
Blitz policial militar revista ônibus com direcção às praias.
— Meu fruto, vai à praia?
— Vou. Tá muito calor…
— Não tira a camisa até pisar na areia. Não esquece os documentos. Não corre. Vai de tênis. Já falei do documento? Tá com numerário? Já falei pra não percorrer? Desvelo com grupos grandes. Vai à praia aonde? Quem vai com você? Teu irmão, tua mana, a vizinha? O RG tá aonde, deixa eu ver. Fruto… por obséquio, por mim, não vá à praia…
Levante texto é para você, que qualquer dia se viu fazendo uma fala semelhante a esta com seu fruto, pois só você sabe que não são inocentes. Não adianta relutar, você sabe que é mal te enxergam. Vocês são monitorados nas lojas, nos shoppings, nos transportes, nos terminais rodoviários. Vocês, antes de cidadãos, são culpados. Mesmo calados, incomodam…e muito! Vocês são culpados à priori.
Senhoras vão se abraçar à bolsa quando vocês passarem, vão mudar de assento no metrô, vão desviar o caminho e mudar de lajedo. A polícia vai abordá-los e é bom que esteja prestes ou…
…Ou tem tudo para ser apreendido. Sempre pode, mas agora pode mais, visto que até o gerente do Ministério Público da cidade concorda que presunção de inocência não existe. O que vale é a tua rosto avaliada por quem pouco ou quase zero vigia e muito pune. Crianças e adolescentes desacompanhados podem ser apreendidos nas praias da cidade do Rio de Janeiro, mesmo sem crimes em flagrante.
… eventuais abusos cometidos na mortificação ou no protecção serão objeto de tratamento pelo juiz e pelo MP e blá, blá, blá.
— disse a poder. Até que resolvam estudar os “eventuais abusos” teu fruto já estará estagnado, guiado a qualquer abrigo pelo supremo violação de ter ido à praia. Já estará marcado pelo sentimento de não ser, já estará com essa experiência macabra no corpo, na retina, na espírito… Somente por ousar querer evadir do bafo incandescente causado pela pouquidade de árvores, dos centros de lazer, de sombra e chuva fresca no bairro onde mora. Somente por pisar naquela areia branca, que brancos acreditam ser deles por recta e IPTU tá; que gringos se apossam desfrutando da exótica e superabundante “paisagem dos trópicos” gastando em dólar.
Mas e os arrastões? E os celulares roubados? E os senhores e senhoras espancados? Óbvio que você, pai ou mãe, que fez um oração enquanto seu fruto se aprontava para dar um singelo mergulho, sabe que a violência urbana existe e que é absurda. Óbvio que você sabe que um tanto precisa ser feito, mas você desconfia (ou tem certeza) que não querem fazer o trabalho difícil e necessário que você paga ano posteriormente ano com seus suados impostos, para solucionar um tanto sistêmico e vezeiro, mas que se acentua a cada novo verão.
Em qualquer momento você pensará que uma sociedade em que ir à praia em um dia de calor torna-se quase um ato de coragem, de rebeldia, está muito doente, mas também sabe que cá é mais fácil engaiolar todo mundo primeiro, para ver se existe culpa depois. Opa! Todo mundo não. Todo mundo é muita gente.
O papo é contigo… e com o teu fruto pardo ou preto saído de qualquer subúrbio, alguma periferia ou não. Basta que um dedo sedento de vingança pelo celular perdido te aponte ou nem isso. Basta ter a “rosto certa” para o “procedimento padrão” incorrecto.
James Baldwin, um dos escritores e intelectuais negros norte-americanos mais brilhantes e disruptivos de todos os tempos, dizia que “ser preto e relativamente consciente é estar quase sempre com raiva”.
A cidade não é tua. Você não é bem-vindo nela e sabe disso. Muito menos o teu garoto, o teu rapaz. E com raiva ou não você quase implora:
Não, meu fruto, não vá à praia
E levante ano tem eleição.