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“Recentemente passei a trabalhar em um setor onde duas equipes precisam colaborar, mas uma pessoa de um dos times dificulta muito as coisas: é ríspida, ignora as solicitações e só compartilha informações quando pressionada. Já houve tentativas de resolver, mas a situação sendo atribuída ao ‘outro lado’. Me orientaram a agir de forma mais diplomática. Como colocar isso em prática sem deixar que o problema continue se arrastando?” Coordenador de projetos, 37 anos.
O desafio que você enfrenta vai muito além de coordenar tarefas ou monitorar entregas. Esse trabalho é facilitado por ferramentas de gestão, que tornam responsabilidades, objetivos, pendências e o andamento de cada etapa do projeto visíveis para todos os envolvidos. Estimulam, assim, mais engajamento e, além disso, as contribuições e a importância de cada ação ficam evidentes. Só que esses instrumentos poderosos não substituem um fator decisivo: a liderança. E é esse o seu chamado.
Agir com diplomacia é um bom conselho. Mas o bom líder é aquele que, acima de tudo, procura entender o contexto em que você está inserido, bem como as características que tornam cada membro do time tão únicos.
Isso quer dizer que o comportamento ríspido e fechado dessa funcionária pode não ser um capricho pessoal, mas o reflexo de uma organização fragmentada por silos, na qual a colaboração não existe nem dentro do próprio time. Em ambientes assim, a informação e a experiência não são compartilhados, pois servem como como moedas de troca e instrumentos de segurança e estabilidade pessoal.
Além disso, não dá para desconsiderar que comportamentos centralizadores e ríspidos são frequentemente sinais de insegurança - seja fruto de traços de personalidade ou de culturas que reforçam a desconfiança, um vírus muito comum, que corrói silenciosamente a colaboração, a inovação e, claro, a cultura.
Há ainda uma terceira possibilidade para explicar o comportamento dela: um luto. E não estamos falando apenas da perda de alguém, mas do rompimento de qualquer vínculo significativo, capaz de reconfigurar completamente o mundo conhecido até então.
Isso pode acontecer diante do diagnóstico de doença grave, de uma separação ou divórcio, de mudanças bruscas e inesperadas na família, ou mesmo de transformações profundas dentro da própria organização, como reestruturações, cortes de equipe ou mudanças radicais de estratégia.
Nós todos, sem exceção, viveremos até 20 experiências de dor ao longo da vida, capazes de impactar nossas emoções, nossa forma de interagir com o mundo e até a maneira como produzimos. Reconhecer o luto é, portanto, reconhecer que a resistência, o fechamento ou a rispidez podem ser sinais de uma dor ainda não processada - e não apenas traços de personalidade. Já parou para investigar isso?
Esse cenário assusta gestores que ainda tentam liderar pelo velho playbook, ignorando as complexidades humanas que moldam comportamentos e resultados. Só que hoje, e cada vez mais, o bom líder não olha apenas para o grupo como um todo; ele entende profundamente cada integrante do time — suas motivações, inseguranças, estilos de comunicação e valores.
Compreender esse contexto não é luxo; é essencial para transformar resistência em colaboração genuína, desbloquear o potencial escondido e criar um ambiente onde todos possam contribuir plenamente. Logo, a sua grande missão é transformar essa pessoa em aliada. Como fazer isso? Construindo confiança.
Confiança é um ativo raro, estratégico e absolutamente essencial para alguém que ocupa ou quer ocupar posições de influência. Quando construída, ela permite que você maneje melhor recursos, perceba soluções invisíveis e desbloqueie potenciais inexplorados, algo que nenhuma ferramenta de gestão sozinha consegue fazer.
Hoje, mais do que nunca, esse estilo de liderança é essencial nas empresas. Em um mundo complexo, veloz e instável, líderes que conseguem transformar silos em pontes, resistência em parceria e retenção em compartilhamento tornam-se verdadeiros multiplicadores de impacto. Eles não só entregam projetos, mas transformam culturas e constroem vantagens competitivas duradouras.
E aqui vai a provocação final: o projeto que tira o seu sono hoje pode ser o grande salto da sua carreira amanhã. Sabe aquele o case que marcará a sua trajetória e mostrará do que você realmente é capaz? Pois é, você pode estar diante dele nesse exato momento.
Mariana Clark é psicóloga, especialista em saúde mental, perdas e luto no contexto organizacional e escolar.
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Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.