Hoje publicamos no portal ICL Notícias uma crônica de Nelson Rodrigues. Esta seção resgata textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos para refletir com autores geniais do Brasil e de outros países. Dessa vez, destacamos a sexta do totalidade de 80 crônicas autobiográficas publicadas diariamente no jornal Correio da Manhã, entre 18 de fevereiro e 31 de maio de 1967. Oriente texto saiu na edição do dia 2 de março daquele ano, depois uma semana de interrupção pela tragédia das chuvas no Rio de Janeiro que, com a queda de um prédio no bairro de Laranjeiras, matou mais de 300 pessoas, entre elas Paulo Rodrigues e sua família. As memórias de Nelson foram editadas em 1993 no livro “A rapariga sem estrela” (Companhia das Letras), organizado por Ruy Castro.
Crônica 6 — A rapariga sem estrela
(Nelson Rodrigues)
Quando meu irmão Mário Rebento morreu, escrevi que a morte é anterior a si mesma. Ela começa muito antes, é toda uma luminosa e paciente elaboração. Nos seus últimos dias, Mário Rebento teve a lucidez, a sabedoria, a labareda de quem vai morrer. Não vi no seu rosto, no seu último rosto, nenhum espanto, nenhum pânico, nenhum ressentimento. Rosto tão guloseima, tão compassivo, tão irmão. Parecia uma morte consentida, quase desejada.
Mas vi meu irmão Mário e não vi meu irmão Paulo. Nem Maria Natália, nem Ana Maria, nem Paulo Roberto, nem d. Marina. O que me pergunto é se também Paulinho, sua mulher, seus filhos, sua sogra começaram a morrer antes. E só peço que nem meu irmão, nem meus sobrinhos, nem minha cunhada tenham percebido zero. Imagino uma morte compassiva, sem tempo para o pânico e para o grito. Mas o pior é que Maria Natália percebeu, sim, e gritou.
Tudo começou no domingo. Eu e Lúcia, em nossa mansão, ligamos no Johnny Halliday; Paulinho, na dele, com toda a família, ouvia o mesmíssimo Johnny Halliday. Já na véspera e por todo o domingo, a terreno deslizara por debaixo da pedra. Era a morte e ninguém sabia. João, camarada do meu sobrinho Paulo Roberto, estava lá. E Maria Natália fazia anos (tinha ódio da data). João fora buscar Paulo Roberto para um cinema. Eu, em mansão, via o cantor arrancar a camisa e, seminu, atirá-la na plateia, num rompante erótico.
O que houve, em seguida, foi tremendo. No vídeo, estava o dorso, lustroso e crispado. E embaixo, na plateia, correrias, atropelos, uivos. Cabeludos e meninas cavalgavam nas cadeiras. A camisa foi possuída, violentada, estraçalhada. Na rua Cristóvão Barcelos, Paulo Roberto preferia Johnny Halliday (o cantor era a morte), preferia Johnny Halliday ao cinema. E, portanto, a pedra se desprende. Ia levar, de roldão, uma mansão, o prédio seguinte e, por término, o de Paulinho. Maria Natália empurra o João: “Corre, que a mansão está caindo!” O menino correu. Veio pela escada, enquanto o mundo desabava. Diz ele que ouviu, ainda, o grito de Ana Maria. Mas por que seria o grito de Ana Maria e não um grito sem possuinte, desgarrado, perdido?
Na minha mesa, base o telefone. Lúcia atende. Está falando e eu pergunto “Quem é?” Ela tapa o fone: “Papai.” Moca. Era minha mana, desvairada: “Desabou o prédio de Paulinho.” Lúcia sai do telefone; mente mais: “Lá de mansão. Papai chegou de Petrópolis.” Depois, o telefone não parou mais e só ela atendia. Continua mentindo com pânico do meu coração. Até que um camarada, o dr. Silva Borges, telefona, avisando: “A Continental deu que Paulo está no Souza Aguiar.” Só portanto minha mulher começou a manifestar a verdade. Repetia, desanimada: “Se está no Souza Aguiar está vivo”.

Paulo Rodrigues era historiógrafo do jornal O Mundo, onde manteve a pilar “Se a cidade contasse…”
Eu, Lúcia, meus filhos Joffre e Nelsinho, meus irmãos Augusto, Helena, Stella varamos a noite, de hospital em hospital. No Souza Aguiar, zero. De O Mundo vieram Carlos Tavarez, Menezes, Ricardo Serran, Carlos Alberto. Meu primo Augusto Rodrigues e meu cunhado Francisco Torturra foram para General Glicério; e, lá, fizeram uma vigília de limo, pedra e vento. Eu só pensava em Paulinho, ei s a verdade, só pensava em Paulinho. Ao meu lado, Mário Júlio Rodrigues só pensava em Paulinho (e os primeiros mortos vinham esculpidos em limo). No meio da madrugada é que, de repente, eu percebo tudo: se morressem a mulher, os filhos, se morresse toda a família ele não sobreviveria. Era uma estrutura guloseima e tão frágil. E havia entre ele e Maria Natália uma paixão de Pedro, o Cru, por Inês de Castro; e do par pelos filhos um paixão de loucura. Penso também em d. Marina, mãe e avó, que os seguia, trêmula de paixão, uma vez que uma fanática.
Na segunda-feira, veio a notícia: reconhecidos Maria Natália, Ana Maria, Paulo Roberto e d. Marina. Paulinho não fora ainda encontrado. Eu o imaginei vivo, por um milagre, vivo. Mas quando visse os outros mortos, não tardaria a raiar para ele ou a estrela dos loucos ou a estrela dos suicidas.
O espantoso é que, desde o desabamento, eu me encontro, a toda hora, com minha puerícia. Meus pais ainda moravam em Lugarejo Campista quando dois namorado se mataram no Sobranceiro da Tijuca, perto da Cascatinha. Daí para o jornal de modinhas foi um pulo. Três ou quatro dias depois, o pacto de morte tinha seu verso, a sua rima, o seu esquina. Eis o que eu queria manifestar: vem, de minha puerícia, o esplendor por todos os que se juntam para morrer.
Cada um de nós morre só, tão só, tão sem ninguém. E meu irmão Paulinho, sua mulher, seus filhos (e d. Marina) parece unidos numa morte consentida e desejada. Sim, uma vez que os namorados de velhas gerações. Mas eu falo em “irmão” e não é muito a verdade. Ou por outra: seria convencionalmente irmão e, por sentimento, fruto. Todos nós, seus irmãos mais velhos. Amávamos Paulinho uma vez que a um fruto, e pior: uma vez que a um fruto caçula. Por isso é que a sua morte nos fere, e tão fundo, na mesocarpo e na psique.

Recorte da primeira página do Correio da Manhã anunciando a interrupção das crônicas de Nelson Rodrigues
Na madrugada de segunda para terça-feira, acharam seu corpo. Graças, graças, iam ser enterrados juntos. Às nove da manhã estava eu na Capela Real Grandeza. Alguém veio me sussurrar: “Ainda não chegaram.” Colocam as primeiras coroas nos cavaletes. Houve um momento em que me deu um ódio preto e cego contra o bar da capela, instalado no andejar de cima. É um balcão que serve tudo, Coca-Cola, Guaraná, Grapete, sanduíche e cafezinho. A dor tem, ao fundo, um banzé de xícaras e de pires. Enquanto os cinco caixões não chegam, penso que há entre mim e Paulinho não sei quantas coisas entrelaçadas. Naquele momento, descobri que não se deve procrastinar uma vocábulo, um sorriso, um olhar, uma carícia. E uma vez que me doía não ter dito a ele tudo, não ter feito as confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas. Quantas palavras calei com pudor de ser meigo, vergonha de parecer piegas? Agora mesmo eu não chorava uma vez que queria. Meu Deus, por que havemos de suportar uma vez que Rilke.
Eu queria falar, falar sobre meu irmão. O que me fascinava em Paulo Rodrigues era sua luminosa, ardente humildade. Essa humildade foi, primeiro, uma qualidade vital e, depois, uma virtude literária.
Tenho, na cabeça, quase tudo que ele escreveu. Foi talvez por humildade que, nos primeiros escritos jornalísticos, preferiu usar fatos miúdos, quase imperceptíveis. Num momento, percebemos que era o grande poeta da ocorrência menor, o estilista do traje insignificante. Deixava de lado as tragédias óbvias e enfáticas para trabalhar no lixo do noticiário. E uma vez que sabia ver, num vago incidente de tráfico, todo o mistério e dramatismo das coisas.
Está na sua obra romanesca o frágil, o incomparável virtuosismo com que sempre recriou as miudezas da crônica policial. Vejam o seu último, O sétimo dia, que é uma exata, inapelável obra-prima. A rua, a esquina, o boteco, o pau-d’chuva, tudo tem para ele um apelo seduzido. Seus vagabundos são de uma formidável tensão dionisíaca. Sabia, uma vez que nenhum outro, dar ao miserável uma dimensão insuspeitada e fremente. O leitor ou crítico pode selecionar, nos seus escritos, uma crestomatia de pulhas magistrais.
Eu me lembro da nota que fez sobre o incidente da cusparada. Com uma meia dúzia de linhas, transmitiu ao incidente uma tremenda força lírica. Eis o traje: um cidadão, que ia numa “Mercedes-Benz”, teve vontade de salivar. Verifica, porém, que alguém o olha, no táxi, ao lado. Deu-lhe uma espécie de escrúpulo, cerimônia, pudor ou sei lá. E resolveu esperar das duas uma: ou que a “Mercedes” ultrapasse o táxi ou que oriente ultrapasse a “Mercedes”. Nem uma coisa, nem outra. Os dois carros corriam juntos e juntos param no mesmo sinal. O passageiro do táxi não tira os olhos. O outro imagina: “Sabe que eu vou salivar” E pergunta, de si para si: “Cuspo ou não cuspo?” Entupido de seiva, rala-se de uma ira homicida e impotente. A coisa podia ultimar em tapa, tiro, talvez em morte.
Paulo Rodrigues fez com o incidente de tráfico , uma página memorável, de uma qualidade machadiana. Eu disse Machado e já penso em Drummond. O “Caso da Cusparada” tem a densidade do “Caso do Vestido”.
Às 11 horas de terça-feira, chegam os cinco caixões. Decidimos que não seriam abertos. Eu os vi passando, carregados. E, portanto, imaginei que ninguém é mais importante, para nós, do que os mortos esculpidos na memória da família.