Por Gabriela Moncau — Brasil de Indumento
Dezenas de homens encapuzados com armas de incêndio e facas cercaram e espancaram indígenas do povo Guarani Kaiowá que, no sábado (18), haviam retomado uma espaço que faz segmento do território Pyelito Kue e está sobreposta pela Herdade Maringá, na cidade de Iguatemi (MS). O grupo agredido conseguiu voltar para a lugarejo somente na quinta-feira (23), machucado e com escoriações. José*, indígena que estava na retomada, conta que além do espancamento, “jagunços ameaçaram estuprar as mulheres”.
Referidos porquê “pistoleiros dos fazendeiros” pelos Guarani Kaiowá, estes homens também interpelaram, roubaram e agrediram na última quarta-feira (22) uma antropóloga, um engenheiro florestal e um jornalista canadense que tentavam chegar ao lugar, quando já circulavam denúncias do conflito.
Na noite do mesmo dia 22, a Polícia Federalista (PF) de Naviraí e a Força Pátrio fizeram diligências na região e prenderam em flagrante um produtor rústico, com munição em sua residência. Questionada sobre esta prisão e identidade do varão impedido, a PF se limitou a expor que “segue nas investigações”.
“Pyelito Kue é um exemplo cabal e um dos mais intensos do que a não demarcação motivo ao povo Guarani Kaiowá”, resume Matias Hampel, do Parecer Indigenista Propagandista (Cimi). Expulsos de seu território entre 1928 e 1940 e confinados na Suplente Indígena de Sassoró, os Guarani Kaiowá lutam para restabelecer o tekoha (lugar onde se é, em guarani) Pyelito Kue e Mbarakay há gerações.
A espaço – sobre a qual estão também outras propriedades rurais, porquê a Herdade Catadupa e a Herdade Santa Rita – integra a Terreno Indígena (TI) Iguatemipeguá I, já identificada e delimitada pela Funai desde 2013. O processo demarcatório, no entanto, está estagnado.
“Essa violência infelizmente vivida agora por um jornalista estrangeiro é o que há décadas a comunidade denuncia estar sofrendo. O caso de agora remonta ao período em que acompanhamos 33 ataques paramilitares contra a comunidade em oito meses, entre 2015 e 2016”, ressalta Hampel.
Acionada pelo Cimi desde a segunda-feira (20), quando chegaram as informações de que acontecia um ataque armado contra a retomada, a Força Pátrio chegou ao lugar unicamente depois da agressão ao fotojornalista canadense. As caminhonetes e os homens armados já haviam se retirado.
“Já há muitos anos esperando a justiça que não vem, decidimos fazer a retomada. É onde agora é a Herdade Maringá, mas ali é a nossa lugarejo, é o meio da lugarejo Pyelito”, conta José.
“Foi de manhã quando os pistoleiros chegaram, primeiro eram quatro. A gente não tem arma, zero para se tutorar, só círculo e flecha. Quando eles começaram a atirar, o pessoal correu, corri também. Ali embaixo tem uma represa, e tinham outros nove pistoleiros escondidos no mato”, relata o indígena. Ali que três mulheres e um varão foram pegos e, segundo ele, muito feridos.
“Uma delas uma senhora, eles bateram mais. Machucou muito o braço e a perna dela. Eles bateram na bojo das outras mulheres com a espingarda”, descreve José.
AGRESSÕES
A antropóloga Carolina Mira, o fotojornalista canadense Renaud Philippe e o o engenheiro florestal Renato Farac acompanhavam a Aty Guasu, Grande Reunião Guarani Kaiowá, no município de Caarapó (MS) quando, na quarta-feira (22), foram até Iguatemi (MS), na fronteira com o Paraguai.
A antropóloga e cineasta Carolina Mira e o fotojornalista Renaud Philippe trabalham há 2 anos em um documentário sobre luta por terreno / Cimi Regional MS
Na rodovia MS-386 e já próximos da espaço onde pretendiam apurar as denúncias, encontraram uma guarnição do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), vinculado à Polícia Militar do Mato Grosso do Sul.
“O policial perguntou quem a gente era, eu falei que da prelo, e ele disse que não tinha nenhuma ocorrência ali. Eu disse ‘a Força Pátrio está vindo, né? Vamos esperar para entender o que está acontecendo’. E ele riu”, conta Mira, que há dois anos trabalha com Philippe em um documentário sobre conflitos de terreno.
Foram ao perímetro urbano e ao retornarem, no entroncamento rústico entre as rodovias 295 e 386, os três se depararam com uma barreira de dezenas de caminhonetes e, segundo eles, de 30 a 50 homens armados, muitos dos quais encapuzados. Logo que o trio desceu do veículo, uma caminhonete se aproximou, o motorista tinha um revólver em mãos e um varão no banco de trás falou para saírem dali.
“Quando a gente estava indo para o sege, os homens mascarados correram na nossa direção e começaram a nos agredir”, conta Mira. Ao Brasil de Indumento, Carolina e Renaud relataram terem sido jogados no pavimento e, principalmente ele, espancado. Com uma faca, cortaram um tufo do cabelo do canadense. “Me xingavam de ‘vadia de ONG’”, diz a antropóloga. Ameaçaram marcar seu rosto com a faca.
“Eu nunca vi um ódio assim. Isso foi o mais terrífico”, salienta Mira. “Coletamos relatos de violências sofridas pelo povo Guarani há dois anos, é muito sofrido ouvir. Mas ver esse ódio na sua frente é impressionante”, diz. Trabalhando há 20 anos em áreas de conflito, o jornalista canadense afirma nunca ter visto um pouco similar.
Enquanto eram agredidos, os três tiveram todos os pertences tirados de dentro do sege. De havaianas até passaportes, cartões bancários, câmeras fotográficas, cadernos pessoais, quantia e celulares. Em oferecido momento, uma viatura da Polícia Militar apareceu. Carolina conta que fez a eles um sinal de pedido de ajuda. Foi ignorada.
“Ver a polícia, ver que nos viram, viraram a cabeça e se retiraram, é inacreditável. Não há porquê fugir da pergunta: a quem eles estão servindo?”, questiona Renaud Philippe. O fotojornalista está com um enorme hematoma na bojo.
O Brasil de Indumento pediu uma posição da Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso do Sul, governado por Eduardo Riedel (PSDB), mas não teve resposta até o fechamento da material.
Em oferecido momento, a antropóloga, o jornalista e o engenheiro florestal conseguiram se desvencilhar, entraram no sege e foram até Amambai (MS), onde acontecia um encontro da Kuñangue Aty Guasu, Grande Reunião das Mulheres Guarani Kaiowá.
“É muita violência, mas também a venustidade da luta é enorme. Difícil encontrar um pouco parecido”, relata Carolina, ao expor que, quando chegaram em Amambai, foram acolhidos com cantos. “Os rezadores vieram nos fazer uma tratamento para tirar o susto e proteger contra a malícia”, expõe.
Acompanhados pela Defensoria Pública da União (DPU), os três registraram a ocorrência na Delegacia de Amambai. O caso foi guiado à Polícia Federalista de Naviraí, “tendo em vista que o traje ocorreu em contexto de disputa de terras envolvendo comunidades indígenas da região de Iguatemi e em razão deste conflito”, informou a DPU.
Enquanto estavam na delegacia, afirmou Renaud Philippe, perceberam estar sendo observados por pessoas em um sege que passava muito lentamente. Nele estava escrito: “Herdade Maringá”.
“SÓ QUEREMOS NOSSO TEKOHA”
O drama de Pyelito Kue ganhou grande repercussão em 2012 quando, ameaçados de resíduo de uma espaço que ocupavam às margens do Rio Hovy, a comunidade soltou uma epístola pública interpretada por alguns porquê o pregão de um suicídio coletivo.
“Queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos maiores cá mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e à Justiça Federalista para não preceituar a ordem de resíduo, mas solicitamos o decreto da nossa morte coletiva para nos enterrar cá”, dizia a epístola. A reação gerou uma campanha nas redes sociais em que as pessoas colocaram “Kaiowá” porquê sobrenome.
O documento, explica Matias Hampel, não anunciava um suicídio. “Essa epístola era de um povo massacrado dizendo que conhecia muito muito a violência, mas que se submeteria a ela se fosse preciso, com a máxima coragem para restabelecer aquilo que os tornava pessoas. Seu tekoha”, diz.
Em 2015, dois anos depois de os 47 milénio hectares da TI Iguatemipeguá I serem delimitados e zero mais sobrevir, os Guarani Kaiowá retomaram segmento do território. “E sofreram um ataque paramilitar brutal dos fazendeiros”, recorda Hampel. “Apanharam muito. Indígenas tiveram suas mãos e pés atados e jogados numa estrada vicinal. Foram encontrados e resgatados pela Funai”, conta.
Dada a violência deste incidente, o Ministério Público Federalista propôs um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) delimitando que os indígenas permaneçam em uma espaço de 90 hectares, onde estão desde logo. Trata-se de 0,2% do território já delimitado pela Funai. “A comunidade vem tentando, sem sucesso, dialogar com o Estado para dar uma ligeireza para o seu processo”, destaca Hampel.
“Cá a gente não tem muito espaço, não. Queremos plantar, viver muito, isso cá não é a nossa lugarejo ainda”, ressalta José. “Queremos viver em silêncio na nossa própria terreno. Só queremos nosso tekoha. E quinteiro não quer entregar. Mas a gente não vai parar de lutar”, garante.
*Nome modificado para preservação da nascente
* Esta material é de autoria de site parceiro, que se responsabiliza pelo teor publicado