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Um conto do surpreendente escritor mineiro Fernando Sabino

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 09/03/2024 às 05:40 · Atualizado há 2 dias

Nesta seção, o portal ICL Notícias vai resgatar textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos, para refletir com autores geniais, tanto do Brasil quanto de outros países.

Hoje, publicamos mais um história do mineiro Fernando Sabino que inspirou um filme de sucesso. Foi publicado no livro de mesmo nome, “O varão nu”, publicado pela Record em 1975..

 

                              O Varão Nu

 

Ao convencionar, disse para a mulher:

— Escuta, minha filha: hoje é dia de remunerar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe verba da cidade, estou a nenhum.

— Explique isso ao varão — ponderou a mulher.

— Não paladar dessas coisas. Dá um ar de vigarice, paladar de executar rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto cá dentro, não faz estrondo, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele sovar até cansar — amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um moca. Pôs a chuva a ferver e abriu a porta de serviço para recolher o pão. Porquê estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do peitoril. Ainda era muito cedo, não poderia manar ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta detrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a guizo e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao volta. Ouviu lá dentro o sonido da chuva do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio perfurar. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares… Desta vez, era o varão da televisão!

Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o pacote de pão:

— Maria, por obséquio! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de obstinar: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de ordinário… Tomado de pânico, olhou ao volta, fazendo uma pirueta, e assim despido, pacote na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de perfurar a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o pacote do pão.

Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

— Ah, isso é que não! — fez o varão nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser qualquer vizinho publicado… Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais fidedigno e desvairado Regime do Terror!

— Isso é que não — repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apoucar o botão do seu andejar. Lá embaixo continuavam a invocar o elevador. Antes de mais zero: “Emergência: parar”. Muito muito. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a paragem de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria detrás de si.

Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o pacote de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu…

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

— Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para invocar a radiopatrulha:

— Tem um varão pelado cá na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

— É um tarado!

— Olha, que horror!

— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou uma vez que um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo perfurar.

Não era: era o cobrador da televisão.

 

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Fernando Sabino nasceu em 12 de outubro de 1923, em Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. Decidiu ser repórter com 10 anos de idade, e, dois anos depois, publicou seu primeiro história. Mais tarde, formou-se em Recta, escreveu para alguns periódicos, foi cineasta e morou em cidades uma vez que Novidade Iorque e Londres.

O romancista e historiador, que faleceu em 11 de outubro de 2004, no Rio de Janeiro, fez segmento da terceira tempo do modernismo brasiliano (ou pós-modernismo), e ficou famoso por suas crônicas irônicas e bem-humoradas, muito uma vez que pela publicação dos romances O encontro marcado e O grande mentecapto.(Natividade: Brasil Escola)

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