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Apesar da aprovação do Parlamento do Irã para o fechamento do Estreito de Ormuz, a medida ainda é apenas indicativa. A decisão final cabe ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, e do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Segundo o professor Leonardo Trevisan, especialista em relações internacionais, o gesto parlamentar deve ser lido como um primeiro sinal político, e não como uma ação definitiva.
“Talvez o Irã esteja, neste momento, demonstrando mais cautela do que os próprios Estados Unidos”, afirmou Trevisan durante participação no ICL Notícias 1ª edição desta segunda-feira (23).
Ele aponta que há movimentos diplomáticos acontecendo nos bastidores, com a China exercendo um papel decisivo nos rumos do conflito. “A China tem sido a grande mão amiga do Irã, mas também é a maior interessada em evitar um colapso econômico global que um bloqueio do estreito causaria”, frisou.
O Estreito de Ormuz é um dos gargalos logísticos mais sensíveis do mundo, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente. Em determinados pontos, a passagem tem apenas 3 km de largura útil, o que a torna vulnerável a bloqueios estratégicos. Episódios similares ocorreram durante a guerra entre Irã e Iraque, nos anos 1980.
O risco real de fechamento, porém, esbarra em interesses econômicos maiores. “Fechar o estreito significaria empurrar o mundo para uma recessão instantânea”, afirmou Trevisan.
Segundo cálculos do JPMorgan, o preço do petróleo poderia saltar rapidamente dos atuais US$ 79 para algo entre US$ 120 e US$ 130 por barril, caso a rota seja bloqueada. Isso provocaria uma disparada nos fretes, aumento global da inflação e, em última instância, desaceleração econômica.
Para a China — maior compradora de petróleo iraniano e principal potência exportadora mundial — esse cenário é altamente indesejável. “Recessão significa queda nas exportações, e isso não interessa a Pequim”, resumiu Trevisan.
A leitura do mercado já reflete essa ponderação: mesmo com o Parlamento iraniano aprovando a medida, o petróleo recuou no dia seguinte, diante da percepção de que a China pode conter a escalada.
Impactos do fechamento do Estreito de Ormuz no preço do petróleo
A decisão do Parlamento do Irã de aprovar o fechamento do Estreito de Ormuz no domingo (22) intensificou a instabilidade no Oriente Médio e elevou a tensão nos mercados globais.
Já no domingo, o mercado começou a precificar os riscos. O barril do Brent chegou a subir 5,7%, alcançando US$ 81,40, antes de perder fôlego.
O dólar e o ouro, considerados refúgios em tempos de instabilidade, já demonstram valorização. Ao mesmo tempo, bolsas internacionais e criptomoedas operam em queda, evidenciando a aversão ao risco.
No Brasil, a alta do petróleo pode ter efeitos duais: por um lado, o aumento de royalties favorece a arrecadação federal e a balança comercial; por outro, há pressão inflacionária, especialmente sobre combustíveis e alimentos.
Israel x Irã
A tensão entre Israel e Irã, agora agravada pela ofensiva dos EUA, reacendeu a ameaça iraniana de fechar o Estreito de Ormuz — algo que o país já ensaiou em crises anteriores. Desta vez, porém, a escalada bélica e o envolvimento direto de Washington aumentam o risco de retaliações imprevisíveis. Um comentarista da TV estatal iraniana afirmou que “todo cidadão americano ou militar na região é agora um alvo legítimo”.
Diante do cenário, os bancos centrais devem adotar cautela. A expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos e no Brasil pode ser postergada, com autoridades aguardando os efeitos da crise sobre a inflação.
Embora o fechamento do Estreito de Ormuz ainda não seja definitivo, a aprovação no Parlamento já foi suficiente para reacender um velho temor do mercado global: o impacto direto da geopolítica no bolso dos consumidores e na estabilidade financeira.
Como resumiu o economista David Zilberstajn, ao O Globo, “não é o preço do petróleo que preocupa, mas os desdobramentos estratégicos e políticos que ele carrega”.
A partir desta segunda-feira (23), a economia global entra em modo de espera — e alerta. Resta saber se o Irã avançará com o bloqueio total e se haverá reação coordenada do Ocidente ou de potências como China e Rússia. O mercado, por ora, responde com o que conhece melhor: fuga para ativos seguros, especulação e volatilidade.