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O carnaval que eu não sabia que queria

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 15/02/2024 às 23:37 · Atualizado há 1 dia

Eu tinha desenhado pra mim neste ano um carnaval dissemelhante.

Me organizei para que eu fizesse um carnaval campesino na ilhota de Itaparica em Salvador, mas especificamente no vilarejo da Misericórdia, lugar tranquilo (imaginava que fosse).

Ao chegar em Salvador me encaminhei de subitâneo para a mansão de um camarada, pois meu vôo foi a noite, e não havia mais ferry boat para fazer a travessia da baia de todos os santos em direção a ilhota.

Acordei pela manhã e fui direto para a tão famosa feira de São Joaquim comprar víveres para levar comigo para a minha mansão, iria abastecer a despensa para não ter que transpor de mansão.

A travessia foi maravilhosa, o mar não estava batendo e cheguei super rápido, fui direto pra mansão e pensei, “agora vou fazer meu retiro”, zero de festas, vou dormir cedo, sustento saudável, caminhadas pela manhã.

Gulodice ilusão!

O celular não parava de tocar, uma tentação detrás da outra, os convites vinham uma vez que enxurrada.

“Rapaz, você vai transpor nos Gandhy né? são os 75 anos do conjunto, você não vai perder!”

“O Bankoma vai desfilar, ano pretérito você saiu, esse ano você tem que transpor de novo!”

E assim eu fui cedendo as investidas momescas e africanas, que me tiravam o sono e me dava um sentimento de excitação, era uma vez que se um espirito estivesse me tomando e exigindo a minha espírito carnavalesca para que não adormecesse.

Cedi!

Fui a um dos postos de venda de fantasia do conjunto Filhos de Gandhy, e quando percebi já tinha comprado a fantasia, me deu um frisson “retado”, fiquei feito um pinto no lixo com aquela bolsa padronizada do Filhos de Gandhy, uma vez que uma muchacho que havia lucro um presente.

O tempo inteiro eu imaginando o meu desfile, seria meu primeiro nesta junta que tenho imenso carinho e reverência, que guarda e representa uma grande história dos povos de terreiro da Bahia.

Joguei pro supino o dormir cedo, caminhadas e etc… eu queria era me render aquela pujança que tomou meu corpo e mente.

A sustento saudável eu mantive, comi feijoada, moqueca de peixe, muitos acarajés, piguari (um caramujo) para dar pujança, muita chuva de coco, inhame , batata guloseima, banana da terreno, cuscuz.

Mas não parou por ai!

A ilhota de Itaparica também não fica detrás em diversão de carnaval, tem vários blocos e afoxé, que saem durante os dias de carnaval, seja em Ponta de Areia, Itaparica, muito uma vez que em Mar Grande, além de pequeno blocos no vilarejo da Misericórdia onde eu me estabeleço na Ilhéu.

Meu projeto de sota foi pra mansão do chapéu, saí quase todos os dias, me diverti muito, dormi muito tarde, já acordava vendo qual roupa iria por para transpor durante o dia.

Pegava a lancha e fazia a travessia Ilhéu/Salvador sem me preocupar com as distâncias, o que eu queira era subir as ladeiras sambando e dançando com aqueles ritmos que me embalavam e me sacudiam uma vez que  um transe.

Voltava pra mansão destruído, feito, talado mas com um sentimento de prazer indescritível, lembrando dos acontecimentos no conjunto, a mistura do povo com aquela cultura ofertada a todos nós, que nos fazia sujeitos e protagonistas daquela sarau.

Que coisa boa!

O monge que eu esperava incorporar, não conseguiu vencer a guerra contra o espírito de carnaval, ainda muito!

Foi um dos melhores carnavais que eu já vivi, mesmo tendo projetado quase um retiro místico ao transpor do Rio de Janeiro, em procura da calmaria que não iria ter na Cidade Maravilhosa, essa pujança me perseguiu e mudou os meus planos.

Acho que foi uma peça pregada por Exu, aquele que fala, o senhor das incertezas, das dúvidas, das encruzilhadas, dos diversos caminhos, das mudanças e dinâmicas da vida.

Modupé Exu (eu agradeço Exu) Laroiye (O que fala)!

Que venham outros planos, e que sempre mude, pois foi muito bom ter me rendido a veras que se apresentou a mim neste quase retiro que iria fazer.

A Bahia é isso, enxurro de novidades e prazeres!

 

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