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Só nos resta a esperança: uma árvore que se dobra mas não se quebra

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/01/2024 às 10:01 · Atualizado há 1 semana

No ano de 2023 ocorreram fatos que nos assombram e nos obrigam a pensar: houve no Brasil uma tentativa frustrada de golpe de Estado, dois eventos extremos assustadores: grandes enchentes no Sul e devastadoras secas no Setentrião, seguidas de imensos incêndios. Tudo indica que esta situação vai se repetir com frequência.

No nível internacional, o prolongamento da guerra Rússia-Ucrânia, o atentado terrorista da partido militar do Hamas da Fita de Gaza que provocou um revés violentíssimo por secção do governo de extrema-direita israelense e seus aliados sobre a inteira população da Fita de Gaza, com viés de genocídio. E o mais grave, com irrestrito pedestal do presidente católico Joe Biden.

Talvez um veste que não pode de jeito nenhum ser desconsiderado é a Sobrecarga da Terreno (The Earth Overshoot), anunciada pela ONU em fins de agosto. Quer proferir, todos aqueles bens e serviços naturais que a Terreno oferece para a perenidade da vida chegaram ao seu limite. Precisamos de mais de uma Terreno e meia para atender o consumo humano, principalmente dos países ricos e consumistas. Porquê é viva, a Terreno reage a seu modo, enviando-nos mais enfermidades viróticas, mais eventos extremos e aquecendo-se cada vez mais. Oriente último veste é de consequências imprevisíveis, pois ultrapassamos o ponto crítico. O ano de 2023 foi o mais quente depois de milhares de anos. A ciência e a técnica exclusivamente nos ajudam a prevenir e minorar os efeitos danosos, mas não podem mais evitá-los. Essa mutação climática é da responsabilidade dos países industrialistas e consumistas e pouquíssimo das grandes maiorias pobres do mundo. Portanto, é um grave problema ético.

Há ainda o risco de um conflito nuclear, pois os EUA não renunciam a ser o único pólo a controlar todos os espaços do planeta, não aceitando multipolaridade. Se essa guerra nuclear generalizada ocorrer, será o término da espécie humana e de grande secção da biosfera. Alguns analistas acham que ela será inevitável; vai ocorrer não sabemos quando nem uma vez que, mas as condições já estão dadas.

Demais, importa reconhecer que estamos no auge da crise do modo de habitar o planeta (devastando-o) e de organizar as sociedades, nas quais reinam desumanas injustiças. Muito nos tem avisado inúmeras vezes, o Papa Francisco: temos que mudar, caso contrário, estando todos no mesmo embarcação, ninguém se salvará.

Estes cenários tenebrosos têm levado muita gente na humanidade ao desamparo e à consciência do fracasso da espécie humana, particularmente com o ocaso completo do tino ético e humanístico que permite testemunhar, a firmamento destapado e na visão de todos, o extermínio de um povo na Fita de Gaza, principalmente, milhares de crianças assassinadas sob os ininterruptos bombardeios das forças de guerra israelenses. Não são poucos que se perguntam: merecemos ainda estar sobre a face da Terreno que dizimamos sistematicamente e violentamos sem escrúpulos seus filhos e filhas humanos e organismos da natureza que nos sustentam? Ou isso não é o prenúncio de nosso término uma vez que espécie? Cabe lembrar que entramos nos ultíssimos momentos no longo processo de evolução, dotados de grande agressividade. Será que entramos para destruir tragicamente nosso mundo?

Neste contexto, emudecem as grandes utopias. A razão moderna se mostrou irracional ao edificar o princípio de autodestruição. As próprias religiões, fontes naturais de sentido, participam da crise de nosso paradigma civilizacional e, em muitas delas, vige o fundamentalismo violento.

Em que se segurar? O espírito humano recusa o paradoxal e sempre procura um sentido que torne a vida apetecida. Resta-nos um único sustentáculo: a esperança. Ela é uma vez que uma árvore: ela se verga mas não se quebra. Porquê nos foi mostrado antropologicamente, a esperança é mais que uma virtude ao lado das outras. Ela representa, independentemente do espaço e do tempo histórico, aquele motor interno que sem sobrestar nos faz projetar sonhos de dias melhores, utopias viáveis, caminhos ainda não andados que podem valer uma saída para um outro tipo de mundo.

É atribuída a Santo Agostinho, o maior gênio intelectual e cristão do Oeste, africano do século V da era cristã, a seguinte certeza que nos poderá, eventualmente, consolar: Todo ser humano é habitado por três virtudes: a fé, o paixão e a esperança. Diz o sábio: se perdemos a fé nem por isso morremos. Se fracassamos no paixão, sempre podemos consertar outro. O que não podemos é perder a esperança. Pois a selecção à esperança é o suicídio por absoluta falta de sentido de viver.

Entretanto, a esperança possui duas formosas irmãs: a indignação e a coragem. Pela indignação rejeitamos tudo o que nos parece mau e perverso. Pela coragem, empenhamos todas as nossas forças para mudar o que é ruim em bom e o que é perverso em profícuo.

Não temos outra selecção senão nos enamorarmos destas duas formosas irmãs da esperança: indignarmo-nos e rejeitar firmemente esse tipo de mundo que impõe tantos sofrimentos à Mãe Terreno a todos da humanidade e da natureza. Se não podemos superá-lo, pelo menos resistir a ele, desmascarar sua desumanidade. E ter a coragem de furar caminhos, tolerar pelo parto de alguma coisa novo e mútuo. E crer que a vida tem sentido e a ela cabe redigir a última página de nossa romaria por esta Terreno.

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