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Candinho, único filho vivo de João Cândido, luta por reparação histórica

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 11/11/2023 às 05:00 · Atualizado há 1 semana
Candinho, único filho vivo de João Cândido, luta por reparação histórica
Foto: Reprodução / Arquivo

Mariana Tokarnia — Dependência Brasil

Em novembro de 1910, muro de dois milénio marinheiros tomam o controle de embarcações da Marinha na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Eles pedem o termo de castigos corporais, as chibatadas, e são liderados pelo navegante João Cândido Felisberto, ou simplesmente João Cândido.

Os canhões dos navios são apontados para aquela que era a capital do Brasil na idade, não com a intenção de bombardear, mas para invocar a atenção a práticas que ainda remetiam à recém-extinta escravidão. O pavio para a revolta foi a punição do navegante Marcelino Rodrigues Menezes com 250 chibatadas.

O motim tomou grandes proporções e João Cândido foi alçado a herói e notoriedade. Mas, assim uma vez que cresceu, a revolta foi abafada a ponto da sua prestígio ter sido invisibilizada por muitos anos.

Os marinheiros que sobreviveram tiveram a anistia negociada na idade. João Cândido, no entanto, apesar de ter sido também anistiado, foi duramente perseguido, até ser expulso da Marinha, em 1912. Ele morreu aos 89 anos, em 1969, na pobreza.

Hoje, a história é contada e recontada por Adalberto Cândido, o seu Candinho, 85 anos, único rebento vivo de João Cândido. “É uma história muito formosa, é uma história de um herói popular. Um país que não tem história não é um país, e meu pai deixou uma segmento da história do Brasil”, diz.

João Cândido Felisberto foi o principal líder da Revolta da Verdasca, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910, que acabou com os castigos corporais na Marinha de Guerra

CASA DA MEMÓRIA

A Instauração de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj), em parceria com a Prefeitura de São João de Meriti, sítio onde o pai viveu grande segmento da vida, junto com Candinho, se reuniram para homenagear seu pai João Candido por meio da construção da Moradia de Memória Nauta João Cândido. A vivenda será construída pela Instauração de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj), em parceria com a prefeitura de São João de Meriti, onde Candinho nasceu e onde o pai viveu grande segmento da vida.

“Agora já tem peça de teatro, tem doutorado, tudo que você imaginar. Tudo que possa ter ele, tem”, diz. Se antes exclusivamente reportar o nome de João Cândido já trazia consequências para quem o fazia na Marinha, hoje batem continência para mim”, revela. João Cândido – também chamado de Almirante Preto – patente eternizada na melodia Rabino Sala dos Mares, de João Bosco.

O reconhecimento, no entanto, é recente, e ainda tem um longo caminho. A família luta por reparação financeira do Estado e pela inclusão do nome de João Cândido no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Criado em 1992, o livro de aço – confortado no Panteão da Pátria, na Rossio dos Três Poderes, em Brasília, – registra os nomes das pessoas que tiveram uma trajetória importante na formação da história do país. Entre elas, estão, por exemplo, Tiradentes, Chico Mendes e Machado de Assis.

Nascido em 1880, João Cândido era rebento de escravizados. Entrou para a Marinha em uma idade que a corporação reunia jovens excluídos socialmente. A maior segmento dos marinheiros era negra.

João Cândido tinha muito talento. Segundo o rebento, chegou a dar aulas para os oficiais e operava navios de subida tecnologia para a idade, uma vez que o Minas Geraes, usado na Revolta da Verdasca. Ele tinha um tino de coletividade e lutava por justiça.

“Ele nunca levou um punição, mas não aceitava que os companheiros dele [passassem por isso], entende?”, diz. “Ele tinha convívio com oficiais e tudo, mas tinha aquele ideal, não era porque tinha convívio com solene da Marinha que aceitava aquilo”.

Tudo que sabe sobre o pai, Candinho aprendeu depois da morte dele. Era a mana, Zeelândia Cândido de Andrade, quem cuidava da história e legado do pai. “Meu pai era muito fechado. Gaúcho. Ele não contava zero. Eu só vim entrar depois do falecimento dele e da minha mana, que minha mana era mais atuante. Eu também, trabalhando, não tinha tempo. Agora, só tem eu para defender”, explica.

João Cândido nasceu em Encruzilhada (RS) e, ao longo da vida, teve pelo menos sete filhos. “Meu pai era navegante, né”, brinca, Candinho. Depois de ser expulso da Marinha, ele teve muita dificuldade para conseguir serviço. Viveu da pesca, segundo o rebento, “até a estrutura dele não dar mais”. E viveu sempre próximo ao mar. “Ele dizia que o mar era família dele, que era camarada”, conta o rebento.

BUSCA POR DIREITOS  

Esta semana, o Ministério Público Federalista (MPF) no Rio de Janeiro enviou documento ao Executivo e à Câmara dos Deputados defendendo a reparação – inclusive financeira – à família de João Cândido. O MPF pediu a revelação da Percentagem de Anistia e da Coordenação-Universal para Memória e Verdade sobre Escravidão e o Tráfico Transatlântico, ambas vinculadas ao Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania, no prazo de um mês.

O MPF argumenta que – embora anistiado duas vezes – em 2008 ele recebeu uma anistia depois de morrer no governo de Luiz Inácio Lula da Silva – o navegante não chegou a receber nenhuma ressarcimento. Pela curso na Marinha, da qual ele foi privado, teria uma série de benefícios, não exclusivamente para ele uma vez que para a família. Um busto de leis, citado pelo MPF – corrobora o recta a esse tipo de ressarcimento.

“Minha família vive toda com dificuldade. São trabalhadores. Logo, se houver essa reparação para eles… Porque para mim, eu já estou mais para lá, com 85 anos, mas eles não”, afirma Candinho.

“Os marinheiros foram anistiados, uns chegaram a capitão de corveta, capitão de fragata, meu pai, não. Ele foi absorvido, mas não teve mais espaço na Marinha, nem indenização, nem zero”, reclama.

Outrossim, o MPF e a família defendem que ele seja oficialmente considerado herói, que tenha o nome inscrito no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A inclusão está tramitando no Congresso Vernáculo e ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados antes de ir para a sanção presidencial. Atualmente, o Projeto de Lei (PL) 4046/2021, já reconhecido pelo Senado Federalista, está na Percentagem de Cultura da Câmara.

SAMBA-ENREDO 

Candinho e a família levarão a história de João Cândido para o Carnaval de 2024 do Rio de Janeiro.

A escola de samba Paraíso do Tuiuti irá homenagear o líder da Revolta da Verdasca com o samba-enredo Glória ao Almirante Preto. “Recebi com muita gratidão essa notícia”, opina Candinho. Ele irá desfilar em um dos carros alegóricos com outros familiares. “Querem até que eu faça ginástica, treino físico”, sorri.

 

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