Enquanto escrevia esta pilastra, na noite de terça-feira (12 de dezembro), ainda não havia sido validado o texto definitivo da Conferência do Clima, em Dubai, a COP 28. Mas os rascunhos discutidos nas últimas horas indicavam mais um resultado frustrante diante da urgência climática e da ameaço existencial diante de nós.
Seja qual for a redação final, o resultado desta COP não estará à profundeza dos desafios que temos pela frente. Nem o vestuário de estarmos vivendo o ano mais quente da História foi capaz de levar a COP a um compromisso evidente e objetivo de eliminação gradual da produção e consumo de combustíveis fósseis, com metas, prazos e responsabilidades definidas.
Não é uma surpresa numa cúpula colonizada por lobistas da indústria petrolífera e presidida pelo principal executivo da empresa de petróleo do país anfitrião. A escassez das autoridades máximas dos dois maiores poluidores do planeta – China e Estados Unidos – também foi um sinal de que a COP seria mais um evento do tipo “a gente faz de conta que está fazendo alguma coisa para salvar o planeta, mas vamos deixar tudo porquê está”.
O investimento em fontes de virilidade renovável, o combate ao desmatamento, a restauração de florestas e a proteção da biodiversidade são fundamentais, mas é quase porquê enxugar gelo se os países não forem capazes de assumir um compromisso firme com a eliminação progressiva do uso de combustíveis fósseis, principal fator responsável pelo aquecimento global. Dois terços das emissões mundiais de carbono têm origem no uso de petróleo, carvão e gás.
E o que faz o Brasil, muito no meio de tantos conflitos de interesse? Anuncia um megaleilão de blocos de… petróleo! Já não tinha sido um bom sinal anunciar que irá integrar a OPEP +, grupo de países observadores junto à OPEP, posse que controla os preços mundiais do petróleo. Agora, com o chamado “leilão do término do mundo”, segue o “business as usual”.
A Dependência Pátrio de Petróleo (ANP) faz nesta semana a maior oferta de blocos de exploração de petróleo e gás da nossa história. São 610 áreas ofertadas a investidores, muitas delas próximas e até em sobreposição a territórios indígenas e quilombolas, e unidades de conservação porquê Fernando de Noronha, Atol das Rocas e o arquipélago de Abrolhos.
Uma vez que tudo sempre pode piorar, 21 blocos ficam na bacia do Amazonas. São áreas em terreno e não na chamada Margem Equatorial, que não foi licenciada pelo Ibama e é níveo de discussão no governo Lula, com setores pressionando contra e em prol da liberação dessas áreas para exploração.
Você pensa que acabou? Pois um dos blocos fica a unicamente dois quilômetros de intervalo das minas de sal-gema da Braskem, em Alagoas, onde ocorre o maior sinistro socioambiental em solo urbano do mundo. O governo precisa parar de enunciar sinais trocados. A direção precisa ser clara e nortear a construção de alianças nos organismos multilaterais.
No livro “O Decênio Decisivo – propostas para uma política de sobrevivência”, que recomendo com excitação, o professor Luiz Marques analisa a urgência da situação climática e quais os caminhos para conseguirmos paralisar o colapso ambiental. Um bom primícias seria uma governança global mais ousada, “na qual todos terão de ceder muito para não perder ainda mais”.
Em linguagem alcançável para que todos entendam a sisudez do momento, Marques traz um resumo de tudo o que a ciência produziu de conhecimento sobre as mudanças climáticas e os impactos do aquecimento global sobre o planeta e as nossas vidas. Uma vez que o título do livro diz, o responsável também apresenta propostas para que as sociedades se contraponham à marcha predatória do capitalismo enquanto nos resta qualquer tempo para agir.
Encerro levante texto com uma passagem do livro, em que Marques traz uma citação do filósofo gálico Edgar Morin, em diálogo com a fantástica primatóloga britânica Jane Goodall, que passou boa secção da vida estudando os chimpanzés na Tanzânia. Na conversa sobre momentos críticos enfrentados pelas sociedades e porquê elas têm capacidade de reagir, Morin afirma: “Coloco esperança no improvável.”