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Mas afinal, o que foi o “Plano Marshall”?

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 06/05/2024 às 13:11 · Atualizado há 3 dias

Quem acompanhou discreto o noticiário do termo de semana no Brasil não deixou de permanecer estonteado com duas das principais notícias que abalaram o país (e o mundo). A primeira é a tragédia ambiental, climática (e sempre política) no Rio Grande do Sul, que já levou a quase 1 milhão de pessoas afetadas pelas cheias, a centenas de mortos e uma devastação estrutural uma vez que poucas vezes se viu num Estado inteiro. O Rio Grande do Sul, em desespero, clama por um milagre e, evidentemente, por ações políticas para mitigar a dor de milhões de pessoas.

A outra notícia foi o show de fecho da turnê da superstar Madonna, que reuniu uma povaréu de mais de 1 milhão e meio de pessoas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Com o repertório adequado ao cenário brasílico, incluindo a “retomada” da bandeira pátrio, Madonna deu o recado regado a atos de liberdade sexual que viralizaram em ergástulo pátrio. A libertação sexual das mulheres, os direitos da comunidade LGBTQIA +, nomes da cultura e do ativismo político, em suma, os “leques” em uníssono mostraram que apesar dos novos “anos de chumbo” da era Bolsonaro, a comunidade resiste e aumenta.

Porém, os algoritmos das mídias sociais pareciam de indumento espelhar um país há muito dividido. Porquê curtir o show da Madonna (e qualquer outro show ou lazer) sem se sentir culpado ou de alguma maneira preocupado com o caos no Rio Grande? Tal questão não é novidade no Brasil, sabemos muito, uma vez que somos o país vencedor de mortos da covid, vencedor em massacres e genocídios contra pretos e pardos, mulheres e indígenas, vencedor nos deslizamentos de barragens e todo um leque de atrocidades que o Brasil esbanja desde, no mínimo, 1822. Não cabe cá julgamentos morais sobre o que vamos fazer com  o “nosso tempo livre” para lazer ou o nosso compromisso em ajudar, até porque uma coisa não exclui necessariamente a outra, mas cabe lembrar o fundamental que une todas essas notícias. A forma do espetáculo-show da Madonna é a forma de sempre, a do Capital e suas metafísicas e nefastas hierarquias. Camarotes, empresas, bancos e afins provam isso. “O que interessa nesse mundo é ser VIP, o resto é conversa”, disse um camarada meu que estava no show, revoltado com as hierarquias entre os públicos. Mas para outrossim, o que nos interessa cá é unir as pontas.

A tragédia no Rio Grande do Sul também “cumpre” a função da farra do “Capital e suas orgias”. O neoliberalismo descarado do tucano Eduardo Leite, os cortes de verbas para emergências e resguardo social e a autorização da devastação do meio envolvente provam que no cortejo de hierarquias e maldades do Capital, a forma vale para todos os conteúdos. Seja na indústria cultural, seja nas altas instâncias das disputas políticas. Não à toa, e talvez por isso, o Governador Eduardo Leite tenha anunciado em rede pátrio que o Rio Grande precisará de um novo “Projecto Marshall”. E é aí que temos que ir para além da plasticidade do uso do termo.

No inverno de 1947, a Europa toda vivia os efeitos nefastos da ruína causada pela II Guerra Mundial. Especificamente na Alemanha, o paîs mais destruído, o inverno faminto de 1947 levou milhares de pessoas às ruas para reivindicar contra a lazeira. Na retrato cá em questão o edital diz: “Queremos carvão, queremos pão!” Manancial: Arquivos da República Alemã. Domínio Público.

Batizado de “Projecto Marshall” em função de ter sido idealizado pelo logo Secretário de Estado dos EUA, o General George Marshall, o “Projecto de Recuperação Europeu” foi uma iniciativa americana assinada pelo Presidente Harry Truman (o mesmo que autorizou o lançamento das bombas atômicas sobre o Japão) e promulgada em abril de 1948 para fornecer ajuda financeira à Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O próprio George Marshall – logo Patrão do Estado Maior das Forças Armadas dos EUA – viu com os próprios olhos a ruína causada principalmente pela Alemanha Nazista, que levou seu esforço de guerra até as últimas consequências, assim submetendo o continente europeu ao período mais sombrio de sua história. Não bastasse o Imolação contra os judeus e os mais de 70 milhões de mortos no mundo, a Segunda Guerra deixou em seu rastro a ruína da infraestrutura, o desabastecimento de mantimentos e itens básicos, o sistema habitacional completamente destruído, lazeira estrutural e desesperança em todos os cantos do Velho Mundo.

Para “mitigar” os sofrimentos do “continente sombrio” e para prometer sua presença e predominância na Europa também ocupada pela União Soviética – que com seu Tropa Vermelho derrotou os Nazistas – só os EUA, na tempo de sua maior expansão militar, transferiram murado de 13,3 bilhões de dólares (equivalente a mais ou menos 173 bilhões de dólares nos dias de hoje) em programas de recuperação econômica para os países da Europa Ocidental. Grã-Bretanha, França (aliados de longa data) e Alemanha Ocidental ficaram com a maior fatia e se tornaram aliados imprescindíveis dos EUA no combate ao socialismo soviético durante praticamente o resto do século XX. Ao todo, até a dezena de 1960, o Projecto Marshall e seus posteriores correlatos, transferiram quase 18 bilhões de dólares em ajuda econômica para a Europa Ocidental.

Os EUA também ofereceram ajuda à URSS de Stálin e aos países que iriam formar a “Cortinado de Ferro”, mas por motivos óbvios, a “Guerra Fria” cuidou de separar as duas nações vencedoras da Guerra em blocos antagônicos. Poderíamos expor, sem pânico de errar, que para além da reconstrução da Europa, os EUA criaram –  a partir do Projecto Marshall e também a partir da ocupação e reconstrução do Japão – uma predominância mundial sem paralelos ao longo da História.

Talvez agora compreendamos a seriedade do uso do termo “Projecto Marshall” pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Porém, atentemos para a seguinte questão: Não existe nem nunca existiu Capitalismo sem o aporte de investimentos dos Estados/Governos. Talvez o Governador tenha esquecido que tutorar o Neoliberalismo o levou não exclusivamente a tombar nas inúmeras contradições agora apontadas pela prelo, pelos pares e pelos adversários políticos. A História do mundo nos últimos anos – em função da Pandemia de Covid 19 – nos deu a perspectiva mais óbvia. A de que investimentos em resguardo social, em cultura, arte, habitação, instrução e preservação do meio envolvente são as “guerras” mais justas que deveríamos lutar. Mas me parece que – considerando que o governador manja de História – o uso do termo “Projecto Marshall” ainda tem mais uma classe, a das rusgas políticas do governador com o presidente. O “Projecto Marshall”, ao termo e ao cabo, acabou excluindo os adversários/inimigos políticos da ajuda econômica e política. Resta saber – além de ajudarmos primeiramente e urgentemente o Rio Grande e seu povo – uma vez que as imagens políticas do Governador Eduardo Leite e do Presidente Lula sairão dessa guerra.

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