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Análise: Ataque de Israel deixa Irã encurralado e com poucas opções | Humberto Saccomandi

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 14/06/2025 às 08:02 · Atualizado há 5 dias
Análise: Ataque de Israel deixa Irã encurralado e com poucas opções | Humberto Saccomandi
Foto: Reprodução / Arquivo

O regime islâmico do Irã vive o seu momento mais difícil em 40 anos com a guerra iniciada por Israel na madrugada de sexta. Quase sem defesa aérea, o país está à mercê de mais ataques israelenses, inclusive contra sua infraestrutura econômica, que foi poupada até agora. E a capacidade iraniana de contra-atacar Israel de modo convencional também parece limitada. O regime está encurralado, o que abre oportunidades de negociação, mas também eleva o risco de uma ação desesperada e suicida.

Numa operação que aparentemente surpreendeu e chocou a cúpula iraniana, Israel vem atacando alvos militares em todo o Irã. A operação lembrou o ataque surpresa que deu início à Guerra dos Seis Dias, em 1967. Os alvos incluíram, entre outros, sistemas de mísseis, estruturas de defesa e de comando militar, e toda a cadeia do programa nuclear iraniano, inclusive cientistas.

A morte de ao menos três dos principais líderes militares do país (os comandantes da Guarda Revolucionária, do Estado-Maior e da Força Aérea) indica que o ataque realmente surpreendeu o Irã, pois eles estavam em instalações vulneráveis. Isso apesar do alerta do presidente americano, Donald Trump, de que Israel atacaria e da retirada de diplomatas ocidentais do país. Se o governo achou que era um blefe de Trump, cometeu um enorme erro.

Praticamente sem defesa aérea, destruída pelo ataque israelense de outubro de 2024, o Irã não tem como rechaçar novos ataques. O país, segundo fontes israelenses, encomendou novos sistemas antiaéreos à Rússia, mas eles ainda não chegaram.

Por uma questão de honra ferida, mas também de influência regional e até de sobrevivência do regime, o Irã precisa responder à altura. As autoridades iranianas prometeram “abrir as portas do inferno” e “destruir Israel”. Mas o país também tem poucas opções para contra-atacar diretamente. Drones e mísseis de cruzeiro se mostraram fáceis de interceptar. Os mísseis balísticos lançados nesta sexta-feira, mais difíceis de serem interceptados, fizeram até agora pouco estrago em Israel. A força aérea iraniana não tem a capacidade de chegar muito perto de Israel. A morte dos principais líderes militares também dificulta e atrasa uma retaliação.

A estratégia de dissuasão iraniana se baseava amplamente na capacidade de atacar o território de Israel a partir do Líbano e da Síria. Mas os ataques recentes israelenses (a começar pelas explosões dos pagers, em setembro de 2024) reduziram drasticamente a capacidade militar do grupo xiita Hizbollah, no Líbano. E a queda do regime da Bashar al-Assad, outro aliado de Teerã, acabou com o eixo xiita.

Restam ao Irã opções indiretas ou não convencionais.

Teerã poderia atacar países árabes vizinhos e destruir suas instalações petrolíferas, o que geraria uma crise econômica global. Poderia também tentar bloquear o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. Poderia ainda promover uma campanha de atentados terroristas, em Israel e outros países, contra alvos judaicos ou ocidentais. E há também a possibilidade de atacar tropas americanas estacionadas no Oriente Médio (os EUA têm cerca de 35 mil soldados dos EUA na região).

Mas essas opções seriam possivelmente suicidas. Elas implicariam em ampliar a guerra, com a provável entrada dos EUA e talvez de outros países, contra o Irã. Além disso, Israel deixou claro ontem que priorizou alvos militares. Mas que, dependendo da reação iraniana, poderá atacar instalações políticas e a infraestrutura econômica do país. Quase todo o petróleo exportado pelo Irã sai de dois terminais (Kharg, no Golfo Pérsico, e Jask, no Golfo de Omã). Se essas instalações forem destruídas, o Irã quebraria economicamente. Haveria um sobressalto nos mercados globais de petróleo (cuja cotação já subiu cerca de 7% ontem), mas alguns países, a começar pela Arábia Saudita, poderiam suprir a falta do produto iraniano.

Apesar de os EUA terem dito que não participaram da operação, parece evidente que houve uma coordenação com Israel. E essa é a percepção iraniana, que ontem responsabilizou os EUA pelo ataque. A impressão é que EUA e Israel estão jogando juntos na tentativa de enquadrar o Irã. Enquanto Israel faz o policial malvado, os EUA assumem o papel do policial bonzinho, que busca a negociação e um acordo.

Israel deixou claro que uma troca de regime no Irã é um dos objetivos da guerra lançada ontem. Isso, porém, depende da ação interna da oposição iraniana.

Há uma grande insatisfação no país com o regime islâmico, especialmente na classe média das principais cidades. O Irã está sob sanções ocidentais Sua economia está estagnada e é voltada principalmente para manter o aparato militar. A inflação está subindo e beira os 40% ao ano. O dólar vale quase 1 milhão de riais iranianos. Para piorar, preço do petróleo, principal produto de exportação do país, vem em queda desde abril de 2024.

Todas as ondas de protesto no país foram violentamente reprimidas pela Guarda Revolucionária. Não está claro ainda se uma nova surgirá na esteira da guerra com Israel e da crise econômica.

De todo modo, o regime islâmico iraniano enfrenta o seu momento mais difícil desde meados da década de 1980. Enfraquecido política e economicamente e, por ora, humilhado militarmente, o Irã poderá ceder à pressão e negociar o fim do seu programa nuclear (que é a demanda principal de Israel), o que abriria uma janela de oportunidade de estabilização no Oriente Médio, ou poderá tentar escalar o conflito, o que traria riscos para Israel, para a região, para o mundo, mas principalmente para o regime dos aiatolás. As próximas semanas serão decisivas.

Israel ataca Irã — Foto: Vahid Salemi/AP

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