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Pesquisador afirma que população negra é mais afetada pelo calor extremo

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 26/11/2023 às 05:00 · Atualizado há 42 minutos
Pesquisador afirma que população negra é mais afetada pelo calor extremo
Foto: Reprodução / Arquivo

Leonardo Rodrigues Roble — Escritório Brasil

Os impactos das ondas de calor extremo são mais intensos para as populações de áreas periféricas dos centros urbanos e particularmente para os negros, que representam geralmente a maioria dos moradores dessas localidades. É o que aponta o geógrafo Diosmar Rebento (foto), pesquisador da Universidade Federalista Fluminense (UFF) e também coordenador científico da Associação de Pesquisa Iyaleta.

“Nessas áreas, há menos infraestrutura e menos assistência à saúde, ao transporte, ao saneamento e à moradia. E tudo isso tem relação com a forma uma vez que vamos enfrentar os efeitos causados pelas mudanças climáticas, por exemplo, no momento das chuvas ou no aumento da temperatura com as ondas de calor”, diz.

Diosmar observa que bairros periféricos, que geralmente são mais adensados e sem áreas verdes, estão também mais sujeitos a problemas de aprovisionamento de chuva e de vontade elétrica. Todos esses elementos são apontados uma vez que fatores que agravam os efeitos de um dia muito quente. O geógrafo lembra que, nesses dias, é preciso tomar mais chuva. “Há áreas onde a chuva não chega em quantidade e qualidade. Em Salvador, por exemplo, há regiões periféricas que chegam a permanecer um mês inteiro sem aprovisionamento”, enfatiza.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Sediada na capital baiana, a Associação de Pesquisa Iyaleta investiga as mudanças climáticas e as desigualdades raciais, de gênero, sociais e territoriais. Há mais de dois anos, o corpo de pesquisadores vem aprofundando os estudos em áreas urbanas situadas dentro do perímetro da Amazônia Legítimo. Os envolvidos possuem formação em diferentes áreas, que vão das ciências humanas às ciências da saúde. No ano pretérito, Diosmar e outros sete pesquisadores participaram da produção de cadernos trazendo análises sobre os eventos climáticos em Porto Velho e em Cuiabá.

Eles chamam atenção para as características dos chamados aglomerados subnormais, classificação do Instituto Brasiliano de Geografia e Estatística (IBGE) para formas de ocupação irregular do solo com fins de habitação em áreas urbanas. Em universal, são definidos pelo padrão urbanístico irregular e pela carência de serviços públicos essenciais. Também são marcados pelo adensamento, isto é, possuem uma grande concentração de moradores. Em Porto Velho, 12,2% da população residem nessas áreas.

Diosmar frisa que o tipo de fundação visto nesses espaços é um complicador. O geógrafo aponta para a existência de moradias insalubres, com pouco espaço e teto ordinário. “Se você tem uma vaga de calor e você tem uma espaço aonde você não tem grande circulação de ar, certamente vai possuir um impacto direto nas condições de saúde das pessoas”, avalia o geógrafo.

Os pesquisadores observaram que, nos casos de Cuiabá e Porto Velho, cidades analisadas, as questões territoriais e a desigualdade urbana influenciam a forma uma vez que as mudanças climáticas impactam as populações negras e indígenas. Eles observam que, na capital de Mato Grosso, a segregação racial urbana reflete a implementação do projecto diretor municipal, que não levaria em conta a garantia dos direitos fundamentais da população negra e a preocupação com os efeitos das mudanças do clima.

“Em relação ao saneamento vital, as mulheres negras (79,38%) e homens negros (78,24%) residentes na espaço urbana de Cuiabá, apresentam a menor proporção de aproximação ao esgotamento sanitário adequado (rede de esgoto universal e uso de fossa séptica) se comparada às das pessoas brancas (mulheres – 86,3% e homens –85,91%)”, registra o estudo.

Cuiabá foi uma das cidades que mais sofreu na vaga de calor extremo registrada na última semana, tendo sido por alguns dias a capital mais quente do país. Os termômetros chegaram a superar a marca dos 40ºC. O fenômeno do El Niño, que vem se manifestando de forma intensa e deve continuar produzindo efeitos até abril de 2024, tem sido relacionado com o aumento das temperaturas na maior segmento do Brasil nesse final de ano. Mas diferentes pesquisadores avaliam que a recente vaga de calor também reflete, em qualquer medida, o aquecimento global do planeta.

SAÚDE
Nos estudos em Cuiabá e Porto Velho, os pesquisadores também buscaram determinar indicadores de saúde associados a arboviroses, uma vez que são chamadas as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti: dengue, zika e chikungunya. Todas elas são mais prevalentes no verão. A proliferação do mosquito ganha ritmo veloz em temperaturas elevadas, pois no calor seu período reprodutivo fica mais limitado. Outrossim, o verão de boa segmento do Brasil é a estação mais chuvosa, o que faz aumentar os locais com chuva paragem, onde os ovos são depositados pelo Aedes aegypti.

Mosquito Aedes aegypti razão doenças uma vez que a dengue (Registro/Escritório Brasil)

Indicadores colhidos pelos pesquisadores em Cuiabá apontam que as arboviroses atingem a população negra com maior intensidade. Considerando as mulheres diagnosticadas com dengue entre 2014 e 2020, 54,79% eram negras, 14,85% brancas e 0,39% indígenas. Para o restante dos casos, não há informação sobre raça ou etnia.

Entre os homens, os números são similares: 54,85% negros, 13,06% brancos, 0,72% indígenas e 31,10% ignorados. Os especialistas observam que as desigualdades raciais e de gênero, as condições de moradia e a exposição a contextos de maior vulnerabilidade urbana e de carência de direitos, uma vez que saneamento vital e aproximação à serviços de saúde, são fatores intimamente relacionados com a incidência de taxas dessas doenças.

“Quando chega o verão, você começa ver as recomendações: ‘cuide do seu jardim, tire o vaso da vegetal, faça isso, faça aquilo’. Há uma propaganda pátrio que parece que nós vamos resolver todo o problema da dengue desse jeito, sendo que, nas áreas periféricas, o aproximação ao saneamento é desigual. E a falta de saneamento favorece a transmissão da doença”, frisa Diosmar.

POLÍTICAS PÚBLICAS
Um outro estudo publicado pela Associação de Pesquisa Iyaleta – concluído no ano pretérito – apresentou contribuições para o Projecto Vernáculo de Adaptação (PNA), instituído por meio de portaria do Ministério do Meio Envolvente, em maio de 2016, posteriormente um processo de escuta de diferentes setores da sociedade. Seu objetivo é orientar gestores públicos na adoção de iniciativas com o objetivo de minimizar o risco climatológico no longo prazo e reduzir a vulnerabilidade à crise do clima.

Em setembro, foi instituído pelo governo federalista um grupo técnico para elaborar proposta de atualização do PNA, ouvindo a sociedade social. Para Diosmar, é preciso pensar diversas medidas. Entre elas, ele menciona a urgência de uma política de arborização. “Cada vez mais a gente vai precisar de áreas verdes”, preconiza.

Ele cita também a premência de políticas públicas setoriais, territoriais e locais. “Precisamos de estados e municípios com políticas de moradia, de saneamento, de saúde e de ensino integradas. Precisamos olhar o saneamento uma vez que segmento de um processo de ensino em tempo de mudanças climáticas, precisamos de moradia que se afaste desse padrão que aprisiona, onde as pessoas das periferias das grandes cidades vivem dentro de pequenas casas de seis metros quadrados”, finaliza.

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