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O segredo de ser feliz o resto da vida, por Fernando Sabino

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 14/03/2024 às 12:17 · Atualizado há 1 dia

Hoje publicamos no portal ICL Notícias um prólogo de Fernando Sabino com um sigilo para crianças e adultos, nesta seção que resgata textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos para refletir com autores geniais do Brasil e de outros países.

É a lisura do livro “O menino no espelho”, romance infantojuvenil do plumitivo mineiro sobre o universo de sua puerícia. Sabino publicou oriente livro em 1982, seis anos antes de “O encontro marcado”, mais famosa de suas obras-primas. São suas lembranças — reais e inventadas — que ele traz em “O menino no espelho”, uma obra para ser lida com igual magia por muitas gerações. Neste livro, conhecemos o pequeno Fernando, o quintal de sua moradia, a penosa que tem seu nome (e que acaba ao molho pardo), seu voo mágico no firmamento de Belo Horizonte dos anos 1920.

 

O sigilo de Fernando Sabino

Prólogo do livro “Um menino no espelho”

 

Desenho de Carlos Scliar para a primeira edição de "O menino no espelho", publicada em 1982

Imagem de Carlos Scliar para a primeira edição de “O menino no espelho”, publicada em 1982

 

Quando chovia, no meu quarto de menino, a moradia virava um festival de goteiras. Eram pingos do teto ensopando o soalho de todas as salas e quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o que mais houvesse para aparar a chuva que caía e para que os vazamentos não se transformassem numa inundação. Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu não entendia a razão: aquilo era uma distração das mais excitantes.

E me divertia a valer quando uma novidade goteira aparecia, o pessoal correndo para lá e para cá, e esvaziando as vasilhas que transbordavam. Os diferentes ruídos das gotas d’chuva retinindo no vasilhame, acompanhados do som vazio dos passos em atropelo nas tábuas largas do pavimento, formavam uma feliz melodia, às vezes enriquecida pelas sonoras pancadas do relógio de parede dando horas.

Pretérito o temporal, meu pai subia ao revestimento da moradia pelo alçapão, o mesmo que usávamos uma vez que ingresso para a reunião da nossa sociedade secreta. Depois de examinar o telhado, descia, enfastiado. Não conseguia deslindar sequer uma telha quebrada, por onde pudesse penetrar tanta chuva da chuva, uma vez que invariavelmente acontecia. Um mistério a mais, naquela moradia enxurro de mistérios.

Naquele dia, mal a chuva passou, fui uma vez que sempre entreter no quintal. Descalço, pouco me incomodando com a limo em que meus pés se afundavam, gostava de perfurar regos para as poças d’chuva, uma vez que pequeninos lagos, escorregassem pelo rampa do terreiro, formando o que para mim era um caudaloso rio. E me distraía fazendo descer por ele barquinhos de papel, que eram grandes caravelas de piratas.

Desta vez, o que me distraiu a atenção foi uma fileira de formigas a caminho do formigueiro, lá perto do bambuzal, e que o rio sincero por mim havia interrompido. A formiguinhas iam até a margem e, atarantadas, ficavam por ali procurando um jeito de encruzar. Encostavam a cabeça umas nas outras, trocando ideias, iam e vinham, sem saber o que fazer. Algumas acabavam tão desorientadas com o imprevisto travanca à sua frente que recuavam caminho, atropelando as que vinham detrás e estabelecendo na fileira a maior confusão.

Do outro lado, entre as que já haviam pretérito, reinava também certa confusão. Enquanto as que iam mais primeiro prosseguiam a jornada até o formigueiro, sem perceber o que acontecia à retaguarda, as mais próximas do rio ficavam indecisas, indo e vindo por ali, junto à margem, pintando uma forma qualquer de ajudar as outras a encruzar.

Resolvi colaborar, apelando para os meus conhecimentos de engenharia. Em poucos instantes construí uma ponte com um pedaço de bambu sincero ao meio, e procurei orientar para ela, com um pauzinho, a fileira de formigas.

Estava hipotecado nisso, quando senti que havia alguém em pé detrás de mim. Uma voz de varão, que soou familiar aos meus ouvidos, perguntou:

— Que é que você está fazendo?

Sem me voltar, tão entretido estava com as formigas, expliquei o que se passava. Logo consegui restabelecer o tráfico delas, recompondo a fileira através da ponte. O varão se agachou a meu lado, dizendo que várias formigas seguiam por um caminho, uma na frente de duas, uma detrás de duas, uma no meio de duas. E perguntou:

— Quantas formigas eram?

Pensei um pouco fazendo cálculos. Naquele tempo eu achava que era bom em aritmética: uma na frente de duas faziam três; uma detrás de duas eram mais três; uma no meio de duas, mais três.

— Nove! Exclamei, triunfante.

Ele começou a rir e sacudiu a cabeça, dizendo que não: eram exclusivamente três, pois formiga só anda em fileira uma detrás da outra.

Portanto perguntei a ele o que é que cai em pé e corre deitado.

— Serpente? — ele arriscou, enrugando a testa, intrigado.

Foi a minha vez de descobrir perdão:

— Que serpente que zero! É a chuva — e comecei a rir também.

— Você sabe o que é que caindo no pavimento não quebra e caindo n’chuva quebra?

— Sei: papel.

Gostei daquele varão: ela sabia uma porção de coisas que eu também sabia. Ficamos conversando um tempão, sentados na beirada da caixa de areia, uma vez que dois amigos, embora ele fosse cinqüenta anos mais velho do que eu, segundo me disse. Não parecia. Eu também lhe contei uma porção de coisas. Falei na minha penosa Fernanda, nos milagres que um dia andei fazendo, e de uma vez que aprendi a voar uma vez que os pássaros, e a minha proeza de escoteiro perdido na selva, as espionagens e investigações da sociedade secreta Olho de Gato, o sósia que retirei do espelho, o Birica, valentão da minha escola, o dia em que me sagrei vencedor de futebol, o meu primeiro paixão, o capitão Patifaria, a passarinhada que Mariana e eu soltamos. Pena que minha amiga não estivesse ali, para que ele a conhecesse. Levei-o a ver o Godofredo em seu poleiro:

— Fernando! — berrou o papagaio, imitando mamãe: — Vem pra dentro, menino! Olha o serena!

— Hindemburgo apareceu correndo, a agitar o rabo. Para surpresa minha, nem o varão ficou com susto do cachorrão, nem oriente o estranhou; parecia feliz, até lambeu-lhe a mão. Depois mostrei-lhe o Pastoff no fundo do quintal, mas o coelho não queria saber de nós, ocupado em roer uma folha de couve.

O varão me disse que tinha de ir embora — antes queria me ensinar uma coisa muito importante:

— Você quer saber o sigilo de ser um menino feliz para o resto de sua vida?

— Quero — respondi.

O sigilo se resumia em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos:

— Pense nos outros.

Na hora achei esse sigilo meio sem perdão. Só muito mais tarde vim a entender o parecer que tantas vezes na vida deixei de satisfazer. Masque sempre deu claro quando me lembrei de segui-lo, fazendo-me feliz uma vez que um menino.

O varão se curvou para me beijar na testa, se despedindo:

— Quem é você? — perguntei ainda.

Ele se limitou a sorrir, depois disse adeus com um meneamento e foi-se embora para sempre.

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