O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu, em entrevista exclusiva concedida ao ICL Notícias 1ª edição nesta terça-feira (23), a decisão do CMN (Conselho Monetário Nacional) de adotar a meta contínua de inflação e manter o centro da meta a ser perseguida pelo Banco Central em 3%, rompendo com o modelo anterior atrelado ao calendário anual.
Para ele, a mudança foi uma resposta a um ambiente político e institucional anômalo, especialmente durante o período em que o Banco Central era comandado por Roberto Campos Neto, nomeado pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Nós não estávamos numa situação normal, estávamos numa situação excepcional. Essa história vai ser contada no momento adequado, com os personagens dizendo o que aconteceu na transição
— disse.
Haddad rejeitou as críticas de que a mudança no regime de metas teria sinalizado leniência com a inflação. Ele afirmou que, à época da decisão, seria incoerente fixar uma meta superior ao que a população já percebia como realidade inflacionária.
Eu não acredito que a decisão tenha sido equivocada. Eu faria de novo: mudaria o calendário para contínuo, mas sem alterar o centro da meta.
Congresso e arcabouço: lobby e privilégios ainda são barreiras
Ao comentar os desafios políticos enfrentados pelo governo no Congresso Nacional, Haddad reconheceu que o Parlamento representa grupos privilegiados e que o avanço de uma política tributária mais justa exige romper com estruturas de poder estabelecidas.
Nós herdamos um sistema tributário cheio de distorções: impostos regressivos sobre o consumo, guerra fiscal entre estados, uma base fiscal corroída por isenções criadas por lobby. Nós estamos revendo tudo isso.
Ele citou como exemplo a reversão da desoneração da folha de pagamentos, algo que ministros anteriores tentaram sem sucesso. Também lembrou do acordo no Congresso para encerrar o Perse, programa criado para o setor de eventos, e da retomada da tributação sobre offshores e fundos exclusivos — medidas que enfrentaram forte resistência política.
O voto de qualidade do Carf, por exemplo, era um escândalo. E a sociedade nem percebeu o tamanho do problema que corrigimos.
Receita Federal como braço de inteligência
Haddad também elogiou o novo papel da Receita Federal em ações conjuntas com o Ministério da Justiça e o Ministério Público, citando como exemplo a operação Carbono Oculto, que desvendou esquemas de lavagem de dinheiro e sonegação.
A Receita assumiu tarefas importantes no campo da segurança pública. A operação Carbono Oculto começou na Receita, que atuou em parceria com o Gaeco de São Paulo
— disse. “A Receita está atuando em favor da segurança pública”, completou.
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