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Uma crônica do mestre Carlos Drummond de Andrade

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 16/12/2023 às 17:21 · Atualizado há 16 horas

Nesta seção, o portal ICL Notícias vai resgatar textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos, para refletir com autores geniais, tanto do Brasil quanto de outros países.

Hoje, publicamos uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, que faz segmento do livro Cadeira de Balanço.(Record. Rio de Janeiro, 1992)

 

Perde o gato

Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um notório número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de pilastra. Trata-se de um gato.

Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convívio. Inácio estava na perdão do prolongamento, e suas atitudes faziam desenredar um magia novo no magia imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu — e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.

Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço expressar que se relaciona com a vida faceta e a escassez de víveres. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo mesocarpo de gato, caça tão esquiva quanto a outra.

O indumentária sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte universal dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu rumo não sabido. Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro uma vez que Inácio — cor incomum em gatos comuns — e se dispunha a ajudar-me na conquista. Lá fomos sob o vento da praia, em seu pista. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um prédio, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava. Seria injusto apartá-lo do níveo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio — pensei — dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.

Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento urbano de um organização plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.

Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da morada se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É inimaginável uma vez que o gato “funciona” em uma morada: em silêncio, indiferente, mas adesivo e referto de personalidade. Se se aumentar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua sátira muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando qualquer trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.

Poderia botar proclamação no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em descobrir gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato trespassar sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no muito, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a arrogância, a serenidade e a elegância dos gatos.

 

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Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Em 1919, estudante interno do escola Anchieta, em Novidade Friburgo, foi expulso por “insubordinação mental”. Publicou seu primeiro livro — Alguma verso — em 1930. Trabalhou no gabinete do ministro da Instrução e Saúde Pública Gustavo Capanema e aposentou-se uma vez que gerente de seção da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Vernáculo (DPHAN), em 1962.

Responsável pertencente à segunda tempo do modernismo brasílio, Drummond apresenta uma verso com liberdade formal e temática sociopolítica. No entanto, seus textos são marcados, principalmente, por temas do cotidiano, que, mesmo culturalmente localizados, assumem um caráter universal. O poeta, ganhador do Prêmio Jabuti, no Brasil, e do Prêmio Morgado de Mateus, em Portugal, morreu em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro.

(Manancial: Brasil Escola)

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