Nas eleições em Goiânia, há muito mais em jogo do que o comando da cidade. A disputa entre Sandro Mabel (União) e Fred Rodrigues (PL) é marcada por um duelo entre seus padrinhos, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mirando a corrida presidencial de 2026. Por consequência, influenciará no jogo de forças entre lideranças de direita no próximo ciclo eleitoral. Não por acaso, será da capital de Goiás que Bolsonaro acompanhará a apuração no domingo.
A nacionalização da disputa é visível na campanha de rua. Nas bandeiras espalhadas pela cidade, Rodrigues é retratado com frequência ao lado do ex-presidente, e Mabel, junto de Caiado. Os vices nas chapas, Leonardo Rizzo (Novo) e Coronel Claudia (MDB), pouco aparecem na divulgação. Pesquisa Quaest divulgada na semana passada mostrou Mabel com 46% contra 39% de Rodrigues.
A disputa presidencial de 2026 é pano de fundo também para o discurso de campanha.
“Vamos eleger o Mabel para ajudar Goiânia e em 2026 você vai votar em mim para presidente”, afirmou Caiado a comerciantes em visita à Feira da Cepal no Jardim América, maior bairro da capital.
O governador evita falar em uma disputa com Bolsonaro, mas crava que concorrerá ao comando do país em 2026. Por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-presidente estará inelegível nas próximas eleições gerais, mas ele e aliados têm esperança de reverter a condenação.
A capital não é a única frente de disputa entre Caiado e Bolsonaro em um dos Estados mais conservadores do país. Em Aparecida de Goiânia, segunda maior cidade do Estado, o governador apoia Leandro Vilela. Seu rival é Professor Alcides, do PL.
Leandro é irmão de Daniel Vilela, atual vice-governador, que Caiado pretende fazer sucessor. Os dois são filhos do ex-governador Maguito Vilela, morto em 2021 por complicações da covid-19 enquanto estava licenciado da Prefeitura de Goiânia.
Sandro Mabel afirmou ao Valor que a eleição é sobre Goiânia, mas reconhece que uma vitória sobre Bolsonaro pode pavimentar o caminho de Caiado para 2026.
“O Caiado vai mostrar uma força e que a direita não é só o Bolsonaro”, pontuou.
Aliado de Bolsonaro em 2022 quando se reelegeu governador, Caiado entrou novamente em rota de colisão com o ex-presidente ao se colocar como pré-candidato para 2026. O movimento irritou Bolsonaro, que passou a tratar a eleição de Goiânia como questão de honra para marcar posição como liderança da direita no país.
Para se contrapor ao projeto local de Caiado, Bolsonaro tem colocado o senador Wilder Morais (PL) como candidato ao governo de Goiás em 2026.
O ex-presidente estará pela quarta vez na capital do Estado no domingo, quando irá junto com o seu candidato ao local de votação e depois acompanhará a apuração ao lado de aliados. A ideia, segundo Rodrigues, partiu do próprio Bolsonaro.
Antes da chegada de Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi a Goiânia na noite dessa quinta-feira (24) para agenda em apoio a Rodrigues. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra de Bolsonaro, também compareceu.
Com Bolsonaro ainda sendo o principal catalisador de votos no campo da direita e, principalmente, da extrema direita de um lado, e Caiado, tradicional representante do eleitorado conservador e o governador mais bem avaliado do Brasil de outro, Rodrigues e Mabel “pisam em ovos” para não perderem votos.
“Ele é o governador do Estado de Goiás. Apesar de ele já ter dado alguns discursos nos tratando como adversários políticos, eu não sou adversário do governador do Estado de Goiás, ele é meu governador e governador de todos os goianos”, declarou Fred Rodrigues ao Valor.
Já Mabel afirma que sempre foi ligado ao ex-presidente. “Ajudei o Bolsonaro demais na vida. Ele está tentando fazer a base política dele, mas escolheu um candidato muito ruim e que não se sustenta sem ele”, declarou Mabel, ex-deputado federal, que foi contemporâneo de Bolsonaro na Câmara.
Diploma falso vira tema de campanha
Na reta final, a campanha de Mabel tem focado na polêmica envolvendo a declaração falsa de Fred Rodrigues à Justiça Eleitoral de Goiás de que era formado em Direito. Após um questionamento judicial, a Universidade negou que o candidato do PL concluiu o curso.
“Ele sustentava essa história que tem curso superior. Ele nunca trabalhou e, além disso, manteve essa mentira. A hora que a mentira cai, muita gente não admite isso. Pegou muito mal para ele”, pontuou Mabel.
Ao Valor, Fred Rodrigues afirmou que foi um erro técnico da equipe no registro da candidatura.
“Eu disse para eles colocarem ‘superior incompleto’, mas acabou que não existia essa opção e eles acabaram deixando ‘superior completo’. Esses registros e o plano de governo não sou eu exatamente que faço”, afirmou.
Além disso, Mabel tem insistido na falta de experiência de Rodrigues e no seu currículo como empresário para se colocar como um gestor melhor para a capital.
O candidato bolsonarista, por outro lado, tem apostado em se posicionar como uma renovação política que está enfrentando a máquina do Estado e não fará acordos partidários quando estiver no poder.
“Eu gosto de me colocar de fora da velha política, dessa política analógica. Tem muita gente nova que já entra com os vícios da velha política. É isso que a gente tá apresentando um projeto contra”, pontuou Rodrigues.
Mabel afirma que o adversário tentou, mas não teve o traquejo político para conseguir apoios para o segundo turno.
“Ele tentou de tudo, ligou para todo mundo dizendo que o ônibus dele está vazio. Pelo jeito continua vazio”, provocou.
Ao melhor estilo do padrinho político, Rodrigues realizou diversas carreatas pela capital na última semana de campanha. O principal objetivo é tirar votos que foram para Mabel no primeiro turno. Para isso, o candidato buscou, nos últimos dias, reunir-se a portas fechadas com empresários historicamente ligados com a candidatura adversária.
Nas peças da campanha, Rodrigues também buscou ligar Mabel e Caiado à candidata do PT, Adriana Accorsi, que terminou em terceiro lugar no primeiro turno com 24,4% dos votos.
O governador e Mabel rebateram, negando o movimento em busca de apoio petista e relembrando que Rodrigues admitiu ter votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.
“Eu sempre fui de centro-direita e dialoguei com todo mundo. Fui inclusive líder do PL na Câmara dos Deputados”, afirmou Mabel.
Segundo o Valor apurou, a estratégia de Mabel é “jogar parado” e esperar que esses votos naturalmente migrem para ele devido à rejeição natural da esquerda ao bolsonarismo. Já Rodrigues aposta em uma grande abstenção dos eleitores progressistas que rechaçam ambos os postulantes.