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Entenda a acusação do Itaú contra ex-CFO e seu sócio | Finanças

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/12/2024 às 19:36 · Atualizado há 1 dia

O Itaú Unibanco protocolou na noite desta sexta-feira (6) uma ação civil contra Alexsandro Broedel, ex-diretor financeiro do banco, e Eliseu Martins, um dos maiores especialistas em contabilidade do país, após identificar uma sociedade e transferências de recursos entre os dois que teriam beneficiado financeiramente o agora ex-executivo da instituição.

A assessoria de imprensa de Broedel afirmou que as acusações são infundadas e que ele tomará medidas judiciais. Já Martins diz que protesta "de forma veemente contra as declarações e decisões do Itaú" e fala em má-fé na interpretação dado pelo banco aos fatos.

Entenda como se deu o caso, a acusação do Itaú e como supostamente se davam os pagamentos.

Cronologia do caso, segundo o Itaú

  • Julho: Broedel anuncia sua saída do Itaú para assumir um posto global no Santander, na Espanha;
  • Agosto: Itaú dá início a apurações internas para entender se Broedel prestava serviços de parecerista e consultor ao mercado enquanto atuava como diretor financeiro (CFO);
  • Setembro: banco encerra todos os vínculos mantidos com Broedel, que cumpria quarentena;
  • Dezembro: banco realiza assembleia no dia 5 e decide anular as contas do ex-CFO e tomar as “medidas legais cabíveis” contra o executivo. Na sequência, ingressa com a ação civil.

Quem são as pessoas envolvidas?

Broedel deixou o cargo de CFO do banco em julho deste ano para assumir como chefe de contabilidade global do Santander, na Espanha, no início de 2025. O executivo estava no Itaú há mais de 12 anos e ocupava o posto de CFO desde o início de 2021. Broedel foi diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) entre 2010 e 2012 e, antes disso, era consultor do escritório Mattos Filhos. É formado em Contabilidade e Direito pela Universidade de São Paulo (USP), onde também leciona há 22 anos.

Uma das maiores referências em contabilidade do país, Martins é consultor, palestrante e parecerista da área contábil. Ele é bacharel, doutor e livre-docente pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), e é também professor emérito da instituição. Foi diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) entre 1985 e 1988 e depois novamente entre 2008 e 2009. Foi também diretor de fiscalização do Banco Central (BC) entre 1990 e 1991.

Quais são as empresas envolvidas?

O caso envolve três empresas, além do Itaú.

A primeira é a Broedel Consultores, criada em 1998 por Broedel, ou seja, bem antes do seu ingresso no Itaú, o que aconteceu em 2012. Martins se tornou sócio do ex-CFO na consultoria nesse mesmo ano.

A segunda é a Care Consultores, sociedade entre Martins e seu filho Eric Martins. A empresa atuava fornecendo pareceres para o Itaú.

A terceira é a Evam Consultores, sociedade formada por dois filhos de Martins, Eric e Vinicius Martins.

Qual é a acusação do Itaú?

De acordo com o banco, Broedel teria omitido dos controles internos que mantinha uma sociedade com Martins, fornecedor do Itaú, e que exercia atividade externa de consultor e parecerista. Esses fatos, segundo a instituição, representam "grave descumprimento do Código de Ética”.

Frente aos indícios de conflito de interesses, o banco afirma que aprofundou o levantamento dos serviços contratados e concluiu que, de junho de 2019 a junho de 2024, Broedel contratou 40 pareceres da Care que resultaram em 21 pagamentos, no valor total de R$ 13,255 milhões.

Do total de pareceres, 36 foram assinalados como recebidos pelo então CFO e quatro teriam sido pagos antecipadamente. Mas, além desses ainda não entregues, o banco não conseguiu localizar 16 dos que já teriam sido dados formalmente como feitos.

Para alguns dos pareceres não encontrados, teria havido a explicação de que, na verdade, se tratava de serviços de consultoria para o Itaú - uma nuance que chamou atenção da instituição. O banco tem uma área centralizada de compras, mas há quatro tipos de serviço contratados fora dessa área, entre eles os pareceres, mas não a consultoria.

Em outra frente, o Itaú diz que fez uma revisão das movimentações em conta corrente, o que teria revelado indícios de crimes previstos na lei nº 9.613/98, de lavagem de dinheiro. Segundo o banco, Broedel obteve vantagem indevida em decorrência do seu cargo.

Como funcionariam os pagamentos?

Segundo o Itaú, parte dos valores recebidos do banco pela Care teria sido repassada ao então CFO por meio da Evam. O banco afirma que, desde janeiro de 2019, foram identificadas 56 transferências para Broedel nessas condições, das quais 23 guardam “estrita correspondência” com pagamentos feitos pelo Itaú à Care pelos serviços prestados.

Essas 23 transferências correspondem ao valor de R$ 4,860 milhões. De acordo com o Itaú, por meio dessas movimentações, é possível inferir que Broedel recebia cerca de 40% dos valores pagos à Care. A maioria das transferências, segundo a acusação, foi feita para contas mantidas junto ao Santander.

  • Indenização pelos 16 pareceres dados como recebidos e não localizados (no valor de R$ 5,145 milhões) e pelos 4 pareceres pagos antecipadamente e não entregues (R$ 1,5 milhão);
  • Indenização pelos R$ 4,86 milhões que teriam sido repassados pela contratada a Broedel.

A assessoria de imprensa de Broedel afirmou que as acusações são infundadas e que ele tomará medidas judiciais. "Alexsandro Broedel sempre se conduziu de forma ética e transparente em todas as atividades ao longo dos seus 12 anos no banco – algo nunca contestado pelo Itaú, que tem uma rigorosa e abrangente estrutura de controle e compliance, própria de um grupo financeiro com seu porte e importância na economia brasileira. O parecerista mencionado pelo Itaú já prestava serviços ao banco há décadas, muito antes de Broedel ser convidado para a diretoria da instituição", afirma a nota por parte do executivo.

"Os serviços mencionados eram do conhecimento do Itaú e requeridos por diferentes áreas do banco. Causa profunda estranheza que o Itaú levante a suspeita sobre supostas condutas impróprias somente depois de Broedel ter apresentado a renúncia aos seus cargos no banco para assumir uma posição global em um dos seus principais concorrentes, cumprindo o cumprindo o período de quarentena definido pelo banco. Alexsandro Broedel tomará as medidas judiciais cabíveis neste caso", complementa.

Eliseu Martins informou, em nota, que contesta as declarações da instituição financeira e fala em “má-fé” na interpretação dada pelo banco aos fatos. Uma das maiores referências em contabilidade do país, Martins diz que os trabalhos prestados para a instituição foram de pareceres técnicos e de consultoria, e que todos os serviços foram entregues, com exceção de quatro que teriam sido pagos antecipadamente. Ele também admite que ele e Broedel trabalharam em conjunto na elaboração de pareceres enquanto o colega era executivo do banco, mas apenas para terceiros.

“Há vários materiais suporte das consultorias que foram feitos sem formalidade, algo de que me arrependo agora, dada a má-fé da interpretação dada pelo banco. Trabalho com aproximadamente 6 outros colegas e temos inclusive a condição de só opinarmos verbalmente ou via parecer; assim, há opiniões que não geram parecer e não aparecem em qualquer documento. Mas são serviços efetivamente prestados, como todos os que fiz ao Itaú”, afirma.

Martins diz que ele e Broedel sempre fizeram pareceres para terceiros, “às vezes assinando em conjunto e às vezes com ele sempre ajudando tecnicamente, como com outros colegas, com o faturamento por uma única empresa”.

Ele diz ainda que houve pagamentos antecipados de pareceres pelo Itaú e que ele formalmente declarou a necessidade de devolução dos valores relativos aos quatro ainda não emitidos. Martins acrescenta que não prestará mais qualquer tipo de serviço ao banco.

“Talvez influenciados pela perda de tão brilhante profissional, estão, no banco, interpretando de forma totalmente incorreta o que de fato ocorreu. E, além de me envolverem para atingi-lo, cometem ainda o absurdo de envolverem meus filhos, que nada têm a ver com os fatos que o banco relata e mal interpreta”, afirma. “Não há ainda os citados eventuais processos, mas vou obviamente aclarar e provar o que digo. Reafirmo, não entendo e não aceito o que o banco está fazendo: atingir meu nome e, de forma ignóbil, o da minha família.”

Na nota, afirma também que tem uma vida profissional e acadêmica com conduta “que pode ser verificada com centenas ou milhares de pessoas". Ele acrescenta que muitas delas já declararam apoio e ofereceram a ele a chance de testemunho.

“Somente com o Itaú tenho uma vida de prestação de serviços há quase 5 décadas, passando por gerações de gestores”, disse. “Alexsandro Broedel Lopes foi aluno na pós-graduação da FEA/USP, transformando-se em Professor, portanto colega meu, há muitos anos; e sempre tivemos ligações acadêmicas e profissionais.”

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