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Maceió, a cidade engolida pela Braskem

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 05/12/2023 às 21:54 · Atualizado há 1 semana

Estou em Maceió para escoltar as consequências do maior sinistro socioambiental em dimensão urbana do mundo. Um escândalo que acompanho há tempos e que guarda inúmeras semelhanças com outras catástrofes provocadas pela mineração no Brasil, que tenho estudado e escrito a saudação.

São desastres tecnicamente diferentes, mas o tecido de fundo político e institucional é o mesmo. Empresas com enorme poder econômico exploram recursos naturais de maneira predatória; põem em risco a vida das pessoas e o meio envolvente ao volta; calam as autoridades e a mídia com doações para campanhas, patrocínios etc. Políticos acumpliciados ignoram seu obrigação, fecham os olhos para ilegalidades e sucateiam, de propósito, os órgãos públicos que deveriam inspeccionar as empresas.

A sal-gema começou a ser explorada em Maceió na dez de 1970 pela empresa com o mesmo nome do minério, mas escrita de forma dissemelhante: Salgema. Depois de diversas mudanças societárias, em 2002 a operação foi absorvida pela petroquímica Braskem, pertencente à Odebrecht, hoje Novonor, a principal acionista (o grupo mudou de nome depois da Operação Lava Jato). A segunda maior acionista é a Petrobras.

A exploração de sal-gema foi um projeto de interesse da ditadura, enfiado goela inferior dos maceioenses, apesar da oposição de boa secção da sociedade social e de vários alertas de ambientalistas. O mais espargido deles é o ecólogo alagoano José Geraldo Marques, pós-doutorado em Meio Envolvente pela Unicamp. Nos anos 1970, a invitação do logo governador Divaldo Suruagy, Marques ocupou a Secretaria de Controle da Poluição de Alagoas e alertou para a possibilidade de ocorrerem “subsidências” (afundamentos de solo) na região. Não foi ouvido, recebeu ameaças de morte e passou um bom tempo fora de Alagoas.

Enquanto isso, a Salgema foi instalada e fez o que muito entendeu. A sucessora Braskem manteve o modus operandi. O diâmetro das minas ultrapassou o padrão recomendado pela boa engenharia; a intervalo entre elas não foi respeitada. Cavernas gigantes foram escavadas sob os pés da população, alheia ao transe que corria.

A exploração desenfreada de 35 minas preparou o cenário para o sinistro que atinge cinco bairros e periferia. Há relatos de rachaduras em casas e prédios desde, pelo menos, 2010. Em março de 2018, um tremor abriu crateras em ruas e espalhou rachaduras nas moradias. Cinco bairros entraram na dimensão de risco: Pinho, Bebedouro, Bom Parto, Mutange e Farol.

Murado de 55 milénio pessoas (14 milénio famílias) começaram a ser deslocadas. Com temor de permanecer na dimensão de risco, os moradores acabaram aceitando acordos com a Braskem, muitos sob protesto por considerarem as indenizações insuficientes. Além do mais, ao firmar o consonância, cada morador tinha que transferir a propriedade do imóvel para a Braskem.

Hoje, grande secção desses imóveis foi demolida e outra secção está em ruínas, o que dá um paisagem de “Chernobyl alagoana” a essa secção de Maceió. Houve um enorme impacto na saúde mental dos atingidos, inclusive com o registro de suicídios relacionados ao sinistro. O negócio e uma infinidade de negócios locais quebraram por falta de clientela e trabalhadores perderam seus empregos.

De 2019 para cá, a empresa começou o processo de estabilização das minas. Um trabalho lento e multíplice, com risco de provocar novos tremores e afundamentos do solo. Foi o que aconteceu durante o mês de novembro e que culminou com o alerta de colapso clivoso da mina 18, na semana passada. Parece que só logo autoridades locais e federais e a mídia corporativa despertaram de um longo torpor. “Descobriram” da noite para o dia o transgressão da Braskem em Maceió.

Diante do risco de colapso, a justiça autorizou a retirada de famílias remanescentes sob filtração policial e ameaço de prisão. São famílias que resistem até hoje a fechar os acordos por considerar injustos os valores oferecidos pela empresa.

As pessoas tiveram que deixar suas casas de madrugada, levando a roupa do corpo, e as residências foram lacradas. Foi mais uma violência numa sequência de arbitrariedades, corroboradas pelo poder público.

O que estou vendo em Maceió só reforça o que tenho dito desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. A mineração no Brasil é uma máquina de moer gente.

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