Uma pequena estatueta de barro, com exclusivamente 3,7 centímetros de profundeza, está ajudando arqueólogos a reconstruir o universo simbólico de uma comunidade que viveu há murado de 12 milénio anos às margens do Mar da Galileia, a região do Levante.
O objeto retrata uma mulher agachada, com um ganso bem vivo sobre suas costas, e foi descrito porquê a estatueta mais antiga conhecida que mostra uma interação entre humano e bicho, além da representação naturalista mais antiga de uma mulher já identificada no sudoeste da Ásia. Os detalhes do descoberto foram publicados na revista científica PNAS.
A peça foi encontrada no sítio de Nahal Ein Gev II, uma lugarejo ligada à chamada cultura natufiana, que se estendeu aproximadamente de 15.000 a 11.500 anos detrás na região que hoje corresponde a Palestina, Israel, Jordânia, Líbano e Síria.
Os natufianos são conhecidos por marcar a transição de grupos nômades caçadores-coletores para comunidades sedentárias, ainda antes da adoção plena da cultivação. Os autores situam o descoberto no Epipaleolítico tardio (de 10 milénio a 12 milénio anos detrás), período final do Paleolítico na região, imediatamente anterior ao Neolítico.
Segundo o estudo, a estatueta foi modelada a partir de um único conjunto de barro lugar, deixada secar e depois aquecida em torno de 400 °C. Esse controle de temperatura indica o uso de uma “pirotecnia primitiva”, ou seja, um domínio propositado do queimação para transformar e endurecer materiais.
Análises microscópicas e químicas revelaram resíduos de pigmento vermelho, provavelmente ocre, tanto no corpo da mulher quanto no ganso. A peça foi encontrada quebrada em três fragmentos, que puderam ser reunidos.
Os detalhes anatômicos reforçam a leitura da figura porquê feminina: na secção subordinado, uma espaço triangular incisa é interpretada porquê o púbis, e impressões ovais simétricas próximas ao rosto sugerem seios. O pássaro, identificado porquê um ganso a partir da conferência com ossos de aves encontrados no próprio sítio, está pousado sobre as costas da mulher, com as asas abertas e voltadas para trás, envolvendo parcialmente a figura humana.
O que a cena representa?
Há diferentes interpretações para a cena. Em princípio, seria verosímil imaginar uma caçadora transportando uma ave abatida de volta ao assentamento, já que sobras de gansos aparecem com frequência nos sítios natufianos e essas aves eram usadas tanto na sustento quanto em ornamentos feitos de penas e ossos.
No entanto, a posição da mulher, inclinada para a frente, e a forma porquê o ganso está disposto – aparentemente vivo, com as asas estendidas numa postura típica de acasalamento – levaram o grupo a proporcionar uma leitura de caráter mitológico e místico.
“O acasalamento imaginário entre espíritos humanos e animais é publicado em muitos mitos de períodos históricos em todo o mundo”, disse Laurent Davin, principal responsável do estudo, ao Live Science. Segundo ele, “esse libido emergente de simbolizar imagens femininas pode estar relacionado à crescente influência das mulheres na gestão das práticas espirituais dessas comunidades”.
Essa tradução se encaixa em um sistema de crenças animista. No animismo, geral entre sociedades de caçadores-coletores, elementos naturais – animais, vegetação, rios, rochas, objetos – são percebidos porquê dotados de espírito e capazes de interagir com os humanos em diferentes planos.
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A localização da peça dentro do sítio reforça seu provável caráter ritual. A estatueta foi achada no aterro de uma estrutura semicircular de pedra, com murado de 5 metros de diâmetro, que abrigava sepultamentos e depósitos considerados cerimoniais, incluindo o enterro de uma muchacho e um conjunto de dentes humanos. Esse tipo de contexto é interpretado por arqueólogos porquê um espaço de ritos e práticas coletivas, e não uma espaço de descarte geral.
Para entender a fabricação e o uso da estatueta, a equipe recorreu a diferentes tipos de estudo possíveis através de abordagens “tecnológicas, arqueométricas e dermatoglíficas”.
As análises tecnológicas e arqueométricas envolvem o estudo da matéria-prima, da formação física e química da barro e do pigmento, além das marcas de modelagem, para reconstruir o modo de fabricação. Já as análises dermatoglíficas se concentram nas impressões digitais preservadas, um campo que examina o gravura das cristas da pele. No caso de Nahal Ein Gev II, uma sensação parcial foi identificada na própria estatueta.
Comparando a densidade dessas cristas com bancos de dados modernos de indivíduos de sexo publicado, os pesquisadores sugerem que a peça pode ter sido modelada por uma mulher jovem ou adulta. A peroração não é absoluta, mas aponta para a possibilidade de uma artesã feminina representando outra mulher em uma cena ligada ao mundo místico.
O estudo também labareda atenção para o intensidade de sofisticação da linguagem visual. As autoras e autores destacam que a pessoa que modelou a peça usou o volume da barro de forma propositado e explorou o jogo entre luz e sombra para gerar perspectiva e profundidade.
A estatueta teria sido pensada para ser vista de um ângulo específico, com iluminação originário ou do queimação incidindo principalmente sobre o lado esquerdo, dando vida à interação entre a mulher e o ganso. Essas soluções são descritas porquê antecipações de técnicas que só se tornariam comuns no Neolítico inicial.
Vale ressaltar que representações de interações entre humanos e animais são raras no Paleolítico e no Epipaleolítico. Há cenas pintadas ou gravadas na Europa, porquê nas cavernas de Lascaux, mas normalmente associadas à caça ou a confrontos com animais. No sudoeste da Ásia, esse tipo de cena praticamente não aparece em estatuetas do período.
Para a arqueóloga Leore Grosman, coautora do trabalho, a peça ajuda a entender uma mudança mais ampla no modo porquê essas comunidades pensavam o mundo. “A estatueta conquista um momento transformador”, disse em enviado. “Ela faz a ponte entre o mundo dos caçadores-coletores nômades e o das primeiras comunidades sedentárias, mostrando porquê a imaginação e o pensamento simbólico começaram a moldar a cultura humana.”
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