Quando se fala em responsabilidade social e ambiental de uma empresa, diversos temas são abordados, mas o papel da governança corporativa ainda é pouco explorado. No entanto, é inegável que esse conjunto de práticas, normas, processos e políticas adotado por uma empresa se tornou um dos pilares essenciais para o sucesso e a longevidade das organizações. No cenário atual, transparência não é mais um diferencial, mas uma necessidade. A adoção de boas práticas de governança garante uma atuação ética e responsável, sendo crucial para fortalecer a confiança de investidores, parceiros comerciais, colaboradores, consumidores e da sociedade como um todo.
Neste contexto, a atuação do CFO (Chief Financial Officer) torna-se ainda mais estratégica. Mais do que liderar a gestão financeira, esse profissional desempenha um papel central na incorporação dos princípios éticos e na promoção da transparência dentro da organização. O CFO orienta a implementação de práticas robustas de governança, assegurando que as ações e os resultados da empresa estejam alinhados com as melhores práticas de responsabilidade social, ambiental e econômica.
Além disso, o CFO contribui para a criação de um modelo de negócios que integra aspectos ambientais e sociais à estratégia corporativa. Isso inclui o desenvolvimento de relatórios mais detalhados, com indicadores completos e precisos, capazes de atender às expectativas de investidores, reguladores, parceiros comerciais e clientes. A preocupação crescente dos consumidores com a sustentabilidade já é uma realidade. De acordo com uma pesquisa do Instituto Ipsos, 77% dos brasileiros estão dispostos a pagar mais por produtos ou serviços de empresas que adotam medidas para minimizar seu impacto ambiental. A sociedade está cada vez mais atenta, exigindo transparência e acesso a informações sobre o tema.
A adoção de práticas sustentáveis não apenas mitiga riscos, mas também abre novas oportunidades de crescimento, reforçando o compromisso da empresa com a sociedade e o meio ambiente. Essa nova realidade também coloca o CFO como protagonista na comunicação das iniciativas sustentáveis da organização, tanto para os investidores quanto para o mercado em geral.
Com uma abordagem integrada, que considera tanto os aspectos financeiros quanto os de sustentabilidade, o CFO garante que a transparência nessas práticas seja um atrativo para novos investimentos e fortaleça a imagem corporativa.
No entanto, o desafio vai além da comunicação externa. A resistência cultural e a falta de conhecimento especializado são obstáculos frequentes, tanto entre executivos quanto nas equipes operacionais. A ausência de uma visão clara sobre os benefícios das práticas sustentáveis dificulta a adoção de mudanças efetivas. Por isso, é fundamental que as lideranças se comprometam com o alinhamento cultural necessário, o que envolve a promoção de treinamentos contínuos, a construção de uma cultura corporativa voltada para a sustentabilidade e o estímulo à inovação e à melhoria contínua em todos os processos organizacionais.
A gestão financeira, quando aliada à implementação eficaz de práticas responsáveis, contribui diretamente para a longevidade de uma organização. Para auxiliar investidores na identificação de empresas comprometidas com os princípios ESG, foram criados diversos índices de sustentabilidade corporativa, como o Dow Jones Sustainability Index, da S&P Global, e o índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da B3. Eles analisam dados fornecidos pelas empresas e classificam as mais capazes de gerar valor para os acionistas. Na maioria dos casos, o CFO é o líder responsável pela obtenção e encaminhamento dessas informações.
Embora os avanços na governança corporativa sejam significativos, ainda há um longo caminho a percorrer. Há exemplos notáveis de boas práticas, mas a jornada está longe de ser concluída. Com a introdução das novas normas que exigem a adequação das empresas aos padrões globais IFRS S1 e S2, emitidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), a governança corporativa se torna ainda mais relevante, uma vez que as normas exigem que as empresas divulguem suas práticas de governança e de sustentabilidade.
A partir de 2026, com a vigência dessas diretrizes, as empresas deverão assegurar que os projetos de sustentabilidade estejam plenamente integrados à sua estratégia de negócios. Além disso, precisarão gerenciar riscos e oportunidades, aprovar recursos, estabelecer políticas e procedimentos e garantir que indicadores de sustentabilidade sejam levados em consideração nos sistemas de remuneração da gestão, entre outras responsabilidades.
Essa movimentação em direção a uma governança mais transparente e integrada oferece às empresas a oportunidade de se consolidarem como agentes responsáveis no mercado, gerando uma vantagem competitiva significativa. Com isso, as organizações não apenas impulsionam seus resultados financeiros, mas também fortalecem a confiança de todos os seus stakeholders. Embora o caminho seja desafiador, as empresas que abraçarem essa transformação terão mais chances de construir um futuro próspero, ético e sustentável.
José Antonio de Almeida Filippo é Presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP) e CFO do Grupo Fleury.
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