Um dos fundadores do PT e ex-ministro da Casa Civil, o ex-deputado José Dirceu afirmou nesta quinta-feira (9) que as “big techs” não podem mandar no Brasil e disse que o Supremo Tribunal Federal (STF) tem papel importante para limitar a influência das grandes empresas de tecnologia no país.
Em palestra transmitida ao vivo pelo YouTube, Dirceu defendeu que o país tenha “soberania dos dados” e alertou sobre o poder que as “big techs” ganharam no mundo todo, com a influência sobre governos e eleições.
“Não permitamos — daí o papel importante do Supremo—, não permitamos que as ‘big techs’ mandem. Não há mais eleições nacionais. As eleições são disputadas com a participação das ‘big techs’, com a política do departamento de Estado norte-americano, a CIA, a União Europeia”, disse.
A declaração foi feita depois que a Meta — dona do Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp — anunciou mudanças no sistema de checagem de conteúdos publicados e atacou tribunais de países da América Latina. Em resposta, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, disse que não permitirá que as “big techs” sejam instrumentalizadas para difundir discurso de ódio no Brasil e disse que as plataformas só continuarão a operar no país se respeitarem a legislação brasileira. Moraes ressaltou ainda o papel que as redes sociais tiveram nos atos golpistas do 8 de janeiro de 2023.
Na palestra, Dirceu citou a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para que houve uma influência internacional, por meio das plataformas, e defendeu que a esquerda trave uma disputa pelas rede sociais para barrar o avanço da extrema-direita. “O que assistimos na eleição de Bolsonaro... Não nos demos conta que havia interferência internacional”, disse. “E [agora] abre-se nova fase do capitalismo com a eleição do Trump. Não tenhamos ilusão”, afirmou.
Preso na Operação Lava-Jato, Dirceu teve condenações anuladas e recuperou seus direitos políticos no ano passado. O ex-ministro afirmou que tem viajado pelo país para fazer o debate político. Nesta quinta-feira, falou sobre “A luta política pelo futuro”, na aula inaugural do curso “História e Política III: a extrema direita hoje – ódio e guerra pelo poder”, promovido pela Fundação Perseu Abramo, centro de formação política e produção de conhecimento do PT.
Dirceu avaliou que há um “esgotamento” do movimento político que levou a esquerda ao poder no Brasil e afirmou que é preciso construir alianças com outros grupos sociais. “Do ponto de vista histórico, há esgotamento do movimento que nos levou ao governo em vários países, particularmente no Brasil. Para continuar no governo temos que construir novas bases de aliança e novas bases sociais”, disse o ex-presidente do PT.
“Nós chegamos até aqui. Viramos a página do bolsonarismo, trouxemos Lula de volta para o governo e passamos esses dois primeiros anos [da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva]. Isso é uma grande vitória”, afirmou. “Agora como nós estamos hoje, nós não podemos continuar. Não seremos capazes de enfrentar os desafios que nós temos pela frente. Todos os partidos políticos de centro-esquerda, não só o PT. Todos. E as nossas organizações sociais e sindicais”, ressaltou o ex-ministro.
Dirceu reforçou que o campo progressista deve fazer uma disputa religiosa, cultural e nas redes para avançar no país e barrar o crescimento da extrema-direita. “São questões centrais na disputa entre a extrema direita e nós”, disse. “No Brasil, estamos assistindo isso. Grande parte dos territórios [foram] ocupados pela extrema direita, como associações, entidades. [Tem a] Força da igreja neopentecostais, mais a força do aparelho político administrativo-eleitoral dos partidos de direita em Estados e no nível municipal”.
Além de reiterar sua preocupação com as redes sociais, o ex-ministro alertou que a religião se transformou em uma “força política extraordinária”, disse. “As classes trabalhadoras estão sendo disputadas também no campo da religião.” No país, a esquerda tem dificuldade no diálogo com evangélicos.