A paisagem de São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, está sendo redesenhada pela tecnologia e pela natureza. Encostas que foram brutalmente atingidas pelos deslizamentos de terra em fevereiro de 2023, e que antes exibiam apenas lama, agora florescem com uma nova e promissora cobertura vegetal, graças a uma iniciativa inovadora que utilizou drones para semear milhões de sementes nativas.
O projeto, liderado pelo Instituto Conservação Costeira (ICC), em parceria com a Fundação Florestal, alcançou resultados impressionantes. A cobertura vegetal das áreas degradadas saltou de um preocupante 18,7% para um robusto 81,7% em apenas três anos, superando as metas do projeto Restaura Litoral Norte.
A Tragédia de 2023 e a Resposta Ambiental
As chuvas que assolaram a região entre 18 e 19 de fevereiro de 2023 foram as mais intensas já registradas no Brasil em 24 horas, com volumes de 626 milímetros em São Sebastião e 682 milímetros em Bertioga. O temporal desencadeou mais de 850 deslizamentos de terra na Serra do Mar, resultando em 64 mortes e a destruição de 226 hectares de floresta, uma área equivalente a 316 campos de futebol.
Diante da devastação, a recuperação ambiental tornou-se crucial. O projeto Restaura Litoral Norte, agora em sua fase final de monitoramento, contou com a colaboração de comunidades locais para garantir a sustentabilidade dos esforços.
Tecnologia a Serviço da Natureza
A estratégia central para a regeneração das encostas envolveu o uso de drones para o lançamento de mais de 134 milhões de sementes nativas. Essa abordagem tecnológica permitiu cobrir grandes áreas de difícil acesso de forma eficiente e precisa.
Fernanda Carbonelli, cofundadora e diretora executiva do ICC, celebra os resultados: “No monitoramento mais recente, feito por drone, cerca de 80% da área em restauração estava coberta por vegetação nativa. Isso representa um ganho médio de 67% de cobertura em relação ao cenário deixado pelos deslizamentos! Onde antes havia barro exposto, hoje, cresce uma floresta jovem.”
A Ambipar foi responsável pela semeadura com drones e pelo monitoramento aéreo, enquanto a Atlântica Consultoria Ambiental realizou o diagnóstico, a coordenação técnica e o levantamento de campo, garantindo a expertise necessária para o sucesso do projeto.
O Poder das Sementes Nativas
Para a recuperação ecológica, foram utilizadas 16 espécies nativas da Mata Atlântica, todas recomendadas para restauração na região do Litoral Norte de São Paulo. A escolha seguiu os princípios da sucessão ecológica, priorizando espécies que já eram comuns na área.
Essas árvores germinam rapidamente, toleram exposição intensa ao sol e formam copa em pouco tempo, o que garante o sombreamento do solo exposto e reduz a erosão
— explica Carbonelli. Entre as espécies selecionadas estão a embaúba-branca, a embaúba-vermelha, o guapuruvu e a crindiúva. Todas as sementes passaram por um tratamento especial para estimular a germinação e maximizar as chances de sucesso do reflorestamento.
Resultados e Futuro
A recuperação da cobertura vegetal não é apenas uma questão estética; ela é fundamental para a proteção do solo contra a erosão, a estabilização das encostas e a prevenção de futuros desastres. A nova floresta jovem atua como uma barreira natural, retendo o solo e a água, e contribuindo para a biodiversidade local.
O sucesso do projeto em São Sebastião demonstra o potencial da combinação entre tecnologia e conhecimento ambiental para a restauração de ecossistemas degradados, oferecendo um modelo esperançoso para outras regiões vulneráveis a desastres naturais.