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Brasileiros desistem de medicina por custos meteóricos

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 21/11/2024 às 17:52 · Atualizado há 1 semana
Brasileiros desistem de medicina por custos meteóricos
Foto: Reprodução / Arquivo

Estudantes que se mudaram para a Argentina em busca do sonho de cursar medicina estão sendo obrigados a repensar os planos após a nova política de reajustes praticada por unidades de ensino locais. Na Fundación Barceló, em Buenos Aires, que, de acordo com o Centro de Alumnos, é a instituição com maior percentual de alunos brasileiros no país, o valor das mensalidades saiu de 14 mil pesos argentinos (cerca de R$ 450) em 2022 para até 392 mil (R$ 2,2 mil) para quem fizer a matrícula para dar continuidade ao curso em janeiro de 2025. 

A nova realidade tem sido imposta após o presidente Javier Milei revogar, por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 70/2023, em dezembro, a lei que limitava os reajustes de preços em diversos setores, incluindo o ensino privado, o que já tem levado brasileiros a desistir do sonho de se formarem no país. Na terça-feira (19), um coletivo discente protestou em frente à fundação pedindo por soluções que viabilizem a conclusão formativa, já que, segundo eles, os reajustes são praticados mensalmente e só descobertos após a emissão das cobranças, o que estaria dificultando qualquer planejamento financeiro.

Leonardo Cinel, 23 anos, precisou abandonar o curso na Barceló

Antes as universidades daqui tinham um topo, elas tinham uma fiscalização de até onde elas poderiam aumentar. Quando o Milei ingressa no governo, ele corta essa fiscalização, fazendo com que qualquer universidade privada possa aumentar o tanto que eles acham que devem aumentar. […] De repente, do dia pra noite, […] meio que triplicou o custo

— reclama a presidenta interina do Centro de Alumnos da Fundación Barceló, Dara Marques, 22 anos, que há dois anos saiu de Juatuba (MG) e se mudou para Buenos Aires para tentar a formação, com conclusão prevista para 2029.

O paulistano Leonardo Cinel, 23 anos, foi um dos que precisaram abandonar os estudos por não conseguir arcar com os sucessivos aumentos. “Esse ano [2024] a gente viu um aumento saindo de R$ 1 mil para R$ 1,5 mil […] agora no final do ano eles anunciaram que só a matrícula já vai ser quase R$ 3 mil. Então foi um aumento que realmente não é mais na base da inflação, não é mais na base do índice de poder de compra da Argentina, do IPC [Índice de Preços ao Consumidor]”, aponta o ex-aluno, que precisou deixar o curso no terceiro ano de formação, após ter tentado , por três anos, ingressar em universidades brasileiras, sem sucesso.

Sede da Fundación Barceló em Buenos Aires, ArgentinaSede da Fundación Barceló em Buenos Aires

Em resposta aos alunos, a Fundación Barceló divulgou nota lamentando “que um grupo minoritário de estudantes, por meio de suas manifestações, tente afetar o prestígio de nossa instituição e impacte negativamente aqueles estudantes que confiam na Fundación Barceló para se formar e desenvolver profissionalmente”. Segundo o centro de ensino, “entre janeiro de 2022 e outubro de 2024, a inflação acumulada foi de 1.273%, enquanto as mensalidades aumentaram 1.280%, evidenciando que ambos os indicadores cresceram em proporções praticamente similares”. A faculdade também indicou ter um programa de bolsas e empréstimos de honra para estudantes em dificuldade financeira.

Dificuldades vão além do financeiro

De acordo com o Centro de Alumnos da Fundación Barceló, a infraestrutura da instituição seria insuficiente para atender à demanda estudantil, com salas de aula que comportam um máximo de 60 alunos.

A paulista Marianna Moreira, 21 anos, disse que precisou desistir do curso por não conseguir arcar com os custos após os reajustes e que o modelo de ensino contribuiu para a decisão. “Não tem como eu começar a pagar mais de R$ 2 mil pra poder ter aula pelo [aplicativo de videoconferências] Zoom”, afirmou Moreira, que disse que a maioria das aulas ofertadas até o seu segundo ano de formação era no formato a distância (EAD). Ela segue no país para tentar ingressar em uma das instituições públicas argentinas.

Marianna Moreira, 21 anos Marianna Moreira, de 21 anos, também precisou sair da Barceló por não conseguir arcar com os aumentos

A Barceló foi constituída a partir do Instituto de Docencia e Investigaciones Biológicas da Argentina, em 1991, após, segundo a própria organização, ter contribuído para a formação de mais de 40 mil médicos. Além da sede em Buenos Aires, tem unidades em La Rioja, Corrientes e Misiones. A família Barceló ainda faz parte do conselho superior desde que a instituição foi criada. Procurada para falar sobre as dificuldades relatadas pelos estudantes, a fundação ainda não respondeu aos questionamentos da reportagem.  

O ensino superior privado na Argentina representa 48% do mercado. Dispositivos de proteção contra abusos econômicos, como a Lei 20.680, conhecida como Lei de Abastecimento, derrubada por Milei, eram usados desde 1974 como forma de garantir acessibilidade e proteção ao consumidor. Desde que assumiu, o presidente tem tomado decisões de desregulação e cortes estatais em função da crise econômica. A inflação acumulada no país desde o início do ano alcançou 107%.

Presidente da Argentina, Javier Milei Presidente da Argentina, Javier Milei

Milei não estava em Buenos Aires durante o protesto realizado pelos estudantes da Barceló na última terça-feira. Ele havia viajado ao Brasil, onde decidiu participar, de última hora, do G20 Rio de Janeiro 2024, que discute propostas visando ao fortalecimento da economia e ao desenvolvimento social global. O presidente argentino voltou na quarta-feira à Argentina, onde recebeu a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.

Arquivo pessoal

Medsciear/Wikimedia Commons

Arquivo pessoal

Tomaz Silva/Agência Brasil

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