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Por que todos (até a protagonista) saem destroçados de 'Vidas Passadas'?

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 29/02/2024 às 06:42 · Atualizado há 3 dias

Por Matheus Pichonelli

Todo mundo tem uma música favorita do Kid Abelhão. Mesmo que não admita em voz subida.

A minha é “Seu Espião”. Escrita por Herbert Vianna, Leoni e Paula Toller, vivia nas estantes das canções românticas até outro dia, quando fui ao cinema conferir “Vidas Passadas”. Já chego lá.

A letra traz a angústia de quem tenta, e não consegue, acessar os sonhos da pessoa namorada. Nas lacunas da história, podemos visualizar um níveo controlado da cabeça aos pés. Menos quando dorme.

É o que angustia o rapaz da história.

“Ver você dormir me corta o coração. O seu sorriso é sonho ou traição? O que você sonhou eu nunca vou saber. Me dá uma pista que eu possa percorrer. Não que eu seja ciumento. É unicamente prevenção”.

Daquele jeito mansinho à brasileira, o predador em nota músico assume a laia pedinte para acessar um lugar indevido. Ele se questiona quantos beijos de paixão alguém pode sonhar em milénio histórias onde não pode entrar. E portanto suplica: “deixa eu ler seu pensamento. Deixa eu ser seu espião”. Tudo antes de concluir que “alguém tem que controlar o seu coração”.

Na voz da Paula Toller a embuste com o selo de “paixão romântico” parece até suave. Mas a lista das plataformas de música precisa de um rebranding. O que é romance na música seria chamado hoje de colonização dos afetos.
Aquilo não era paixão, era cilada, diriam os poetas do Molejão.

Quem já frequentou viodeolocadoras deve se lembrar das seções de filme distribuídas pela loja. Tinha a fileira de terror, de suspense, de comédia e de romance. E um campo de bordas mais ou menos borradas chamado “drama”.

“Vidas Passadas” é um dorama, neologismo para drama coreano, país de origem da diretora Celine Song e dos atores Greta Lee e Teo Yoo, que interpretam Nora e Hae Sung.

Nora é o nome ocidentalizado que a protagonista assume quando se muda com os pais para o Canadá e, depois, para os Estados Unidos.

A mudança representa uma quebra brusca, quase violenta, em sua trajetória. De um dia para o outro ela sobe uma escada em uma via bifurcada e deixa para trás o melhor colega, Hae.

Eles passam anos sem se falar até que Mark Zuckerberg decide fabricar uma rede para reunir amigos distantes. É pelo Facebook que eles, às portas da vida adulta, voltam a se transmitir.

E é por lá que decidem pelo segundo rompimento, oriente calculado.

Naquela novidade versão, Nora era portanto uma jovem escritora enxurrada de planos e ambições que seriam subtraídos ao longo do tempo. Primeiro ela sonhava (cá de olhos abertos) com um Nobel da Literatura. Depois, com um Pulitzer. Em seguida, já não sonha. Hae caberia em todas essas etapas, mas alguma coisa o prendia no país de origem.
Entre elementos e lacunas oferecidas por Celine Song, não conseguimos saber se Nora sente falta “só” do colega de puerícia, da puerícia em si ou do grande paixão da vida. Ao menos o paixão de uma vida “passada” e encerrada no momento em que Hae decide permanecer onde está.

(Não é um pormenor que, já na faculdade, ele opte por fazer estágio na China para aprender mandarim; o mundo dez anos depois da primeira separação era outro e já não tinha na América um eixo meão).

Tanto livros quanto filmes da categoria paixão romântico contam histórias de quem rompeu tudo – traços de origem social, proibições explícitas, intervalo, guerras, noções de tempo e espaço e até juras de conúbio – para viver um grande paixão e viver felizes (no plural) para sempre. O protótipo do termo ideal é a cena derradeira de “A Primeira Noite de um Varão”, em que o personagem de Dustin Hoffman decide ouvir o coração e foge com a prometida prometida a outro varão, mandando às favas as convenções mundanas ao som de Simon e Garfunkel. Na mitologia ocidental, somos unicamente corpos movidos pelo coração e música romântica.

Zero disso acontece entre Hae e Nora (desculpem o spoiler). Eles nunca saberão o que havia de verdade naquele balaio de afetos guardado e decantado em barril porque não souberam o que era ajustar despenteados no dia seguinte e combinar quem pagaria a conta de luz ou trocaria a fralda da garoto.

O sonho americano de Nora se resume a uma vida generalidade em um apartamento de Novidade York onde administra a vida a dois e as frustrações de uma quadra – ao menos as dela e as do companheiro Arthur, um redactor também desiludido que joga videogame num sábado à noite interpretado por John Magaro.

Arthur não é o protótipo do varão violento e enciumado que impede Nora de reencontrar o colega que vai colocar em risco o que o Green Card uniu e o varão, em tese, não separa.

A certa profundidade, ele, roteirista, admite que seria clichê demais assumir o papel do varão branco e malvado que proíbe a companheira asiática de viver um grande paixão com o príncipe de sua terreno. Portanto, antes por increpação do que por segurança, performa uma comprazimento desconstruída em forma de autorização.

Não sem antes questionar se ela sentia libido pelo velho colega, numa sinalização de que, naquele relacionamento a dois, outros formatos são permitidos e compartilhados – desde que relatados em interrogatórios, uma vez que uma prestação de contas. Nora voto que não. E provavelmente não mentiu.

Mas o que Arthur quer acessar não é a confissão. É o sonho, uma vez que na música dos primeiros parágrafos. E cá não é o sonho uma vez que semelhança da sofreguidão, mas o do campo da inconsciência explorado por Freud.

Quando ainda falava com Hae por videochamada, Nora ouve o tempo todo que está perdendo o sotaque coreano. A linguagem entre eles já não é a mesma. Mas, quando ela sonha, sonha em coreano, diz Arthur – ele sim confessando o desespero por ver a pessoa com quem deveria ser feliz para sempre acessando um lugar onde ele, uma vez que na música, também não pode entrar.

Aquele diálogo é perturbador, ao menos para os dois, por uma razão simples.

Mesmo com a linguagem materna enferrujada, Nora passou a vida acreditando na tradução exata de uma vocábulo que só existe em sua terreno: In-Yun. Mal resumindo, trata-se de uma somatória de vivências acumuladas em vidas passadas que levam uma pessoa a reconhecer a outra uma vez que um par na existência presente.

É uma espécie de “orientação” meritocrático, que você resgata na vida seguinte, levando ao paroxismo a melô do ghosting cantada por Chico Buarque em “Futuros Amantes”.

Talvez (e cá é mera especulação) Nora tenha vivido seus dias em incerteza sobre quem era a psique gêmea protagonista daquela história: se alguém elaborado em uma vida passada ou naquela em direção a uma próxima. Em outras palavras: Arthur ou Hae?

Hae também acredita em orientação. E a presença dele em Novidade York, um lugar estranho para ambos, é a recordação de que tem coisas que só falamos e entendemos de verdade na língua materna. E há mais noções culturais envolvidas no concepção de paixão entre Seul e Novidade York do que supõe a intervalo entre uma cidade e outra.

Na terreno de Arthur, paixão é um concepção criado no estúdio de Hollywood segundo o qual só seremos felizes e completos quando encontrarmos uma outra metade, fale ela a língua que falar. E, segundo oriente preceito, tudo aquilo que se sente e se deseja se sobrepõem a convenções, traços culturais e sociais amontoados entre um corpo e outro. Spoiler 2: pura mito (e posso provar indicando o podcast “É Tudo Culpa da Cultura”, do antropólogo Michel Alcoforado, e que tratou do tema “paixão” em sua primeira temporada).

É Arthur quem questiona, em uma cena-chave do filme: e se tudo fosse só um conjunto de aleatoriedade? E se ele e Norma estivessem juntos unicamente porque, num momento de vulnerabilidade, foi ele quem se apresentou para preencher uma vazio deixada pela segunda ruptura entre ela e Hae?

Sim, especula ele, poderia ser qualquer outra pessoa que estivesse na mesma residência para jovens escritores e que falasse sobre os mesmos livros, filmes e desejos. Por um eventualidade, foi ele. Poderia ser qualquer outro barbudinho desconstruído e metido a redactor disposto a ortografar qualquer história que soasse tão verossímil quanto a teoria de orientação.

Para ser justo: Arthur não é só o marido que se ressente por não acessar a linguagem dos sonhos da companheira. Ele é também quem a espera na porta de lar quando ela volta destroçada – não por ver o grande paixão da vida ir embora pela terceira vez, mas por tropicar em cada destroço dos conceitos de paixão, orientação, romance e todos os outros léxicos que modulam e dão sentido a uma vida que, no termo, se resume a trabalho, encontro, desencontro, expectativa, veras e sonhos (de olhos abertos) reajustados e, vá lá, um pouco de sorte.

Essa aleatoriedade nomeada uma vez que orientação para performar qualquer sentido, proposta por Arthur uma vez que uma chave de compreensão sobre decisões tomadas a quilômetros de intervalo do que convencionamos a invocar de “coração”, é, por ironia, o tema do filme vencedor do último Oscar.

“Vidas Passadas” é quase um “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo” para adultos: em vez de projeção sobre destinos concretizados em tantas bifurcações em direção ao metaverso, ele se fixa na terreno firme da decisão inicial e se apresenta unicamente uma vez que “aquilo que poderia ter sido e não foi”. A isso damos alguns nomes. Alguns chamam de paixão. E habitam ainda iludidos nas prateleiras de filmes “românticos” – o que “Vidas Passadas” (spoiler 2) não é.

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