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Interesse de Trump na Groenlândia pode alterar a estratégia da China no Ártico, diz analista | Mundo

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/01/2025 às 20:51 · Atualizado há 1 semana
Interesse de Trump na Groenlândia pode alterar a estratégia da China no Ártico, diz analista | Mundo
Foto: Reprodução / Arquivo

O interesse renovado do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, em comprar a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, tem o potencial de mudar os cálculos da China para o Ártico, segundo uma especialista em geopolítica polar.

Em um post nas redes sociais na segunda-feira (6), Trump disse que o povo da Groenlândia se beneficiará “se e quando” ela se tornar parte dos EUA. O comentário foi feito um dia antes da visita de seu filho Donald Trump Jr. à ilha.

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“Vamos protegê-la de um mundo exterior muito cruel, e cuidar dela”, acrescentou Trump.

Elizabeth Buchanan, pesquisadora sênior do Australian Strategic Policy Institute, disse que a região do Ártico é o “coração” do transporte e da remessa de cargas por mar do mundo, e quaisquer grandes mudanças nos alinhamentos geográficos podem ser significativas.

“Aumentar a presença ocidental na Groenlândia, ou o controle sobre ela, pode alterar, sim, o cenário de custo-benefício para países como a China ou a Rússia, que pretendem explorar as linhas marítimas do Ártico”, disse ela.

Um exemplo disso, continua, poderiam ser os prêmios de seguro para transporte de carga, que podem aumentar “se o setor achar que uma corrida armamentista de algum tipo no território da Groenlândia está para acontecer”.

Trump Jr., que desembarcou na capital da Groenlândia, Nuuk, nesta terça-feira (7), explicou em seu podcast que esta era uma “viagem pessoal para a Groenlândia” como turista. Ele disse que não planejava se encontrar com nenhuma autoridade do governo.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou à emissora dinamarquesa TV 2 nesta terça-feira que o futuro da Groenlândia deve ser decidido por seus habitantes. “A Groenlândia pertence aos groenlandeses”, garantiu ela, acrescentando que o território ártico “não está à venda”.

As duas grandes rotas marítimas do Ártico que começaram a se abrir com o rápido declínio do gelo marinho na região são a Rota do Mar do Norte, que corre ao longo da costa ártica russa, e a Passagem do Noroeste, que atravessa o Arquipélago Ártico Canadense.

Mas o interesse da China no extremo norte não parece se limitar às oportunidades de transporte marítimo de carga.

Um relatório anual do Serviço de Inteligência de Defesa Dinamarquês, divulgado em dezembro, aponta que a China começará a ter um acesso maior ao Ártico por causa de sua influência crescente sobre a Rússia, e é provável que use esse acesso para reforçar seu papel na região e avançar com planos para estabelecer uma presença militar.

“O Ártico é de uma importância estratégica militar considerável, como uma área de destacamento para submarinos com armas nucleares, que podem se esconder sob o gelo e, em caso de conflito, atingir a maior parte da América do Norte, da Europa e da Rússia”, aponta o relatório.

O documento observa que, tradicionalmente, a Rússia se mostra relutante diante da possibilidade de que países sem territórios na região tenham voz nos assuntos do Ártico e hesitará em dar mais acesso à China. Mas, segundo o Serviço de Inteligência, a dependência que a Rússia tem da China em meio à guerra em andamento na Ucrânia significa que Moscou precisa satisfazer os interesses chineses cada vez mais.

Trump, que já falara em comprar a Groenlândia durante seu primeiro mandato, revisitou o tema no mês passado, quando escreveu nas redes sociais que o controle dos EUA sobre a Groenlândia é uma “necessidade absoluta”.

Nesta terça-feira (06), o presidente eleito não descartou a hipótese de uso da força militar para tomar o controle da Groenlândia e do Canal do Panamá, a hidrovia centro-americana que ele sugeriu que os EUA deveriam retomar.

“Pode ser que vocês tenham de fazer alguma coisa”, disse ele, acrescentando que a mobilização militar é necessária para a segurança econômica.

Mas Buchanan afirmou que Trump não precisa “comprar” fisicamente a Groenlândia e pode “possuí-la”, para todos os efeitos, ao respaldar sua independência da Dinamarca.

Ela disse que o movimento pela independência é anterior a Trump e uma maioria esmagadora de cidadãos é a favor de se separar de Copenhague. A Groenlândia deve realizar eleições parlamentares antes de 6 de abril.

O primeiro-ministro da Groenlândia, Mute Egede, falou sobre o assunto em um discurso de Ano Novo, na semana passada, sem mencionar Trump: “Já é hora de nós mesmos darmos um passo e moldarmos nosso futuro, também com relação a com quem vamos cooperar estreitamente e quem serão nossos parceiros comerciais.”

Na avaliação de Buchanan, Trump, seu Conselho de Segurança Nacional e o secretário de Defesa que escolheu, Pete Hegseth, não podem se concentrar apenas na ponta europeia do Ártico, mas também precisam prestar a mesma atenção à ponta do Pacífico, através do Alasca.

Segundo ela, os EUA não têm portos de águas profundas na região e deveriam construir um em Nome, uma cidade do oeste do Alasca que fica de frente para o Estreito de Bering.

Mais ao sul, segundo Buchanan, as Ilhas Aleutas do Alasca “são um excelente local para que a defesa dos EUA tenha oportunidades de dar profundidade a todos os planos para o teatro de operações do Pacífico e de reforçar as possibilidades ofensivas para se contrapor às forças navais chinesas, que estão ocupadas abrindo caminho lentamente pelo Pacífico”.

Ela acrescentou que Trump também pode reviver uma disputa sobre soberania antiga e inativa entre a Rússia e os EUA a respeito da Ilha de Wrangel, no Oceano Ártico, que é administrada pela Rússia.

Geleiras da Groenlândia — Foto: JChristophe Andre/Pixabay

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