Por Cleber Lourenço
Trump não precisou dizer nada para que ficasse evidente o que todos já sabiam: entre segurar Bolsonaro no colo e disputar espaço com a China na América do Sul, ele escolheu a segunda opção. O gesto foi cirúrgico, calculado com o pragmatismo de quem enxerga a diplomacia como uma mesa de xadrez e não como um palanque de campanha.
Ao apertar a mão de Lula e prometer que “o acordo comercial virá”, Trump sepultou a fantasia de que a velha parceria ideológica com o ex-capitão ainda tinha algum valor prático. O encontro em Kuala Lumpur não foi apenas um ato simbólico — foi a assinatura de um novo capítulo nas relações entre Brasil e Estados Unidos, agora redesenhadas por interesses que vão muito além de afinidades pessoais.
No tabuleiro internacional, a emoção é um luxo que os impérios não se permitem. Trump pode ser temperamental, mas não é ingênuo. Fez o que todo presidente americano faria: olhou para o mapa, não para os tweets de um aliado decadente. A América Latina é hoje uma arena em que a China avança com dinheiro, infraestrutura, acordos comerciais e diplomacia de alto nível. Portos, ferrovias, telecomunicações e energia: tudo é palco para o protagonismo chinês.
O Brasil, sob Lula, é o único país da região com peso suficiente para equilibrar essa influência. Trump sabe disso — e sabe que é impossível conter Pequim sem um diálogo direto com Brasília. Bolsonaro, por outro lado, transformou-se em um ruído inconveniente, uma lembrança de tempos em que a geopolítica se confundia com lives de internet.
As imagens do encontro em Kuala Lumpur correram o mundo: Trump sorridente, Lula confiante, e um ar de reconciliação pragmática entre dois líderes que sabem que o comércio vale mais do que qualquer ressentimento. Os assessores riam, as câmeras registravam, e o gesto diplomático se sobrepunha à retórica. Enquanto isso, em Brasília, o bolsonarismo digeria o silêncio. O ex-presidente não foi citado, não foi lembrado, não foi lamentado. Foi apenas apagado. Sua irrelevância internacional é proporcional ao barulho que ainda faz nas redes sociais.
Houve um tempo em que Bolsonaro se gabava de ser o “amigo do Trump”, exibindo bonés e postagens como troféus de uma fraternidade improvável. Hoje, Trump manda parabéns para Lula. O gesto é simbólico, quase cruel: enquanto o ex-capitão se afunda em processos e restrições judiciais, o republicano que ensaia ser um ditado no próprio país, fora dos EUA se comporta (ou ao menos tenta) como um estadista em busca de novas alianças.
Ele não precisa mais de Bolsonaro — precisa conter a China. E, para isso, precisa conversar com quem tem poder, não com quem perdeu. A política internacional não recompensa lealdades sentimentais; recompensa resultados.
Em Washington, a avaliação é simples: se o Brasil continuar orbitando economicamente em torno de Pequim, os EUA perdem o principal eixo de influência no continente. A reaproximação com Lula, portanto, é estratégica e inevitável.
Trump pode ter sido eleito pela retórica anti-China, mas sabe que, neste momento, não se combate Pequim com isolamento diplomático. Combate-se com alianças, concessões e pragmatismo econômico. E, na América do Sul, a única alavanca capaz de fazer contrapeso ao poder chinês é o Brasil. O resto é retórica eleitoral.
Nos bastidores diplomáticos, a leitura é de que Trump busca criar uma narrativa de “parceria equilibrada” para reocupar terreno perdido. Os americanos observam, com desconforto, o aumento da influência chinesa sobre commodities, energia limpa e infraestrutura estratégica da região. Um Brasil hostil seria o pior dos cenários.
Um Brasil amistoso, ainda que liderado por Lula, pode ser a ponte necessária para evitar que o continente se torne uma extensão de Pequim. E, se para isso for preciso esquecer Bolsonaro, que assim seja.
Bolsonaro, preso no labirinto das próprias bravatas, não entendeu que Trump nunca teve amigos — apenas interesses. Para Trump, Bolsonaro foi útil enquanto representava uma barreira contra a esquerda latino-americana.
Quando perdeu o poder, perdeu também o valor de troca. O encontro na Malásia, com abraços protocolares, promessas de diálogo e um discreto “happy birthday” a Lula, foi o epitáfio dessa relação. Trump não traiu Bolsonaro; apenas seguiu o manual. E nele, não há espaço para a lealdade cega de quem já não tem nada a oferecer. O resto é nostalgia de quem acredita que a política externa se faz com devoção pessoal, e não com cálculo estratégico.