Chegamos à reta final de 2023 e, porquê em todo termo de ano, somos incentivados a exercitar o pensamento mágico, impelidos a imaginar um pouco de muito bom que não aconteceu nos últimos 365 dias, mas que, por alguma força sobrenatural, queremos ver materializado nos próximos 365.
Não costumo entrar nessa vaga, mas nos últimos dias me peguei especulando sobre alguns desejos que tornariam a vida mais aprazível no ano novo. Ao contrário do que parecia para mim, não é um pouco simples de escolher.
Torcer para que se instaure a tranquilidade mundial? Meta ousada demais até mesmo para forças do além. Melhor subtrair a esfera.
Milhões da Mega-Sena? Nem adianta sonhar com isso, nunca jogo.
Vasco vencedor brasiliano? Mudança radical demais para esse time que me fez tolerar tanto nos últimos meses.
Depois de um tempo pensando e eliminando possibilidades, cheguei a um libido que melhoraria bastante a minha qualidade de vida e a de muitos brasileiros: que bom seria se os editorialistas da grande prensa passassem a ter um pouco de raciocínio em 2024.
Notem: não precisa muito raciocínio, só um pouco já seria um upgrade e tanto.
É evidente que o reacionarismo dos jornalões sempre marcou os editoriais. Confesso, porém, a ingenuidade: pensei que depois da ameaço autoritária de Jair Bolsonaro e seus cúmplices a turma passaria a maneirar um pouco mais. Em vários momentos de 2023, os editorialistas mostraram que eu estava redondamente equivocado.
Não faltam exemplos. Há pouco mais de uma semana, O Orbe publicou um editorial com o paradoxal título “Justiça do Rio acerta ao permitir consumição de menores sem flagrante”. O próprio texto trazia o argumento-chave para negar a teorema. O Ministério Público provou que as apreensões desses menores, quase todos negros, são resultado de racismo por segmento da polícia: de 89 casos analisados, em exclusivamente um a consumição se justificou. Se isso não foi o suficiente para demover o editorialista do Orbe de publicar aquilo, o que seria?
Na Folha houve menos sobressaltos, mas argumentações estapafúrdias para tutelar teses indefensáveis apareceram às vezes. Uma vez que no dia 28 de agosto, no editorial sob título “Não foi golpe”, em que o subtítulo já mostrava ao leitor o terreno pantanoso em que se metia ao ler aquele texto: “Erros na economia e na política, não pedaladas, levaram ao impeachment de Dilma”. Isso mesmo: o jornal avalizou a tese proibido de que a realização de uma política econômica considerada equivocada pode ser motivo para descavalgar um presidente do poder. O indumentária de essa possibilidade não estar na legislação parece ser exclusivamente um pormenor para a Folha. De quebra, confirmou com todas as letras o contrário do que alardeava no primórdio: foi golpe.
E tem o Estadão, com seus editoriais antipetistas que poderiam ser considerados caricatos, se não representassem o pensamento torto de segmento da escol brasileira. Há uma lista enorme, mas fiquemos somente com dois dos mais recentes.
No dia 26 de dezembro, o editorialista tratou da campanha do governo que tem o objetivo dito de unir o país, sob o título “O Brasil é um só povo”. Segundo a estudo sempre enviesada do Estadão, na verdade “o que os petistas querem é unificar o País em torno de Lula”. Reclama que “’pacificar’ o Brasil deixou de ser um objetivo cívico para se tornar mote eleitoral petista”. Ou seja: na cabeça confusa do opinador do jornalão, pedir tranquilidade é pura malandrice de Lula para conseguir votos.
Curiosamente, no dia seguinte, o editorialista ciclotímico reclama da falta de pacificação.
Sob o título “Estado de eleição permanente”, o jornal critica a partilha do Brasil entre os polos do “lulopetismo” e do bolsonarismo, e lamenta as consequências disso: “cisão, rescisão de grupos, espavento ou ruptura de amizades e relações, interdição de debates públicos e privados, demonização do rival”. Na procura das causas desse quadro horroroso, equipara a responsabilidade de Lula à de Bolsonaro na disseminação do ódio – e pesa mais a mão sobre o petista, evidente.
Nem sequer uma vocábulo sobre o papel que o próprio Estadão exerceu e exerce na perseguição a um partido político, o PT, inclusive com o suporte entusiasmado à caça às bruxas da Lava Jato, que levou Lula a permanecer 580 dias recluso sem que houvesse provas para tal. Isso sim é “demonização do rival”.
A principal sátira cá, evidente, não vai para aqueles que escrevem os textos, mas para os donos de jornal que emitem as opiniões e delegam a seus funcionários a tarefa de sustentá-las com palavras empoladas, que os façam parecer inteligentes.
Pobres sujeitos, os editorialistas.
Não sou leitor assíduo de editoriais – nem eu preciso deles e nem eles de mim. Mas volta e meia um desses textos vira destaque negativo nas redes sociais e quando menos espero estou lendo pérolas de argumentação.
Não é experiência aprazível e tem sucedido com indesejada frequência.
Portanto, na impossibilidade de conseguir a tranquilidade mundial, os milhões da Mega-Sena ou um título brasiliano para o Vasco, se 2024 tiver editoriais menos tenebrosos já vou me dar por satisfeito.