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O genocídio israelense: suprema expressão do paradigma moderno?

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 12/11/2023 às 06:35 · Atualizado há 3 horas

Vamos direto ao objecto. A retaliação do Estado de Israel ao ato de terror de 7 de outubro perpetrado pelo Hamas, da Fita de Gaza, foi profundamente desproporcional. Tinha o recta de autodefesa guardado legalmente. Mas a pretexto de caçar e matar terroristas acionaram seu sofisticado arsenal bélico. Foram destruídos centenas de edifícios, assassinados milhares de inocentes: crianças, mulheres e um sem número de civis. Não se trata de uma guerra, mas de um verdadeiro genocídio e limpeza étnica porquê foi denunciado pelo secretário da ONU António Guterres. Ele afirmou “que a Fita de Gaza se transformou num cemitério de crianças”. Hoje já é consenso entre os melhores analistas e notáveis humanistas.

Nenhum órgão internacional e nenhum país saíram em resguardo dos desesperados palestinos, revelando a completa insensibilidade, particularmente da União Europeia, aliada e súcuba dos Estados Unidos da América. Imbuída do espírito do poder/dominação, zero faz, porquê se pertencesse à guerra todo tipo de crimes, inclusive o genocídio, porquê durante séculos o fizeram mundo afora. O presidente Joe Biden declarou suporte incondicional a Israel, o que equivale a dar epístola branca para oriente fazer uma guerra de autodefesa ilimitada, usando todos os meios. A humanidade está aterrorizada face ao quadro de extermínio e de morte na Fita de Gaza.

Estamos face à totalidade irracionalidade e assustadora desumanidade. Por mais que nos custe admitir, devemos suspeitar, principalmente nós que vivemos no Grande Sul, outrora colonizado e hoje submetido a uma recolonização, que o presente genocídio estaria inscrito no paradigma ocidental moderno e mundializado.

Leste perdura já há séculos e é ainda vigente. Por que oriente questionamento tão duro?

Acompanhem o seguinte raciocínio: qual é o sonho maior e a grande utopia que davam e dão ainda sentido ao mundo moderno já há mais de três séculos? Era e continua sendo o desenvolvimento interminável, a vontade de poder porquê dominação sobre os outros, as classes, as terras a invadir, sobre outras nações, sobre a natureza, a material até o último topquark e a própria vida no seu último gene e sobre toda a natureza nos seus biomas e em sua biodiversidade. A centralidade é ocupada exclusivamente pela razão. Só é aceito o que passar por seus critérios. Mais que o “cogito, ergo sum” (penso, logo sou) de Descartes é o “conquero, ergo sum”(conquisto, logo sou) de Hernan Cortez, conquistador e vândalo do México que expressa a dinâmica da modernidade.

Os Papas da quadra: Nicolau V (1447-1455) e Alexandre VI (1492-1503) conferiram legitimação divina ao espírito de dominação dos europeus. Em nome de Deus, concederam às potências coloniais da quadra, aos reis de Espanha e de Portugal “a faculdade plena e livre para invadir, invadir, combater, vender e sujeitar os pagãos e se apropriar e infligir para uso e utilidade sua, a reinos, domínios, possessões e bens deles descobertos e a desvendar… Pois é obra muito aceita pela divina Majestade que se abatam as nações bárbaras e sejam reduzidas à fé cristã” (Paulo Suess, A conquista místico da América Espanhola, documentos, Petrópolis: Vozes, 1992, p.227).

Francis Bacon e René Descartes, entre outros fundadores do paradigma da modernidade, não pensavam outra coisa que os Papas: o ser humano deve ser “rabi e possuidor da natureza” que não possui propósito nenhum, pois, é unicamente uma mera coisa extensa (“res extensa” de Descartes) colocada à nossa disponibilidade. Deve-se “meter a natureza numa camisa de força, pressioná-la para que entregue seus segredos; devemos colocá-la a nosso serviço porquê uma escrava” (Francis Bacon).

Para que tudo isso? Para nos desenvolvermos e sermos felizes, pretendiam! A ciência e a técnica, a tecnociência, foram e ainda são os grandes instrumentos do projeto de dominação. Para sujeitar à dominação, tinham que desqualificar os submetidos e colonizados: estão mais do lado dos animais do que dos humanos, são sub-humanos. Recordemos a famosa discussão do grande Bartolomeu de Las Casas com Sepúlveda, o educador dos reis espanhóis. Leste último sustentava que os povos originários da América Latina não eram humanos e duvidava que possuíssem razão. Alguma coisa parecido afirmou o ministro da Resguardo israelense, Y. Gallant, acerca dos terroristas de Gaza: são “animais-humanos e porquê tais devem ser tratados”. Os nazistas comparavam os judeus a ratos a serem erradicados.

O varão ocidental europeu, rebento do paradigma do poder/dominação, possui imensa dificuldade de conviver com o dissemelhante. A estratégia costumeira é marginaliza-lo ou incorporá-lo ou eventualmente, eliminá-lo. Nesta visão de mundo deve-se sempre definir quem é companheiro e quem é inimigo. A oriente cabe difamar, combater e liquidar (o jurista de Hitler, Carl Schmitt). Não admira que os europeus cristianizados produzissem as principais guerras no continente ou nas colônias, causando mais de 200 milhões de mortos. Seu cristianismo foi unicamente um ornato cultural, nunca uma inspiração do Nazareno para uma relação fraterna e para uma moral humanitária.

Todos, com razão, se horrorizam com o Imolação que levou seis milhões de judeus às câmaras de gás dos nazistas. Mas vejamos o pavoroso Imolação ocorrido na América Latina (Abya-Yala na linguagem dos povos centro-americanos). No espírito de conquista-dominação da América Latina, entre os anos de 1492-1532 e nos USA a partir de 1607, os colonizadores europeus cometeram o maior extermínio não feito: os mortos por doenças dos brancos ou os assassinados foram muro de 61 milhões de representantes dos povos originários: do Caribe (4 milhões), do México (23 milhões), dos Andes (14 milhões), do Brasil (4 milhões) e dos Estados Unidos (16 milhões). É o que comprova a pesquisa mais recente de Marcelo Grondin e Moema Viezzer, Abya Yala: genocídio, resistência e sobrevivência dos povos originários das Américas” (Rio de Janeiro: Ed. Bambual, 2021). Leste nosso Imolação, segundo o historiador e filósofo germânico Oswald Spengler (1880-1936), deslegitima qualquer credibilidade aos europeus e à Igreja associada ao projeto colonial, de falar em distinção humana e em seus direitos. Matou-se com a gládio e com a cruz.

À base deste tipo de dominação surgiu do capitalismo, porquê modo de produção excludente, sua financeirização atual e sua cultura. É violação contra a natureza e contra a humanidade que oito pessoas, segundo relatório da Oxfam Internacional de 2022, possuam a mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial. Essa absurda concentração tolera que se deixem anualmente morrer de inópia ou de doenças derivadas da inópia, milhares e milhares de crianças.

É neste contexto, penso, que deve se entender o atual genocídio perpetrado pelo Estado sionista de Benjamin Netanyahu. Estaria inscrito no DNA do paradigma ocidental? Depois da última guerra (1939-1945), construíram-se armas de ruína em tamanho, a ponto de ter-se criado o princípio de autodestruição. A razão tornou-se totalmente irracional. A marcha da irracionalidade está tomando conta do curso do mundo para além do que está ocorrendo entre Israel e a Fita de Gaza. Com lucidez, o Papa Francisco em sua encíclica Porquê cuidar da Morada Generalidade (Laudato Si’ de 2015) viu no paradigma tecnocrático dominante, a raiz da atual e ameaçadora crise ecológica mundial (n.101s).

Qual foi a grande errância do paradigma da vontade de poder-dominação? Foi a de colocar exclusivamente todo o peso e todo o valor na razão instrumental-analítica. Recalcou as demais formas de conhecimento, exercidas pela humanidade: a sensibilidade, o paixão, a razão simbólica entre outras. Essa exclusão gestou a ditadura da razão. Irrompeu o racionalismo e a demência da razão. Pois, somente uma razão demente pode devastar a Terreno, mana e Mãe que tudo nos dá, a ponto de ela mostrar seus limites intransponíveis. Pior ainda, a razão enlouquecida criou para si os meios de seu completo extermínio.

Mas qual foi a errância maior? Foi ter recalcado e eliminado a segmento mais antepassado e precípuo de nossa verdade. Em nome da objetividade do olhar da razão, eliminou a emoção e o coração. Com isso, deslegitimou a nossa dimensão de sensibilidade, nossa capacidade de afetos. É o coração que sente, governanta e estabelece laços de zelo para com os outros e para com a natureza. Não se ouve o pulsar do coração que identifica valores e fundíbulo uma moral cordial e humanitária.

Muito dizia o Papa Francisco em sua primeira viagem à Lampedusa, para onde chegavam os fugitivos da guerra do Oriente Médio ou de África: “o varão moderno perdeu a capacidade de chorar e de sentir o outro porquê seu semelhante”. Pelo trajo de Netanyahu e seu governo não reconhecerem humanidade nos terroristas do Hamas, decidiu, praticamente, exterminar estes últimos com os meios letais mais modernos. Não chegamos assim ao extremo do paradigma da modernidade? Ela está propensa a deslanchar uma guerra global na qual a humanidade pode vanescer e grande segmento da natureza.

Porquê trespassar desse impasse? Antes de mais zero, precisamos resgatar os direitos do coração. Não basta o logos, precisamos também do pathos. Devemos nos encher de veneração face à grandeur do universo e de saudação diante do mistério de cada ser humano, feito irmão e mana e companheiro/a de façanha terrenal. Não negamos a razão, necessária para dar conta da dificuldade das sociedades contemporâneas. Mas recusamos o despotismo da razão. Esta deve ser enriquecida pela razão sensível e cordial. Mente e coração unidos podem mutuamente se lastrar e, destarte, evitar as tragédias das guerras e os genocídios de nossa sangrenta história, particularmente, oriente que, estarrecidos, estamos vivenciando seja na Terreno Santa e, em peculiar, o genocídio cometido na Fita de Gaza. Que o firmamento ouça o pranto das crianças que sob os escombros perderam pai, mãe, irmãos e irmãs. Fizeram-se sobreviventes da grande tribulação (cf. Apocalipse 7,14) e nos enchem de pesar.

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