Com dificuldade para ampliar as alianças no segundo turno, o deputado federal Guilherme Boulos (Psol), candidato à Prefeitura de São Paulo, subiu ao palco na noite dessa terça-feira (22) com as duas únicas lideranças de fora da sua coligação que ele conseguiu atrair para a sua campanha: o vice-presidente Geraldo Alckmin, um velho adversário político, e o ministro Márcio França (Empreendedorismo), ambos do PSB.
O evento organizado no Teatro Gazeta, na região central de São Paulo, teve o objetivo de emular uma espécie de “frente ampla” em torno do candidato do Psol, mas a realidade evidencia as dificuldades de Boulos nesta sua segunda tentativa de ser eleito prefeito — ele foi derrotado em 2020 para o ex-prefeito Bruno Covas, morto em 2021.
Nem mesmo todo o PSB se engajou na sua campanha neste segundo turno, apesar de o deputado ter recebido o apoio — por meio de uma declaração, apenas — da colega deputada federal Tabata Amaral (PSB), que ficou em quarto no primeiro turno com 9% dos votos.
“É uma honra estar ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Márcio França, que não estiveram conosco no primeiro turno. Tinha uma candidatura do PSB, da Tabata Amaral, que eu recebi o apoio com muita alegria. Contar hoje nesse evento com Geraldo Alckmin e Márcio França demonstra a ampliação do diálogo que a nossa candidatura tem feito com o conjunto dos setores”, afirmou Boulos.
Alckmin reforçou um discurso já repetido pelo candidato do Psol nesse segundo turno, de que 70% dos eleitores paulistanos votaram no primeiro turno pela mudança — aqueles que escolheram nas urnas outros candidatos, e não o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que tenta a reeleição com o apoio do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“O Boulos é melhor para São Paulo, melhor para a saúde, para a educação, para a moradia, para a mobilidade. Melhor para a gestão. Estou convencido que Boulos é a mudança com confiança, quem ouve mais erra menos”, disse o vice-presidente.
Antes do evento no Teatro Gazeta, ambos dividiram um lanche no tradicional Bar Estadão, no centro de São Paulo.
O apoio de Alckmin foi anunciado após o primeiro turno e marca uma aproximação ainda mais profunda do ex-governador de São Paulo com a esquerda após sua filiação ao PSB, após deixar o PSDB, para ser vice de Lula em 2022.
Boulos já foi um crítico ferrenho de Alckmin até não faz muito tempo. No início de 2022, antes da eleição presidencial, o hoje candidato do Psol deu uma entrevista ao portal “Metrópoles” afirmando que não via como Alckmin poderia agregar a Lula em termos de voto.
Antes, em 2018, quando ambos foram candidatos à Presidência da República, Boulos referiu-se ao ex-governador em um debate do SBT de “Sérgio Cabral [ex-governador do Rio condenado por corrupção] que não está preso”. Em resposta, Alckmin utilizou termos semelhantes aos empregados atualmente por Ricardo Nunes: “Sempre trabalhei, não sou desocupado, não invadi propriedades”.
Questionados pelo Valor sobre os embates do passado, apenas Boulos respondeu: “O Brasil mudou. E quando o Brasil mudou e começou a surgir um campo que representa uma ameaça à democracia brasileira, deixamos as diferenças para trás”.
Depois, no palco do Teatro Gazeta, Alckmin disse que o evento da noite era para comemorar a democracia. “Quero dizer que o presidente Lula salvou a democracia. Se eles tentaram dar um golpe perdendo a eleição, imagina se tivessem vencido?”, questionou.
O ministro Márcio França, que no discurso torceu por um domingo de sol para o “pessoal ir para a praia”, torcendo por uma alta abstenção que, em tese, favoreceria Boulos, fez referência ainda à ascensão do nazismo na Alemanha dos anos 1930, que levou à Segunda Guerra Mundial na década seguinte.
“Quando os nazistas foram tentar ocupar o mundo todo, as pessoas mais diferentes se juntaram pra poder manter a democracia. Aqui em São Paulo está sendo gestado o ovo da serpente e a gente vai fazer tudo que for possível para evitar que ela nasça de novo”, declarou.
A ex-prefeita Marta Suplicy (PT), candidata a vice e que era a aposta da campanha para crescer na periferia (mas que participou pouco das agendas), afirmou que Boulos vai governar para os mais pobres. Além de exaltar as realizações da sua gestão, como o bilhete único e os CEUs, Marta classificou o psolista como o “herdeiro” de Lula.
*Estagiária sob a supervisão de Fernanda Godoy