O dólar à vista reverteu, nesta sexta (4), toda a perda de ontem e ainda recuperou parte das desvalorização observada nas semanas anteriores, retomando o nível observado em meados de março. O temor de que o “tarifaço” promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gere retaliações dos países afetados se intensificou hoje, após as medidas retaliatórias anunciadas pela China, que fortificaram a preocupação com uma recessão da economia global.
No fim dos negócios, o dólar comercial era negociado em alta de 3,68%, na maior valorização diária desde 10 de novembro de 2022, cotado a R$ 5,8355, próximo da máxima de R$ 5,8450 e distante da mínima de R$ 5,6991. No acumulado da semana, o avanço da moeda americana foi mais contido, de 1,32%, devido à queda forte, mas em menor magnitude, vista na sessão de ontem. Já o euro comercial exibiu valorização de 2,92% e terminou o pregão negociado a R$ 6,3858, avançando 2,41% na semana.
Os temores relativos a uma recessão global afetaram em cheio os preços de commodities, que sofreram um tombo de forma generalizada e pressionaram as moedas de mercados ligados às exportações das matérias-primas. O real, sensível aos preços do petróleo, do minério de ferro e das agrícolas, registrou o terceiro pior desempenho do dia, atrás, somente, dos pares na exportação de commodities — dólar australiano e coroa norueguesa, que lideram as perdas no ranking de moedas mais líquidas do Valor.
Desde o começo da sessão o dólar subiu com força frente ao real. De manhã, no entanto, a dinâmica tinha magnitude menor. Diante de uma escalada na guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas (Estados Unidos e China), além de disputas tarifárias em outros mercados desenvolvidos e emergentes, a percepção que cresceu entre os agentes foi de que a economia global deve perder tração e pode entrar em recessão. Desse modo, o preço dos contratos futuros mais líquidos do petróleo caíram em torno de 6,50%, depois de já terem recuado cerca de 6% ontem.
Hoje, em nota a clientes, a Oxford Economics apontou que em seus cálculos as tarifas anunciadas nesta semana vão elevar a tarifa média dos Estados Unidos sobre bens importados para 24%, patamar mais alto até do que o observado na década de 1930. “Estimamos que as medidas acrescentariam cerca de 1,5% aos preços ao consumidor e desacelerariam a economia até uma paralisação neste ano", disse o economista-chefe para EUA na Oxford Economics, Bernard Yaros. A leitura é que os prazos escalonados para o início das tarifas dão algum espaço para os países negociarem. "No entanto, se eles não conseguirem um adiamento, eles provavelmente retaliarão, como a China já fez. Além do mais, as ordens sugerem que mais tarifas setoriais podem estar chegando", acrescentou o economista.
"Nosso modelo sugere que o PIB [dos EUA] vai desacelerar para 1,3% em 2025, menos do que a taxa de crescimento de 2% estimado em março. A inflação aumentará para até 4,5% neste ano", disse ele, apontando ainda que os consumidores devem sofrer com a inflação mais alta e com as condições mais fracas do mercado de trabalho, levando a uma forte redução na renda real disponível no fim do ano.
Economistas do Wells Fargo questionam, em relatório a clientes, se o retorno a uma era de ouro na indústria dos EUA compensa as medidas tarifárias. “Nas perspectivas de curto prazo para a economia, não [compensa]”, dizem. “Nossas estimativas baseadas em modelos apontam para um crescimento mais fraco, maior inflação e aumento do desemprego.”
Segundo os profissionais do banco americano, o aumento das taxas de importação deve pesar para a alta dos preços, principalmente para o deflator do PCE, o índice de gastos com consumo. “Este ambiente de preços mais altos tem um custo para o crescimento econômico. Na medida em que impostos de importação mais altos são repassados via inflação, os consumidores têm menos poder de compra ‘real’; na medida em que são marginalmente absorvidos [pelas empresas], a lucratividade mais fraca pesa sobre o investimento e a contratação. Assumindo que as tarifas aumentem no valor total proposto e permaneçam em vigor até 2026, o crescimento real do PIB efetivamente estagnaria no segundo trimestre antes de se tornar negativo no terceiro trimestre, destacando o risco aumentado de recessão.”
Além do estresse diante das incertezas, hoje pela manhã, minutos antes da participação do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em evento, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse via redes sociais para o dirigente do Fed cortar os juros e “parar de brincar com a política”. O chefe do BC americano, por sua vez, afirmou no evento que o trabalho da autoridade monetária não é comentar política, afirmando que há incertezas no radar que não deixam claros os caminhos da política monetária. “Muitos aumentaram a probabilidade de recessão, mas não prevemos isso”, disse. “As incertezas estão elevadas e as tarifas são mais altas do que o esperado.”
A sessão ainda foi marcada por dados fortes na criação de empregos em março nos Estados Unidos, o que gerou, por poucos minutos, alguma redução marginal na super valorização do dólar. O temor com uma recessão global, porém, se manteve presente, e o dólar voltou a encorpar sua apreciação frente ao real na parte da tarde.