo que se soma ao impulso fiscal, que ficará negativo na comparação com 2024, mas seguirá contribuindo positivamente com a atividade.”
Há poucos riscos baixistas no radar, avaliam os economistas. Para Pestana, existe chance de que a alta da carne acabe não se concretizando por completo. Para Fernandes, a aposta é o câmbio. “Caso o ajuste fiscal agrade, o dólar poderia voltar a R$ 5,20 ou R$ 5,50 “, diz. “Se baixar a R$ 5,50, no entanto, o alívio não deve ser grande, dado que existe um repasse encomendado pelos preços do atacado.”
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