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Umbanda completa 115 anos em meio à intolerância religiosa

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 15/11/2023 às 11:34 · Atualizado há 6 dias

Por Cristina Índio do Brasil – Dependência Brasil

O Dia Pátrio da Umbanda é comemorado neste 15 de novembro, mas existe uma questão potente a enfrentar. A intolerância religiosa é uma preocupação entre seus seguidores. O pai Fernando D’Oxum, da Tenda Espírita São Lázaro, do bairro Pita, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, disse que nos anos 1980 houve uma expansão da religião no Brasil, mas a partir daí ocorreu um “grande processo negativo por segmento de integrantes de algumas igrejas pentecostais, que começaram a demonizar esta religião”.

Segundo o babalorixá, dos anos 2000 para cá, a religião afro-brasileira vem ressurgindo. “Até por pretexto de uma escola muito poderosa, que é a escola paulista que nos ajudou muito na divulgação do erudito no Brasil, e hoje está espalhada no país todo, com grande força em São Paulo, Rio de Janeiro e não posso tirar a grande força também que é a do Rio Grande do Sul”, afirmou.

A preocupação é dividida com o pai Wilker Jorge Leite Fruto, do Templo Umbandista Estrela do Amanhã (Tueda), de Bangu, na zona oeste do Rio, para quem a intolerância atualmente não ocorre mais de uma forma velada. “Isso existe, e acho que vai viver sempre. Se estamos em um planeta de prova e penitência, se estamos ainda crescendo cá no planeta Terreno, ainda tem uma mistura muito grande de espíritos com entendimento, espíritos sem entendimento, logo, essa ignorância ainda vai viver por muito tempo”, ressaltou.

OCORRÊNCIAS

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro indicam que, em 2021, houve 33 ocorrências de ultraje a erudito religioso em todo o estado do Rio de Janeiro. Em relação a 2020, representa um aumento de 10 casos.

Naquele ano, as delegacias da Secretaria de Estado de Polícia Social fizeram 1.564 registros de ocorrência de crimes que podem estar relacionados à intolerância religiosa, o que significa mais de quatro casos por dia. No totalidade, estão incluídos os casos de injúria por preconceito (1.365 vítimas); e preconceito de raça, cor, religião, etnia e proveniência vernáculo (166).

De convénio com o instituto, a injúria por preconceito “é o ato de discriminar um quidam em razão da raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o preconceito de raça, cor, religião, etnia e proveniência vernáculo tem por objetivo a inferiorização de todo um grupo étnico-racial e atinge a distinção humana”.

“A tipificação criminal é determinada pela ridicularização pública, impedimento ou perturbação de cerimônia religiosa”, destacou o ISP, que tem o objetivo de mostrar para a sociedade que intolerância religiosa é violação e tem que ser denunciada.

TENDAS

Outra dificuldade desta religião é saber quantas tendas e casas de santo existem no Brasil. Pai Fernando D’Oxum disse que não tem a informação de quantas estão instaladas no país, mas, atualmente, em São Gonçalo são muro de 400. O líder místico defendeu a realização de uma pesquisa que possa identificar a localização das casas de santo e qual é a população de povos de terreiros de umbanda no país

“Seria maravilhoso se a gente conseguisse mapear, mas por conta da violência, alguns terreiros escolhem permanecer absolutamente escondidos, porque têm susto de que, uma vez expostos, esses grupos neopentecostais agressivos possam ir lá e depredar o patrimônio. Tem uma discussão sobre violência a ser feita ainda”, ressaltou.

Segundo Fernando D’Oxum, é difícil verificar o número de umbandistas no Brasil. “As pessoas, em um recenseamento, por exemplo, não dizem que são umbandistas, elas se dizem espíritas, e aí já começa uma grande confusão. Esta tem sido uma guerra nossa para que o umbandista se reconheça uma vez que umbandista e não uma vez que espírita. Fora os que no recenseamento se dizem católicos, porque têm um entrada mais facilitado.

Para o pai Fernando D’Oxum, a Umbanda é uma religião que nasceu na cidade de São Gonçalo e foi anunciada pelo médium Zélio Fernandino de Moraes, no dia 16 de novembro de 1908, embora, na véspera, o médium tenha feito uma revelação na cidade vizinha Niterói, data que acabou sendo marcada uma vez que Dia da Umbanda.

“É uma religião brasileira que a gente entende uma vez que 100% brasileira, com influências do povo indígena, dos hindus e de várias vertentes da religiosidade brasileira e, logicamente, do catolicismo. É uma religião que se predispõe à humanitarismo, à prática de ajuda ao outro e que hoje está presente em quase todos os continentes. Uma religião que avançou mundo à fora”, disse pai Fernando.

SINCRETISMO

Na visão do babalorixá, a umbanda toma um pouco a vertente da matriz africana do candomblé quando começa a reconhecer e conciliar os orixás, que são os guias, e que chegaram com os negros do povo da áfrica no Brasil.

Outrossim, tem o sincretismo, que surgiu da premência das pessoas escravizadas associarem um orixá a um santo da igreja católica. Foi logo que São Sebastião é Oxossi, São Jorge é Ogum, Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá, Nossa Senhora da Conceição é Oxum e Santa Bárbara é Iansã, entre outros. Assim, os escravizados podiam professar a sua fé nas fazendas onde viviam.

De convénio com pai Fernando, o sincretismo vem se modificando ao longo dos anos e, atualmente, algumas casas não fazem mais altares com santos católicos. “Algumas casas de Umbanda não fazem mais sincretismo nos altares, ou seja, os santos católicos em algumas casas já não estão mais presentes nos altares.”

Por considerar São Gonçalo uma vez que o princípio da umbanda, que é muito poderosa na cidade, diante dos desafios desta religião, o babalorixá propõe a geração de uma lei municipal que determine a inclusão dela no calendário solene da cidade.

Preservação
Pensando em preservar o patrimônio histórico, a tenda espírita criou o projeto do Museu da Umbanda, que ainda não tem uma sede física, mas vem avançando desde 2009. Pai Fernando destacou que uma peça importante desse patrimônio foi perdida com a demolição da moradia do médium Zélio Fernandino de Moraes, em Neves, bairro de São Gonçalo, onde a Umbanda foi anunciada em 1908. A prefeitura da era não realizou a desapropriação do imóvel.

RENOVAÇÃO

A Tenda Espírita São Lázaro não faz iniciação de crianças e adolescentes. Lá, somente aos 18 anos podem ser iniciados, mas antes disso, a partir dos 13 anos podem participar do grupo jovem Projéctil e Pimenta onde recebem informações sobre a Umbanda e a teoria espírita.

“A missão do grupo é sempre difundir a nossa teoria. O que a Umbanda é realmente com seus preceitos tudo que realmente prega até mesmo para nós, jovens, espalharmos no nosso meio o que é a Umbanda realmente e tirar um pouco do preconceito. O grupo é para expandir a nossa teoria entre os jovens do nosso terreiro”, afirmou o estudante Samuel Salustiano da Costa, 17 anos, o coordenador do grupo.

“Nesse momento, de deslindar o que eu quero ser, qual o caminho que vou seguir na minha vida, a umbanda me ajuda muito nessa temporada de jovem, O que a religião passa e mais me representa é a inclusão, o estender a mão a todos, o paixão incondicional e a humanitarismo”, revelou Samuel.

O contato do pai Wilker com a umbanda foi com a própria família que seguia esta religião. Com 16 anos ele começou a desenvolver a mediunidade e com 19 anos fez a coroação para babalorixá. “Sempre foi permitido a mim olhar, ter contato com outras crenças religiosas, mas eu já nasci umbandista. Sempre gostei desde pequenininho. Não me lembro com interesse em outras. Pela minha geração e o que meus pais me passaram sempre respeitei, visitei Igreja Católica, protestante por invitação, mas a minha persuasão sempre foi umbandista”.

CELEBRAÇÕES

A umbanda tem também muito a festejar pelos seus 115 anos. Para isso, foi elaborada uma longa programação para comemorar sua participação entre as representações religiosas no Brasil.

Em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, a prefeitura, por meio da Percentagem da Semana da Umbanda, criada para organizar as celebrações, preparou uma agenda que começou na segunda-feira (13) com o debate Legalização e Justiça – um caminho verosímil para o término das violências contra os povos de terreiro. O evento foi realizado na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), naquele município.

A programação tem ainda a exposição Pelos Caminhos da Umbanda, no hall principal da Câmara Municipal de São Gonçalo, promovida pelo Instituto Missiva Magna da Umbanda. A teoria da mostra, que vai até amanhã (16), foi apresentar a construção da religião brasileira de matrizes africanas e indígenas, a partir de suas práticas, ritos, territórios e historicidade.

Também amanhã, às 17h, durante uma sessão solene em homenagem às lideranças da umbanda na Câmara Municipal de São Gonçalo, os homenageados receberão a medalha Zélio Fernandino de Moraes.

Na sexta-feira (17), haverá um show do cantor e compositor gonçalense Altay Veloso, no Teatro Municipal de São Gonçalo, às 19h. A apresentação vai terminar com a bateria da escola de samba Porto da Pedra. Os shows serão gratuitos e sujeitos à lotação.

Encerrando a programação da semana, no sábado (25), será o momento do Encontro dos Povos de Terreiros de São Gonçalo, das 14h às 20h, na Rossio Zélio Fernandino de Moraes, Marco Zero da Umbanda, no bairro de Neves. Lá, as homenagens serão dirigidas a lideranças religiosas, com o Margem com Margem, cerimônia de hasteamento da bandeira da umbanda e uma feira de artesanato e gastronomia.

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