O Banco Central afirmou nesta quinta-feira (25) que, apesar do recuo da inflação desde o último Relatório de Política Monetária (RPM), em junho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) segue acima da meta e as expectativas permanecem desancoradas. A autoridade monetária observou ainda que os indicadores de atividade doméstica apontam para uma moderação do crescimento, enquanto o mercado de trabalho continua mostrando dinamismo. As avaliações constam no RPM de setembro, divulgado hoje.
De acordo com o BC, em relação ao relatório anterior, as projeções de inflação recuaram levemente para 2025 e ficaram estáveis no horizonte relevante da política monetária. Ainda assim, no cenário de referência, a inflação deve permanecer acima do limite superior da faixa de tolerância nos próximos meses e, mesmo seguindo a trajetória de queda iniciada no segundo trimestre, continuará acima da meta.
“Neste cenário, após permanecer na faixa de 5,3% a 5,5% nos três primeiros trimestres de 2025, a inflação acumulada em quatro trimestres cai para 4,8% no final do ano, 3,6% em 2026 e 3,1% no último período considerado, referente ao primeiro trimestre de 2028. No horizonte relevante de política monetária, considerado como sendo o primeiro trimestre de 2027, a inflação projetada é 3,4%”, diz o documento.
Sobre a desaceleração econômica, o BC destacou que a perda de fôlego do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre ficou concentrada nos setores menos cíclicos, enquanto os segmentos mais sensíveis ao ciclo mantiveram o mesmo ritmo observado nos dois trimestres anteriores. Já os dados de julho e agosto mostraram sinais mistos de atividade, mas, no conjunto, indicam continuidade da tendência de moderação no terceiro trimestre, segundo a autoridade monetária.
Na avaliação do BC, o mercado de trabalho segue aquecido: a taxa de desocupação nos últimos meses ficou abaixo do esperado, manteve trajetória de queda no trimestre e atingiu novo mínimo histórico, com destaque para a ocupação formal. A geração de empregos com carteira desacelerou, mas continua robusta. Já a renda das famílias acelerou no segundo trimestre, impulsionada pelo dinamismo do mercado de trabalho.
O BC ressaltou, no documento, que as expectativas para a inflação continuam desancoradas, embora tenham recuado para 2025 e, em menor medida, para 2026.
A mediana das expectativas de inflação para 2025 caiu de 5,25% para 4,83% desde o relatório anterior, divulgado em junho, mas permanece acima do limite superior da meta, de 4,5%. O BC aponta que houve redução relevante nas previsões para alimentação no domicílio e bens industriais, enquanto a expectativa para serviços se manteve praticamente inalterada.
A autoridade monetária destaca ainda que a inflação ao consumidor recuou desde o relatório anterior, tanto na variação acumulada em 12 meses quanto na trimestral. Parte dessa desaceleração é sazonal, segundo o BC, mas também pode ser observada nas séries ajustadas sazonalmente.
Já os preços dos alimentos seguiram desacelerando, registrando variação reduzida no trimestre na série dessazonalizada. "O recuo dos preços de alimentos é, em parte, sazonal, mas a série dessazonalizada também indica variação baixa no trimestre e desaceleração acentuada em alimentos industrializados", diz o BC.
A inflação de serviços, por sua vez, permanece em nível elevado. "Apesar da acomodação em relação ao trimestre anterior, a inflação de serviços continua elevada, com diversas medidas da inflação subjacente com variações anualizadas ao redor de 6% nas séries com ajuste sazonal. Em doze meses, a inflação do segmento voltou a subir, passando de 5,80% em maio para 6,16% em agosto", acrescenta.
O BC calcula que o hiato do produto, uma medida de ociosidade da economia, está em 0,7% no segundo trimestre deste ano e em 0,5% no terceiro trimestre. Quanto mais positivo o hiato, mais a economia está crescendo acima do potencial.
Segundo o relatório, esses valores positivos para o hiato são consistentes “com a pressão inflacionária observada recentemente”. Na edição anterior do Relatório de Política Monetária, a projeção para o hiato do segundo trimestre era de 0,5%. Segundo o BC, a revisão foi realizada considerando dados mais fortes do mercado de trabalho do que se antecipava.
“Vale lembrar que a medida de hiato utilizada aqui não se refere apenas ao PIB, mas é também influenciada por outras variáveis associadas à utilização da capacidade e ao mercado de trabalho”, diz o documento.
O BC também destacou a projeção de redução do hiato até chegar em patamar negativo de 0,5% no primeiro trimestre de 2027. Segundo o BC, as “condições monetárias restritivas” desempenham papel fundamental na redução do hiato.
As projeções do mercado para o hiato são diferentes. Segundo o último Questionário Pré-Copom (QPC), que coleta expectativas de agentes do mercado antes de cada reunião do Comitê de Política Monetária, o hiato para o segundo trimestre de 2025 estaria em 1%, considerando a mediana das projeções. Para o quarto trimestre deste ano, chegaria a 0,6% e para o quarto trimestre de 2026, em 0,1%.