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Agente que matou mulher nos EUA já havia sido arrastado por carro

No verão passado do hemisfério Norte, um agente do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) viveu uma situação extremamente perigosa.

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 09/01/2026 às 11:51 · Atualizado há 1 semana
Agente que matou mulher nos EUA já havia sido arrastado por carro
Foto: Reprodução / Arquivo

No verão passado do hemisfério Norte, um agente do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) viveu uma situação extremamente perigosa.

Seu braço ficou preso na janela traseira de um carro quando um suspeito arrancou em alta velocidade, arrastando-o pelo asfalto por cerca de 100 metros, segundo documentos judiciais. O agente, que sofreu ferimentos no braço e na mão, disparou seu taser contra o homem durante o episódio, de acordo com os registros.

Cerca de seis meses depois, o mesmo agente se deparou com outra motorista que acelerou enquanto ele tentava parar o veículo. Desta vez, ele disparou com sua arma de serviço — matando Renee Nicole Good, de 37 anos.

O agente envolvido no caso de junho é identificado em documentos judiciais como Jonathan Ross. Um alto funcionário do Departamento de Segurança Interna confirmou que se trata do mesmo agente que efetuou os disparos que mataram Good nesta semana.

Enquanto autoridades e legisladores em todo o país tentam esclarecer as circunstâncias do tiroteio fatal, as ações de Ross no incidente do verão passado e seu histórico profissional passaram a ser analisados com mais atenção.

Uma transcrição do depoimento de Ross no caso de junho, analisada pela CNN, traz novos detalhes sobre sua trajetória, que inclui uma missão na Guarda Nacional no Iraque como atirador entre 2004 e 2005. No depoimento, ele descreve ter realizado “centenas” de abordagens de trânsito ao longo de quase duas décadas de carreira na Patrulha de Fronteira e depois no ICE — incluindo encontros com motoristas tentando fugir.

Eles agem de forma errática, assumem grandes riscos e parecem não ter consciência dos outros veículos na estrada

— disse Ross ao júri. “Normalmente fazem movimentos extremos com o carro.”

Integrantes do governo Trump citaram o caso de junho como prova de que agentes do ICE enfrentam ameaças mortais que os obrigam a reagir com força extrema.

Aquele mesmo agente do ICE quase perdeu a vida, arrastado por um carro, há seis meses

— disse o vice-presidente JD Vance a jornalistas na quinta-feira. “Você acha que talvez ele esteja um pouco sensível à ideia de alguém avançar contra ele com um automóvel?”

Mas legisladores locais e alguns especialistas afirmam que a situação desta semana esteve longe de representar uma ameaça à vida do agente, já que Good aparentava desviar dele no momento em que ele começou a atirar.

Para usar força letal… os elementos precisam ser tão graves a ponto de justificar abrir fogo contra alguém

— disse o ex-chefe da polícia de Minneapolis Medaria Arradondo, acrescentando em entrevista à CNN que o agente simplesmente deveria ter saído da frente do carro de Good.

Michael Harrigan, agente aposentado do FBI que hoje atua como consultor em práticas e táticas policiais, disse que não é irracional pensar que o episódio anterior, em que o agente foi arrastado por um carro, estivesse em sua mente ao puxar o gatilho. Ainda assim, Harrigan ressaltou que os agentes são treinados para avaliar cada ocorrência de forma isolada.

O fato é que cada incidente precisa ser analisado por si só

— afirmou Harrigan. “Não importa realmente o que a pessoa tenha vivido antes. Isso nunca vai justificar outra situação. Eles sabem disso.”

é um agente veterano do ICE que tem servido seu país por toda a vida

— A secretária-assistente do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, que se recusou a citar o nome de Ross por conta de ameaças violentas contra agentes do ICE, disse que ele . A secretária do DHS, Kristi Noem, também defendeu a conduta do agente.

Trata-se de um agente experiente que seguiu seu treinamento, e vamos permitir que a investigação continue, seguindo os procedimentos e políticas aplicáveis a casos de uso da força

— disse Noem em coletiva de imprensa.

Ross serviu no Iraque de 2004 a 2005 com a Guarda Nacional de Indiana, segundo seu depoimento em tribunal, e ingressou na Patrulha de Fronteira em 2007. Ele disse ter atuado perto de El Paso, no Texas, trabalhando com inteligência sobre “cartéis e tráfico de drogas”, antes de entrar para o ICE em 2015.

No ICE, afirmou trabalhar em operações de captura de foragidos na região de Minneapolis e colaborar regularmente com outras agências federais. “Eu miro alvos de maior valor”, disse em depoimento.

A experiência de Ross no ICE incluiu sua seleção para uma Equipe de Resposta Especial, segundo McLaughlin, função que exige 30 horas de testes seletivos, treinamento contínuo e qualificação como atirador de elite.

O confronto violento de Ross com um suspeito em junho do ano passado começou quando autoridades federais tentaram prender Roberto Carlos Muñoz-Guatemala, um imigrante em situação irregular acusado, em 2022, de abusar sexualmente de uma parente adolescente, segundo uma declaração judicial assinada por um agente do FBI envolvido no caso.

Na época, o ICE solicitou que autoridades locais o mantivessem preso, mas o pedido foi negado, de acordo com o documento. A declaração afirma que Muñoz-Guatemala é da Guatemala, enquanto um comunicado do DHS o descreveu como sendo do México.

Em 17 de junho de 2025, agentes federais localizaram Muñoz-Guatemala em sua casa em Bloomington, em Minnesota, um subúrbio de Minneapolis, e realizaram uma abordagem de trânsito quando ele começou a sair dirigindo.

Ross, um dos vários agentes federais envolvidos na prisão, inicialmente sacou sua arma de serviço, mas a guardou depois que Muñoz-Guatemala parou o carro e levantou as mãos, segundo a declaração.

O documento não menciona o nome de Ross, referindo-se a ele apenas como um agente da divisão de Operações de Execução e Remoção do ICE, mas outros registros judiciais, incluindo anexos e listas de testemunhas, deixam claro que se trata de Ross.

Muñoz-Guatemala entregou a Ross um “documento de identificação”, mas se recusou a obedecer às ordens para baixar o vidro e abrir a porta, segundo a declaração. Ross apontou o taser para ele, usou um “punção de mola” para quebrar o vidro da porta traseira do passageiro e colocou o braço pela janela para tentar abrir a porta.

Muñoz-Guatemala respondeu subindo com o carro na calçada e acelerando “em alta velocidade”, conforme o documento, puxando Ross pelo braço direito. Um vídeo de câmera acoplada à porta, divulgado pela emissora WCCO, mostra Muñoz-Guatemala fugindo rapidamente pelo gramado, enquanto vários agentes correm atrás dele.

“Eu temia pela minha vida”, testemunhou Ross durante o julgamento.

repetidamente, o mais alto que conseguia

— Ross disse que disparou dez vezes o taser, atingindo Muñoz-Guatemala, e gritou para que ele parasse .

Muñoz-Guatemala ziguezagueou pela rua e arrastou Ross por cerca de 100 metros, segundo a declaração, até que o agente foi arremessado para longe do veículo. Em seguida, o suspeito continuou dirigindo com o taser pendurado para fora da janela e foi preso cerca de 1,6 km depois por policiais locais.

Ross sofreu um corte no braço direito que exigiu 20 pontos, além de um corte na mão esquerda que precisou de 13 pontos, segundo a declaração, que inclui fotos de seus membros ensanguentados.

Alguns dos ferimentos não dava para fechar. Não havia pele suficiente para suturar

— disse Ross.

para alguns escritórios do ICE, e o nosso não era um deles naquele momento

— Ele também afirmou em tribunal, em dezembro, que o escritório regional do ICE nas Cidades Gêmeas não tinha política de uso de câmeras corporais. As câmeras foram distribuídas , disse. Como resultado, segundo ele, agentes de imigração na região de Minneapolis “não podem usá-las”.

Muñoz-Guatemala foi acusado de agressão a um agente federal com arma perigosa ou letal, resultando em lesão corporal, e foi condenado por um júri em dezembro após um julgamento de três dias. A sentença ainda não foi definida.

O confronto fatal de Ross com Good começou na quarta-feira, enquanto agentes do ICE atuavam em Minneapolis. Um vídeo mostra que o veículo de Good bloqueava parcialmente uma via por onde os agentes tentavam passar.

Enquanto outros dois agentes corriam até a janela dela, gesticulando e tentando abrir a porta, Ross caminhou até a frente do veículo.

Good engatou a marcha à ré por um instante e depois colocou em “drive” e acelerou, com as rodas aparentemente viradas para a direita, e não diretamente em direção a Ross. Não está claro se o veículo atingiu o agente de forma significativa quando ele começou a atirar, atingindo-a. O carro seguiu pela rua e colidiu com veículos estacionados nas proximidades. Good foi declarada morta posteriormente.

Minutos após o tiroteio, vídeos de testemunhas mostram Ross se aproximando do carro acidentado de Good, antes de se afastar e dizer a outros agentes para ligarem para o 911. Ele e pelo menos outro agente deixaram o local em outro veículo.

Especialistas em segurança pública questionaram as ações de Ross, dizendo à CNN que o agente parece ter violado várias regras fundamentais de abordagem a suspeitos em veículos.

A própria política geral do ICE determina que agentes não devem perseguir veículos nem atirar contra eles, a menos que haja perigo iminente, afirmou John Amaya, ex-vice-chefe de gabinete da agência durante o governo Obama. Ele disse que muitos agentes não recebem treinamento em controle de multidões ou interação com moradores, o que pode transformar certas situações em “uma receita para o desastre”.

Charles Ramsey, ex-chefe de polícia da Filadélfia, afirmou à CNN que muitas forças policiais pelo país impuseram restrições à forma como agentes interagem com suspeitos dentro de veículos.

Você não coloca a mão dentro de um carro — é assim que acaba sendo arrastado pela rua

— disse Ramsey. “Você não fica na frente nem atrás de um carro com o motor ligado… Políticas em todo o país praticamente proibiram atirar contra um carro em movimento.”

Mas só porque você pode fazer algo não significa que deva

— Algumas ações de Ross podem ter respaldo legal, observou Ramsey. , afirmou. “O uso de força letal é o último recurso absoluto, quando não há outras opções. Ele tinha outras opções. Não ficar na frente do maldito carro — essa é a opção número um.”

*Com informações de Priscilla Alvarez e Scott Glover, da CNN

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