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O Pão Nosso de cada dia não endurece quando dividido

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 28/11/2023 às 07:17 · Atualizado há 6 dias

As instituições religiosas gostam de indicar coisas difíceis e complexas que só os especiais conseguem fazer. Apontam para as distâncias. Quem olha para Deus, nesses ambientes, olha vagamente para longe, seja para o horizonte ou para as nuvens. Olhos fechados e músculos tensos porquê se assim as distâncias pudessem ser vencidas para prometer um toque reverencioso no divino.

A performance religiosa pode ser formosa e até proporcionar gratificações para os envolvidos. No entanto, cansa, esgota e frustra.

Quando Jesus ensinou aos seus amigos a rezar, ele não disse “saiam”. Apontou para a direção oposta e disse “entrem”. O rabi não indicou nenhum endereço, muito menos sugeriu distâncias. Quando quiser rezar, entra no quarto e conversa. Aprendi que Deus mora na intervalo e para estar com ele eu teria que me arrumar e transpor. Mas Jesus desconstrói quando ensina que reza é se desarrumar e permanecer em vivenda.

A reza tão simples está mais para o poema do que para o mandamento. Daí, alguns se perturbam. Uma reza desprovida de mecanismos de controle que não se apoia em gestores da fé que precisam de reconhecimento público. A reza da qual fala Jesus é prosaica, com recta a risos e sem músculos tensos.

Há quem prefira “treinar a própria justiça” em público para maravilhar as multidões em êxtase.

Há quem faça o muito e “toca trombeta” para si mesmo. Registram seus feitos com a intenção de publicá-los para inspirar outras vidas.

Há quem prefira “rezar em pé nos templos” em cocuruto volume com linguagem rebuscada. Falam pelos cotovelos porquê se a boa lábia pudesse convencer o ouvinte.

Há quem goste de jejuar para invocar atenção. Fica sem cor, descabelado, com mau hálito e uma frase estranha no rosto. Querem impressionar a Deus e às pessoas.

Quem vive de figura não suporta a indiscrição do espelho do quarto. Preferem os espelhos dos salões públicos cheios de luzes e ângulos para ressaltarem as aparências vistosas. Existe uma religiosidade iluminada que zero tem a ver com a Luz proveniente.

Sabe o que circunda a reza do Pai Nosso ensinada por Jesus?

Todos os casos que ele conta porquê opostos ao que ele quer ensinar falam de HIPOCRISIA. Não é novidade, no envolvente religioso é muito geral nos depararmos com comportamentos públicos que zero tem a ver com a vida privada. Hipocrisia porquê duplicidade.

Em diálogo com essa veras, Jesus ensina uma reza íntima sem plateia e muito menos avaliadores. Finalmente aprendi que não há lugar melhor para falar com Deus do que a minha vivenda, no quarto, de preferência com a porta fechada. Tudo muito que isso está mais para a verso do que para o decálogo. Convivo muito com a bagunça do meu quarto.

Quebrando a secretária do sacro transacção

Havia nos dias de Jesus um esquema rentável em torno do templo. Vendedores disputavam espaço para oferecer víveres, cordeiro, novilhos, pombos e outras espécies que seriam oferecidas no altar. Bichinhos sacrificados para que o povo voltasse para vivenda de mãos vazias e espírito lavada. Barraqueiros da fé oferecendo vida profuso através de sacrifícios de vidas.

O cheiro do incenso misturado ao cheiro das barracas que mantinham nas gaiolas os bichos. Talho estilizado porquê galeria da morte. Músculos fresca comprada não para o maná, mas para o instruído. Os barraqueiros da fé vivem escorados nos muros dos templos porque otimizam espaço e não precisam gastar com as estruturas de ferro e pedra.

A porta do mistério exigia códigos para entrar que só os mediadores conheciam. Os sacerdotes se vestiam apropriadamente e chegavam perto de Deus com mimos e orações do povo trêmulo. Reza era para poucos. Reza era feita com hora marcada no lugar perceptível. Reza contava com a mediação dos sacerdotes que conheciam as exigências divinas e a desorientação das pessoas. Reza eram palavras ditas e paparicos feitos através dos sacrifícios e ofertas.

Reza era uma atividade dispendiosa, difícil e rostro.

Neste cenário em que barraqueiros da fé vendiam facilidades, Jesus ensina a rezar assim: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta…”

Caramba, o rabi vai quebrar a secretária, bagunçar a feira, inviabilizar o mercado, chutar o pau da barraca. Reza tinha lugar perceptível, hora certa e pessoa certa para mediar. Não pode ser fácil desse jeito. Pensavam os barraqueiros da fé.

No quarto, ritualiza-se o cotidiano de uma forma absolutamente espontânea na nossa cultura. Os móveis não são dispostos de forma a impressionar eventuais visitas, no quarto, os móveis são funcionais, arrastados em função do nosso conforto. O quarto não é lugar de “fazer sala”, antes, lugar de “fazer paixão”. Para muitos o lugar mais íntimo da vivenda.

Nessa intimidade confusa, surge a possibilidade de pronunciar o termo PAI.

Jesus nos disse que reza é intimidade, mas não sem muitas ambiguidades. Alguns, não suportando a amplitude do quarto e o silêncio das noites sem pompas e circunstâncias, preferem remunerar para que os cambistas da fé lhes proporcionem a tão desejada mediação.

O caso do Paulinho

Numa quinta-feira chuvosa na Favela da Babilônia/Chapéu Mangueira, num pequeno grupo, conversávamos sobre as nossas experiências com o teor da Reza do Pai Nosso. Paulinho (11 anos) estava embatucado na roda de conversa, mas, muito prudente. Uma vez que sempre fazia, no término do encontro, lanchou e ficou esperando que alguém lhe desse alguma coisa para levar para vivenda. O pão nosso para ele era literal. Tudo que comia na igreja ou na rua conseguia uma porção para levar para os dois irmãos menores e a mãe (dependente química) em vivenda. Quando menor, ele viu o pai ser assassinado. Uma vez que sempre fazia, antes de subir a ladeira e ir embora, ele me deu um amplexo apertado e perguntou baixinho:

Dema, na minha vivenda não tem quarto, nem porta, porquê eu faço para falar com Deus? 

Paulinho leu os meus olhos, se contentou com o meu silêncio e seguiu levando os bolinhos de chuva e a garrafa de mate porquê o pão daquele dia. Na vivenda do Paulinho não havia pai, nem porta, muito menos pão.

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